Na ESPN, Rafael Oliveira revela: “saída foi decisão do EI”

Rafael OLiveira

 

Jornalista diferente do comum, que se destaca pela lucidez dos comentários e pelo enorme conhecimento sobre futebol internacional. Referência da famosa “geração Playstation”, Rafael Oliveira é comentarista nos canais ESPN desde julho de 2013. Formado em Jornalismo na PUC-Rio, em 2009, o carioca trabalha na profissão desde 2007.

Revelado pelo Esporte Interativo, começou como produtor dos jogos que eram transmitidos, mas logo impressionou a direção da emissora e virou comentarista. Questionado sobre sua saída da emissora carioca, Rafael Oliveira deixou claro que foi uma opção da própria empresa. “Minha saída foi uma decisão do Esporte Interativo. Pelo cada vez mais frequente corte de gastos no jornalismo e porque a programação já não contava com tantos campeonatos como entre 2007-12”, revelou.

Confira a entrevista completa:

1 – Como foi virar comentarista de um canal esportivo com apenas 18 anos?

Foi um desafio e tanto, mas ao mesmo tempo uma novidade. Eu não me imaginava trabalhando com câmeras ou microfone. Além disso, tinha acabado de entrar na faculdade e era o meu primeiro estágio. Em dois meses como produtor, surgiu a oportunidade.

2 – Você se formou em 2009, mas já trabalhava na profissão desde 2007. Acha que existe algum tipo de preconceito ou desconfiança de veteranos em relação a jovens estagiários que sobem de patamar tão rápido?

Sim, e de certa forma é normal que exista. Não é o caminho comum. Nesse sentido, foi fundamental ter participado de um projeto novo como era o EI na época. Até por ser o início, as oportunidades aparecem em maior número. A desconfiança era mais uma cobrança pessoal para tentar me preparar o máximo possível. E internamente o clima era ótimo com os outros narradores e comentaristas, que me deram a maior força. No meu caso, creio que o maior preconceito tenha sido de parte do público, que até hoje talvez se pergunte o que alguém mais novo está fazendo em um lugar geralmente ocupado por pessoas mais vividas.

3 – Não sei se pode comentar a respeito, mas como foi a decisão de sair do primeiro trabalho e buscar novos ares?

Minha saída foi uma decisão do Esporte Interativo. Pelo cada vez mais frequente corte de gastos no jornalismo e porque a programação já não contava com tantos campeonatos como entre 2007-12. Sou muito grato pelos mais de seis anos no canal, mas acabou sendo uma boa mudança, pois pude realizar um objetivo profissional: trabalhar no lugar que cresci tendo como referência no que mais gosto (o futebol internacional).

4 – Muitos acham que ser jornalista esportivo é fácil por ser “moleza trabalhar com esporte”. Como é sua rotina? Do que teve que abdicar?

De certa forma, é realmente uma moleza trabalhar vendo futebol. Mas não é simples assim. Comentar é apenas a etapa final. O jornalismo impõe alguns horários alternativos. Isso compromete finais de semana, folgas e feriados. A rotina é não ter horários fixos, mas faz parte. Eu não me incomodo tanto porque gosto demais, mas claro que eventualmente você é obrigado a ver jogos menos interessantes em dias que poderiam ser melhor aproveitados. Na verdade, vai da cobrança e consciência de cada um. Não tem muito mistério: quanto mais você acompanha (e é um universo infinito), melhor está preparado. E o que antes era um lazer vira um trabalho sem fim. Como consequência, ficar ligado em tudo significa trabalhar no que seria seu tempo de folga. Com a internet, sempre há algo para explorar e aprofundar. Algumas horas “desligado” e você já está desatualizado em determinado assunto. Então é mais desgastante do que pode parecer, mas é prazeroso.

5 – Como é sua preparação antes de comentar um jogo?

Vejo o dia-a-dia como o mais importante para a preparação. Quanto mais familiarizado com os assuntos, maior é a naturalidade com que você lida com os times, esquemas, jogadores, características e etc. Então, a maior parte da minha preparação está na minha rotina, mesmo bem antes de saber qual jogo vou comentar. Na véspera ou no próprio dia, costumo pesquisar as notícias e prévias sobre o jogo, para tentar não deixar passar alguma estatística, história ou novidade importante. Gosto de pegar as escalações com o máximo de antecedência (geralmente uma hora) e coloco no mesmo papel em que faço um resumo com os tópicos que podem ser interessantes para a transmissão (lesionados, estatísticas, etc). O que considero fundamental, na verdade, é me sentir preparado para não ser surpreendido pelas diferentes situações que podem acontecer em um jogo (substituições, variações táticas e etc).

6 – O que você pensa a respeito do ex-jogador que vira jornalista?

Generalizando, não tenho nada contra. Acho muito válido ter o lado de quem viveu aquelas experiências e sabe muito melhor como funciona o meio. O que questiono é se ter apenas a imagem do boleiro realmente agrega (falando de qualidade, e não do folclore). Infelizmente, faz parte da nossa cultura distanciar a teoria da prática. Logo, historicamente, quem joga rejeita o lado mais analítico da coisa. Se o ex-jogador possui essa visão (e alguns possuem) e realmente se interessa a ponto de acompanhar a fundo, ele largará bem na frente de um comentarista comum. Então vejo muito mais como uma questão de qualidade do indivíduo do que da categoria. Assim como tem jornalistas bons e ruins, tem ex-jogadores bons e ruins para a função.

7 – Além do amor por esportes, outros fatores que levam jovens a sonhar com a profissão são as grandes referências de profissionais que tem por aí. No seu caso, como surgiu o interesse pelo jornalismo esportivo?

Surgiu tarde, bem perto da época de vestibular. Eu pensava em outras profissões completamente diferentes. No fim, quando escolhi o jornalismo, foi uma surpresa para todos e uma aposta ao mesmo tempo. Fui levado mais pelo gosto por esportes do que por qualquer plano.

8 – Sabe-se que você é fissurado por futebol inglês. Acompanhou uma das grandes transformações (início da era Premier League), mesmo numa época onde a TV fechada não era tão difundida como agora. O que exatamente enxergou de tão especial que atraiu seu interesse?

Na verdade, quando comecei a gostar de futebol internacional, me interessava mais pelo Espanhol e o Italiano. Foi no início do século que comecei a dar mais atenção para o Inglês e, aos poucos, fui gostando principalmente da velocidade dos jogos. Aí resolvi acompanhar mais de perto para conhecer melhor os elencos e jogadores.

9 – Uma das maiores características do futebol inglês é a intensidade. Fisicamente falando, o que há de diferente na preparação dos times de lá em relação aos brasileiros? E qual a importância tática de se jogar nesse ritmo?

Acho que são estilos e maneiras de jogar. Ser mais legal ou agradável não necessariamente significa ser o melhor ou o mais forte. No caso da Inglaterra, creio que tenha a ver com a própria origem do futebol local. O “kick and rush” pode ter ficado para trás, mas o DNA ainda tem muito do jogo direto, com a bola parando pouco no centro do campo. A intensidade pode vir daí, mas não basta por si só. A invasão dos estrangeiros ajuda a mesclar um pouco as características.

10 – Se por um lado a Premier League é considerada a melhor liga do mundo, por outro a Seleção Inglesa passa longe de tais glórias. Mesmo com alguns jogadores renomados. Como explicar esse fracasso?

Passa por inúmeros fatores e, ao mesmo tempo, ninguém tem a resposta exata. Talvez o principal motivo seja simplesmente não ter o nível tão alto assim. Ou não ser tão completa assim como time. A falta de jogadores com experiência em outros campeonatos também dificulta o contato com diferentes formas de jogo. No auge do domínio da Premier League, na década passada, a seleção tinha ótimos nomes e não conseguia trocar cinco passes em partidas que exigiam maior cadência, controle e velocidade diferente do campeonato nacional.

11 – Sobre o futebol brasileiro: fala-se que nossa mentalidade está atrasada, que precisamos de ideias e conceitos novos, talvez com ajuda de profissionais de fora. Por que então os técnicos estrangeiros enfrentam tantas dificuldades por aqui?

Porque é quase impossível implantar qualquer ideia nova com a pressão para entregar resultado na semana seguinte. O atraso passa pela mentalidade de todos, na verdade. Não é uma questão dos treinadores apenas. Vejo o obstáculo cultural como um problema maior, porque são inúmeras as barreiras, desde o jogador que não é formado para se preocupar com aspectos táticos/coletivos até o jornalista que não contribui para que o debate suba de nível.

12 – Para mudar a realidade da Seleção Brasileira seria preciso começar as mudanças desde a formação dos jogadores?

Pensando como estrutura, sim. Até para desenvolver um entendimento de jogo coletivo, que atualmente se reflete na falta de jogadores de centro de campo com a característica de distribuição e controle de jogo. Mas isso não significa que o país não revele ou tenha problemas de safra. O Brasil tem ótimos jogadores e pode render bem mais como time.

13- Como explicar o atraso tático do futebol brasileiro?

Cultural. Alimentado desde sempre pelas vitórias conquistadas através do enorme talento do jogador brasileiro. O talento continua existindo, mas a maneira de enxergar e jogar o jogo evoluiu mundialmente. Hoje, é possível reduzir ou potencializar diferenças individuais com estratégias coletivas. Aí entra a importância da tática. Mas enquanto o olhar for exclusivamente direcionado para o talento que decide num brilho individual, a dependência continuará existindo e a cultura não mudará. Em primeiro lugar, é preciso deixar a soberba de lado e entender que as duas coisas podem caminhar juntas.

14 – Parte considerável do público da imprensa esportiva no Brasil ainda não está familiarizada com vários conceitos táticos, por vários motivos, entre eles o fato de considerarem um assunto “muito difícil”. Você se preocupa com o tipo de linguagem que usa para não dificultar a compreensão?

Sim e não. Claro que sempre tentarei falar de uma forma compreensível (não é preciso falar difícil para tocar no assunto), mas isso também não significa abrir mão de abordar certos detalhes que podem ser apresentados nas análises. Vejo a imprensa como parte importante na tentativa de evolução do futebol brasileiro. Porque essa mudança não pode ser cobrada só do treinador. Precisa vir também de quem forma opinião, até para qualificar o debate. Pode parecer assustador para muitos num primeiro momento, mas é questão de hábito. Na minha visão, comentar não é querer ser definitivo sobre um assunto. É analisar as possibilidades, tentar entender o motivo de cada escolha e opinar com algum fundamento e coerência. Porque a polêmica pela polêmica é fácil e gera repercussão, mas agrega pouco. Até por isso prefiro focar no que acontece em campo, sem ter a pretensão de achar que existe uma verdade absoluta.

15 – Por fim, gostaria que você explicasse como virou torcedor do Real Madrid. O que lhe chamou a atenção: estilo, grandes jogadores ou o quê?

Um pouco de tudo, creio. Foi campeão da Champions na época em que comecei a criar mais interesse por futebol europeu (época da Copa de 98 e da explosão dos jogos de videogame/computador).

Comentários

Aspirante a jornalista esportivo e fã de futebol internacional, principalmente Premier League. Adepto da seguinte tese: todo jornalista precisa ser um bom contador de histórias. Sonhador, mas pouco otimista. Olhar crítico e com critério. Abomino paradigmas e modinhas.