As funções de Bale e Ronaldo no Real Madrid 2015/16

  • por Lucas Sousa
  • 4 Anos atrás

Rafa Benítez chegou a Madrid trazendo novidades. Com um elenco recheado de estrelas, o treinador tem testado variações neste início de temporada e começa a mostrar o que será o Real Madrid 2015/16. O 4-3-3 e o 4-4-2 que levaram a décima Liga dos Campeões para o Santiago Bernabéu sob o comando de Carlo Ancelotti ainda estão lá, mas o novo comandante começa a implantar seu estilo na equipe. O 4-2-3-1 tem sido o esquema base neste início de temporada e ele mexe diretamente com as funções de Gareth Bale e Cristiano Ronaldo.

O Real Madrid 15/16: James armando a partir da direita, Bale ponta-de-lança, Ronaldo entrando em diagonal e Benzema abrindo espaços: muita movimentação na frente

James armando a partir da direita, Bale ponta-de-lança, Ronaldo entrando em diagonal e Benzema abrindo espaços: muita movimentação na frente

Bale ponta de lança, o próximo passo da carreira do galês?

Em 2007, o Tottenham comprou o lateral esquerdo Gareth Bale do Southampton. No novo clube, perceberam que o jovem poderia ser mais do que um lateral ofensivo e então o transformaram em winger pela esquerda. Seis anos mais tarde, quando chegou ao clube merengue, o galês foi um ponta direita que entrava em diagonal para finalizar – dessa forma marcou na final da Liga dos Campeões. Agora, Benítez tenta adaptar Bale a uma nova função: a de ponta de lança.

O camisa 11 é o meia centralizado do 4-2-3-1 madridista, mas, diferente do que fazia James Rodríguez nesta posição, ele é menos um armador e mais um finalizador (já foi utilizado até como atacante neste ano). Serão poucos os momentos em que Bale recuará até os volantes ou cairá pelas pontas em busca da bola. Por outro lado, o veremos com muito mais frequência entre as linhas do adversário e atacando o espaço vindo de trás.

Falando sobre o desempenho do seu jogador, o técnico comentou sobre suas funções.

“Ele atacou o espaço, moveu-se entre as linhas e usou a cabeça. Ele nos dá uma força importante no ataque.”

Atribuindo essa nova função ao jogador, Rafa espera que Bale utilize sua velocidade e força física para ser um elemento surpresa no meio do ataque, tanto em jogadas pelo chão quanto pelo alto. Neste início de temporada já funcionou das duas maneiras. O primeiro gol do Real Madrid no Espanhol mostra exatamente essa nova dinâmica ofensiva da equipe. Pela direita, James levanta a bola na área e Bale aparece nas costas do zagueiro para “usar a cabeça”, como queria seu treinador.

Foto: Reprodução - James pela direita e trio BBC entrando na área. Bale (circulado) recebe o cruzamento e marca de cabeça

Foto: Reprodução – James pela direita e trio BBC entrando na área. Bale (circulado) recebe o cruzamento e marca de cabeça

No mesmo jogo, o número 11 “moveu-se entre as linhas” e recebeu livre para conduzir e bater de longe, anotando seu segundo tento.

Foto: Reprodução - Bale (circulado) recebe passe entre as linhas do Bétis para finalizar de longe

Foto: Reprodução – Bale (circulado) recebe passe entre as linhas do Bétis para finalizar de longe

Nessa inversão de posição entre Bale e James, quem ganha é o jogo aéreo merengue. Além de Ronaldo e Benzema, o time tem uma nova opção para finalizar pelo alto, solução para lances como o do primeiro gol. Note que James está cercado por jogadores do Bétis – são quatro contra o colombiano e Danilo. Porém, o trio BBC está chegando à área, de frente pro lance, para enfrentar três defensores que correm para trás. É vantagem na certa. Com certeza veremos esse tipo de lance mais vezes ao longo da temporada: James pela esquerda atraindo o lateral e fazendo o cruzamento para Bale, Benzema e Cristiano enfrentarem três defensores.

Cristiano Ronaldo volta à beirada (e com total liberdade de movimentação)

Cristiano Ronaldo surgiu como um ponta esquerda de explosão e velocidade. Atuou assim no Sporting, Manchester United e Real Madrid. Porém, aproveitando o instinto goleador ímpar do português, Ancelotti deslocou o camisa 7 para o centro do ataque. Deu muito certo. CR7 virou uma máquina de fazer gols e voltou a conquistar a Bola de Ouro. Mas, por vezes, ele ficava encaixotado entre os zagueiros e acabava anulado na partida (é só lembrar o confronto contra a Juventus, na semifinal da Liga dos Campeões). Talvez para resolver esse problema e ter seu principal jogador mais participativo no decorrer do jogo, Benítez recolocou o craque na ponta esquerda e deu liberdade para ele se movimentar no ataque.

E o que o Real ganha com essa mudança? Principalmente, espaço para o gajo jogar. Partindo da esquerda ele encontrará várias situações de mano-a-mano contra o lateral, podendo usar toda sua velocidade e qualidade técnica numa jogada individual. Pouquíssimos laterais conseguem enfrentar o melhor do mundo neste tipo de lance, o que obriga o oponente a deslocar outro jogador para fazer a cobertura. Se isso acontecer, alguém ficará livre, se não, será um dos jogadores mais rápidos do mundo com campo para correr.

Foto: Reprodução - Ronaldo numa ilha contra o lateral e com muito espaço para o camisa 7 jogar

Foto: Reprodução – Ronaldo numa ilha contra o lateral e com muito espaço para o camisa 7 jogar

Partindo da esquerda, Cristiano também pode se infiltrar na defesa, pode “atacar espaço”, assim como Bale. Nesse movimento, a participação de Benzema é fundamental. Isso porque o francês consegue prender dois oponentes e deixar o português sozinho contra outro. O quarto gol do Madrid contra o Espanyol mostra exatamente isso. Enquanto Bale conduz a bola, Benzema puxa os dois zagueiros para o meio, abrindo espaço para o passe e deixando CR7 contra apenas um defensor. Enfrentá-lo na velocidade já é difícil, agora imagina fazer isso quando ele já está correndo e o defensor ainda tem que virar o corpo para começar a acelerar. É impossível. Por isso sua infiltração é tão importante.

Foto: Reprodução - Benzema puxa a marcação e deixa Cristiano sozinho para receber em velocidade

Foto: Reprodução – Benzema puxa a marcação e deixa Cristiano sozinho para receber em velocidade

Seu primeiro gol na temporada parte do mesmo princípio: Benzema puxa dois defensores e abre espaço para o camisa 7 se infiltrar no mano a mano. A diferença aqui é o passe longo. Com Toni Kroos e Luka Modric no meio-campo, o Real Madrid deve abusar desse tipo de lance ao longo do ano.

Foto: Reprodução - Modric faz o lançamento longo para CR7, que já deixou seu marcador para trás, anotar seu primeiro gol no Espanhol

Foto: Reprodução – Modric faz o lançamento longo para CR7, que já deixou seu marcador para trás, anotar seu primeiro gol no Espanhol

Além do espaço e da infiltração, com Ronaldo na ponta esquerda o Real ganha outras vantagens. Poucos laterais têm altura e impulsão semelhantes às de CR7, o que faz dele uma boa opção para ligações diretas pelo alto. E com certeza quem jogar nesta posição pensará duas vezes antes de se mandar para o ataque de qualquer jeito. Será preciso um movimento coletivo para vigiar o jogador mesmo quando ele não estiver com a bola.

Mas se é tão vantajoso usar o melhor do mundo na ponta esquerda, por que o tiraram de lá? Por que ele não volta para recompor, e também por que não é interessante que ele volte. É melhor resguardá-lo fisicamente do esforço defensivo para que utilize toda sua potência física quando receber a bola. O desafio do novo treinador é criar um mecanismo para fechar o lado esquerdo quando não tiver a bola.

Antes de Bale se contundir, o time espanhol atuava no 4-2-3-1. Nesse esquema, se compensava a ausência do ponta-esquerda com os volantes próximos do lateral e o retorno do ponta-direita. Os Merengues só enfrentaram equipes bem inferiores jogando assim e venceram sem levar gols, mas provavelmente sofreriam bastante contra os gigantes do continente por conta do espaço que fica desocupado por ali.

Foto: Reprodução - Sem Cristiano para fechar o lado esquerdo, Casemiro e Modric aproximam de Marcelo para auxiliá-lo. Do outro lado, Isco volta para equilibrar

Foto: Reprodução – Sem Cristiano para fechar o lado esquerdo, Casemiro e Modric (volantes) aproximam de Marcelo para auxiliá-lo e Isco (ponta-direita) volta, mas ainda assim existe espaço para a progressão

Quando perdeu o galês, Rafa optou pelo 4-3-3 e aí existe uma forma simples de fechar o lado: recuar o ponta direita e abrir o meia esquerda, formando um 4-4-2. Ancelotti fez isso na campanha de La Décima – Bale voltava e Di María abria na ponta esquerda. Pode ser perigoso no caso de uma inversão de bola rápida, mas é um pequeno risco a se correr para resguardar sua melhor arma.

Foto: Reprodução - No 4-3-3, Kovacic abre para fechar a esquerda enquanto Isco volta até os volantes e Ronaldo fica à frente, transformando o esquema em 4-4-2

Foto: Reprodução – No 4-3-3, Kovacic (meia-esquerda) abre para fechar a esquerda, Isco (ponta-direita) volta e Ronaldo fica à frente, transformando o esquema em 4-4-2

Rafa Benítez e seu Real Madrid começaram bem. O calendário também ajudou para instalar essas ideias. A primeira partida “mais pesada” da temporada veio só no sexto jogo, o Athletic Bilbao no San Mamés. O Barcelona, por exemplo, já visitou o próprio Athletic (pela Supercopa e pelo Espanhol), Atlético de Madrid e Roma. O começo tranquilo serviu para iniciar o trabalho com calma e deve ser uma base para o restante da temporada, mas de nada servirá se o novo capitão, Sergio Ramos, não erguer nenhuma taça. Benítez irá atrás delas com Bale centralizado e Cristiano Ronaldo na esquerda. O espanhol apresentou boas ideias. Se dará certo? Só saberemos em junho de 2016.

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Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.