Eduardo Baptista se desconstrói para trocar Sport pelo Flu

Treinador deixou o clube pernambucano e levou consigo Pedro Gama, seu auxiliar (Foto: Marlon Costa/FPF)

Treinador deixou o clube pernambucano e levou consigo Pedro Gama, seu auxiliar (Foto: Marlon Costa/FPF)

Subitamente, Eduardo Baptista deixou o cargo de técnico do Sport. Valorizado após comandar o Leão por um ano e sete meses, ele surpreendeu a diretoria ao abandonar o clube onde iniciou sua carreira de treinador e tornou-se um dos profissionais mais cobiçados do país. Convicto e irredutível, simplesmente comunicou sua decisão ao presidente leonino e partiu sem sequer se despedir dos jogadores, que foram pegos de surpresa enquanto jantavam.

No Rio de Janeiro com a delegação do Sport para enfrentar o Vasco, Baptista teve uma reunião com o presidente do Fluminense, foi “seduzido” por um projeto e uma proposta financeira vantajosa e assinou um contrato até o fim de 2016 com o clube, onde chega para recolocar o time nos trilho das vitórias após uma série de seis jogos sem vencer. Missão que ele havia acabado de cumprir no Rubro-negro pernambucano, o que só deu um tom ainda maior de estranheza à sua abrupta decisão.

Essa falta de timing, no entanto, é a menor das incoerências existentes entre o discurso que consolidou Eduardo Baptista como um dos técnicos mais desejados do mercado nacional e tudo o que envolve sua decisão. Trocando repentinamente o Sport pelo Fluminense, o treinador não só deixa para trás todo o trabalho que vinha desenvolvendo no clube pernambucano, como também cinco dos conceitos e valores que vinha pregando em suas aparições na mídia.

Renê e Joelinton foram os melhores frutos da base revelados por Eduardo. E os próximos? (Foto: Marlon Costa/FPF)

Renê e Joelinton foram os melhores frutos da base revelados por Eduardo. E os próximos? (Foto: Marlon Costa/FPF)

Tudo andando…
Em mais de uma oportunidade, inclusive aqui no DPF, Eduardo foi exaltado por seu trabalho integrado às categorias de base do Sport. Elogios indiscutivelmente merecidos: com ele, o clube voltou a revelar talentos, a ter pratas da casa no time titular e até a fazer dinheiro com vendas desses jogadores para times de mercados mais ricos. Nesse sentido, o Leão avançou bastante com o técnico, se reposicionando como instituição formadora.

O próprio treinador parecia ter consciência disso. Em um discurso afinado às práticas da diretoria, ressaltava a importância de se ter um elenco com 40% de jogadores da base. E sempre se declarava disposto a conduzir esse processo, afinal, achava difícil que outra pessoa tivesse “o mesmo carinho” com os garotos. “Tem essa responsabilidade e eu não saio a não ser que as coisas andem”, assegurou, em entrevista concedida ao Superesportes no fim de maio. Bom sinal para Neto Moura, Ronaldo e outros jovens?

Último técnico demitido pelo Fluminense, Enderson Moreira comandou o clube por menos de três meses (Foto: Nelson Perez/Fluminense FC)

Último técnico demitido pelo Fluminense, Enderson Moreira comandou o clube por menos de três meses (Foto: Nelson Perez/Fluminense FC)

Projeto?
O que me seduziu foi o projeto apresentado pelo presidente Peter Siemsen”, disse Baptista, explicando brevemente, ao site oficial do Flu, o porquê de sua escolha. É justo interpretar, portanto, que as palavras do mandatário tricolor foram bem mais persuasivas do que os gestos dos dirigentes do Sport. Que mesmo com uma sequência de dez jogos sem vencer, mantiveram Eduardo à revelia de grande parte da torcida – e que já haviam feito o mesmo um ano antes.

Tão conhecida quanto essa firmeza da diretoria rubro-negra é a facilidade com que o Fluminense demite treinadores. Segundo levantamento do diário mexicano “El Economista”, o Tricolor é simplesmente o clube com mais trocas de comando desde 2002, entre as cinco principais ligas das Américas e as cinco maiores da Europa. Nesse período, nada menos que 44 técnicos passaram pelas Laranjeiras. Só em 2015, já foram três: Cristóvão Borges, Ricardo Drubscky e Enderson Moreira. Nessa média de uma demissão por estação, o verão promete ser quente…

No dia 15 de setembro, torcedores invadiram o treino do Fluminense: cena rotineira (Foto: Reprodução)

No dia 15 de setembro, torcedores invadiram o treino do Fluminense: cena rotineira (Foto: Reprodução)

Certeiro… só que não
Outro aspecto que Eduardo gostava de alardear sobre o Sport era o avanço estrutural do clube nos últimos anos. Responsável por criar no clube uma rotina de treinos no CT, ele sempre fazia questão de destacar as boas condições de trabalho dadas a si e aos jogadores, inclusive citando isso como um dos diferenciais entre o Rubro-negro e algumas equipes do Sul e Sudeste do país. Nós temos um CT que não perde para nenhum do Rio, de São Paulo, até de Minas e do Rio Grande do Sul. Campos de última geração, drenagem eletrônica, o que possibilita o profissional e a base treinarem lado a lado. Isso tem seduzido os jogadores”, declarou em entrevista ao Bate Bola, da ESPN.

Todo esse bem estar profissional proporcionado pelo Sport não foi, no entanto, suficiente para convencer o técnico a continuar. Até seria compreensível, se ele não tivesse trocado esse alto padrão das instalações rubro-negras pelo cenário de severas dificuldades estruturais enfrentado pelo Fluminense. Um clube que realiza seus treinos em um estádio inaugurado em 1914, famoso pela presença constante de roedores de pequeno porte, que está sempre sujeito a intervenções nem sempre pacíficas de torcidas organizadas.

Quando participou do Bate Bola, da ESPN, o técnico jurou fidelidade ao projeto do Sport (Foto: Reprodução)

Quando participou do Bate Bola, da ESPN, o técnico jurou fidelidade ao projeto do Sport (Foto: Reprodução)

“Ética”
Mas há ocasiões em que trabalhar em condições mais precárias vale a pena. Principalmente quando se ganha mais para tanto. Caso de Eduardo Baptista. Foi o que ele mesmo disse ao presidente rubro-negro quando comunicou, resoluto, sua partida. “Ele já chegou dizendo que estava saindo por causa da proposta financeira”, disse João Humberto Martorelli. O assédio ao técnico através de altas propostas não era novidade para os dirigentes. O que eles não esperavam era que esse seria o fator preponderante para que ele largasse o projeto erguido desde 2014.

Essa surpresa se deu porque o treinador afirmou mais de uma vez que nenhuma proposta o tiraria do Sport. Em rede nacional, no Bate Bola da ESPN Brasil, ele foi enfático. “No meu plano de carreira, eu vou até o fim do contrato. Pode vir a oferta que for, não tem dinheiro que pague isso para mim. É uma ética minha, um critério meu”, proclamou, no dia 25 de junho. Quase três meses depois, com a reta final do Campeonato Brasileiro e as oitavas de final da Copa Sul-Americana pela frente, o discurso do técnico agora vale tanto quanto os três gols perdidos por Régis e Maikon Leite no empate (mais um) da última quarta-feira.

Peter Siemsen, o homem que convenceu Eduardo, tem enfrentado dificuldades para honrar os compromissos do clube (Foto: Nelson Perez/Fluminense FC)

Peter Siemsen, o homem que convenceu Eduardo, tem enfrentado dificuldades para honrar os compromissos do clube (Foto: Nelson Perez/Fluminense FC)

Meses mais longos
No Fluminense, Eduardo pode ter que se acostumar a mais um cenário que não precisou enfrentar no Sport. Como técnico, nunca experimentou um mês com mais de 31 dias. E no exercício da função, nunca teve que lidar com um elenco cheio de jogadores que não estão recebendo em dia. Problemas que há anos não fazem mais parte da rotina do Rubro-negro pernambucano, mas que, no Fluminense, ainda são fantasmas bastante presentes.

Atravessando sua primeira temporada após o rompimento da parceria que bancava o futebol do clube há mais de uma década, o Tricolor das Laranjeiras ainda se vê em situação econômica delicada. Há poucos meses, o clube lutava para colocar em dia dois meses de salários atrasados. Teve que se desfazer de Gérson, uma de suas principais joias, para levantar o dinheiro necessário para quitar dívidas com os atletas. É assim que o Flu vem sobrevivendo sem seu mecenas: vende o almoço para comprar o jantar. Esse clima de suspense, agora, é parte do dia a dia para Eduardo Baptista.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.