História do futebol colombiano: a Era dos Narcos

  • por Doentes por Futebol
  • 4 Anos atrás

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Parte 1: Do nascimento à Era de Ouro
Parte 3: A Era dos Narcos (continuação)
Parte 4: A reconstrução

Por Ivan Alves Pereira

Após apresentar o nascimento do futebol colombiano até sua Era de Ouro, chegou a vez da Era dos Narcos. Antes, porém, uma reflexão necessária…

Escrever sobre os anos 1980 na Colômbia é uma tarefa muito complicada, especialmente neste momento em que milhares de séries, filmes e livros com um olhar romântico sobre o período são lançados. Muitas obras de ficção estão glamourizando a máfia e transformando pessoas como Pablo Escobar e Gilberto Rodríguez Orejuela em novos “Don Corleones”, figuras cultuadas, com uma certa “aura” e admirabilidade. Mas é nosso dever jamais esquecer que tudo o que se passou então foi horrível. Tais pessoas não são boas sob nenhum prisma.

Não devemos relativizar o que Pablo, Gilberto entre outros fizeram; não devemos transformá-los em novos popstars. Os “narcos” mataram milhares de pessoas, seres humanos que existiram de verdade, pertenceram a famílias reais e que sofreram (e ainda sofrem) muito com suas perdas. Estes homens aterrorizaram não somente uma nação, mas todo um continente por muito tempo e não merecem nenhum tipo de louvor.

É claro que histórias como importar uma quantidade enorme de animais africanos, levantar hotéis 5 estrelas em ilhas do Caribe para lavar dinheiro, construir sua própria prisão com cassino e cinema, ter a espada de Simón Bolívar, queimar dinheiro para aquecer um filho ou se propor a pagar a dívida externa da Colômbia são muito sedutoras (embora nem sempre verdadeiras). O problema é que, quando menos percebemos, nos deixamos levar e nos tornamos vítimas de uma espécie de Síndrome de Estocolmo, olhando com admiração para figuras nefastas e danosas.

Eu, de minha parte, quando comecei meus estudos sobre Colômbia, conheci o irmão de Pablo em Medellín. Na época, eu tinha uma camisa com seu rosto estampado e gostava muito de suas histórias. Com o tempo, fui entendendo o quanto a minha postura contribuía para justificar uma série de atrocidades que acontecem na Colômbia até hoje.

Por último, antes de partir definitivamente ao que interessa, utilizo este espaço para convidar todos os leitores a refletir sobre todo conteúdo gerado por séries e documentários sobre o assunto. Em primeiro lugar, é importante lembrar que séries não são documentários e não possuem compromisso algum com a verdade – o compromisso é com o entretenimento. Documentários, por outro lado, sempre estão partindo do ponto de vista (e obedecendo aos interesses) de alguém.

Aos que se interessam em estudar o tema, sugiro que leiam livros, busquem documentos, procurem saber mais sobre figuras como Álvaro Uribe, Manuel Noriega, Daniel Ortega. Procurem entender como o narcotráfico nos influencia aqui no Brasil, como se trata de algo que faz parte de um grande sistema. É no mínimo ingênuo acreditar que uma indústria global, que movimenta bilhões de dólares e afeta milhares de pessoas, resulta da ação de um ou outro individuo isoladamente.

Guerra ao comunismo e liberdade para os Narcos

Pois bem, se no artigo anterior falamos da primeira era dourada do futebol colombiano, neste falaremos da segunda. Assim como em sua primeira fase (e em toda a história do esporte pelo mundo), o futebol colombiano nos anos 1980 foi usado para desviar o olhar dos problemas políticos pelo qual passava o país no período, sendo grande parte deles fruto da época de “La Violência”, que já retratamos no primeiro artigo.

A Colômbia do final dos anos 1970, governada pelo Liberal Alfonso Michelsen, acabara de passar por um grande ciclo de produção de Café, um dos principais vetores da economia local. Este momento próspero veio acompanhado por uma inflação que beirava os 40% ao ano e um aumento abusivo do custo de vida. Com esta pequena crise, e um grande número de demissões, ocorreu um ganho de força dos sindicatos.

Ao contrário dos demais países da região, a Colômbia não passou por um grande período de ditadura na segunda metade do século XX, somente uma intervenção militar de 4 anos entre 1953 e 1957. Contudo, durante o governo Michelsen, a repressão pode ser comparada aos acontecimentos mais dramáticos do continente. A coerção aos sindicatos foi grande e a esquerda armada, principalmente grupos como o M-19 e ELN, ganhou muita força.

Apaixonado por futebol, Gabriel García Marques foi deportado em uma época turbulenta na Colômbia (foto aqrquivo)

Apaixonado por futebol, Gabriel García Marques foi exilado em uma época turbulenta na Colômbia (foto arquivo)

Neste momento da história, as drogas já existiam na Colômbia e os grandes traficantes tinham vida fácil – a atenção do governo estava toda voltada para a guerrilha. A gestão de Julio Cesar Turbay, sucessor de Mochelsen, foi marcada por torturas e exílios. Gabriel García Márquez foi um dos exilados deste período, acusado, entre outras coisas, de financiar a guerrilha urbana M-19, responsável por sequestrar a embaixada da República Dominicana em fevereiro de 1980, mantendo reféns por quase dois meses e atraindo toda atenção da mídia internacional para a violência na Colômbia. Pablo Escobar aproveitou a desatenção das autoridades em relação às drogas e executou seus mirabolantes planos políticos e sua ostentação desenfreada.

Os narcotraficantes entram em campo

É muito complicado definir quando e onde a máfia penetrou no futebol colombiano. A versão mais aceita diz que, ao final dos anos 1970, um grupo desconhecido de traficantes de maconha em Santa Marta já investia no Únion Magdalena (clube que revelou Carlos Valderrama). Esses investimentos eram pequenos, não resultaram em títulos nem em grandes contratações – muito em função disso, trata-se de um período pouco estudado. Já nos anos 1980, os grandes cartéis da Colômbia, sendo o Cartel de Medellín liderado por Pablo Escobar e o de Cáli pelos irmãos Rodríguez Orejuela e Gonzalo Rodríguez Gacha, investiram pesado no futebol do Atlético Nacional, América e Millonarios, respectivamente.

O narcotráfico viu o futebol não somente como uma forma de lavar dinheiro e diversificar suas atividades, mas também como uma porta para a alta sociedade. É importante lembrar que os chefes tinham dinheiro, mas não necessariamente influência e investir no esporte foi uma forma de conseguir ascender na sociedade colombiana.

Irmãos Orejuela e América de Cáli

Ainda com Turbay na presidência, no final da década de 1970, os irmãos Rodríguez Orejuela chegaram ao América de Cáli, depois de uma tentativa frustrada de entrar no quadro de sócios do Deportivo Cáli (do qual os dois eram torcedores fanáticos). Até então, o América era um clube sem títulos expressivos. O dinheiro das drogas, porém, permitiu a chegada de atletas de primeira grandeza, que dificilmente jogariam lá de outra forma.

O primeiro título veio em 1979 com o técnico Gabriel Ochoa Uribe. Nos anos 1980, o América venceu cinco vezes seguidas o Campeonato Colombiano e foi três vezes finalista da Copa Libertadores, algo completamente impensável para um clube colombiano até então. Jogadores de renome em todo continente chegaram ao time, com quantias exorbitantes sendo gastas para trazer craques do nível de Roberto Cabañas, Julio Uribe e Ricardo Gareca (sim, ele mesmo). Contudo, depois da derrota do América para o Peñarol do Uruguai na final da Libertadores de 1987, os investimentos cessaram.

Diego Aguirre marca nos segundos finais para o Peñarol e o América é vice da Libertadores pela terceira vez consecutiva. (foto arquivo)

Diego Aguirre marca nos segundos finais para o Peñarol e o América é vice da Libertadores pela terceira vez consecutiva. (foto arquivo)

Bem, os tempos na Colômbia eram outros e vida dos narcotraficantes já não estava tão fácil. O Ministro Lara Bonilla (que acabou assassinado a mando de Escobar por denunciar o envolvimento do então parlamentar com drogas), a essa altura, já havia denunciado a presença da máfia no futebol. A gestão de Belisário Betancur ficou marcada pela tomada do Palácio da Justiça pelo M-19 em 6 e 7 de novembro de 1985. Depois deste grande episódio, iniciou-se um processo de paz com as guerrilhas e os narcotraficantes passam a ser alvo prioritário do Estado.

Embora a Colômbia tenha sido o país menos afetado pela crise no continente ao longo dos anos 1980, inclusive se vendendo como um lugar em plena evolução (principalmente a cidade de Medellín com a implantação do metrô e inauguração de seu principal museu), a situação era complicada. Em 1974, o país ganhou a eleição para ser sede do Mundial de Futebol de 1986, mas, em 1982, o presidente declarou que a Colômbia não possuía condições financeiras para atender às exigências da FIFA e preferia destinar os recursos para outros fins. Embora a justificativa pareça nobre, a grande verdade é que todos sabiam que a Colômbia passava por um grande conflito e organizar uma Copa do Mundo lá era absolutamente impossível.

Voltando ao América, é preciso dizer que o Cartel de Cáli, responsável por toda essa aventura financeira, disputava com o Cartel de Medellín o título de maior da história da Colômbia. Durante anos, trabalhou-se com a hipótese de que o único interesse dos irmãos Orejuela em relação ao América era serem aceitos pela elite local, mas, segundo o livro do filho do maior nome do cartel de Cáli, o clube foi apenas um instrumento de lavagem de dinheiro oriundo da coca. Segundo ele, “compravam jogadores que valiam cem mil dólares e diziam que valiam dois milhões” para legalizar o dinheiro. Com o baixo controle de origem de moedas até então exercido pelo Banco Central local, acabou criando-se o cenário perfeito para a lavagem de dinheiro.

Gacha e Millonarios

Em 1983, outro grande clube do país, os Millonarios de Bogotá, era controlado por Edmer Tamayo, acusado de tráfico de drogas na cidade de Barranquilla. Após sua morte em 1986, a equipe passou a ser comandada por uma dupla de advogados, German e Guillermo, sendo o último assassinado dois anos após assumir a diretoria financeira.

O principal suspeito do assassinato de Guillermo é Rodríguez Gacha, um importante membro do Cartel de Medellín – para muitos, tão importante quanto Escobar. Além disso, Gacha é considerado o pai do paramilitarismo de direita, responsável por uma grande quantidade de crimes na Colômbia até hoje. O narcotraficante nutria uma relação com mídia e torcida parecida com a que existe entre Abramovich e torcedores do Chelsea: o desejo por títulos está acima de qualquer coisa (vale lembrar que desde a época dourada, nos anos 1950, o clube tinha deixado do lado o protagonismo no futebol local).

Torcida do Millonarios com uma bandeira em homenagem a Gonzalo Rodríguez Gacha, "El Mexicano" (foto arquivo)

Torcida do Millonarios com uma bandeira em homenagem a Gonzalo Rodríguez Gacha, “El Mexicano” (foto arquivo)

Dois anos após Gacha assumir o Millionarios, veio o primeiro título. O traficante formou uma máquina vencedora em 1987 e 1988 e, naturalmente, uma grande lavanderia de dinheiro ilícito proveniente do narcotráfico e da exploração ilegal de esmeraldas. Um adendo: a exploração ilegal de minérios é um dos grandes motores da máfia na Colômbia até os dias atuais, sendo que muitos grupos atualmente faturam mais com isso do que com as drogas. Depois deste período, Gacha se viu imerso em grandes custos para a criação de seus exércitos (que incluiu a “importação” de um general mercenário de Israel) e teve que diminuir os seus gastos com o futebol. Recentemente, o Millionarios abriu mão dos títulos conseguidos com apoio do narcotráfico.

No próximo texto da série, o envolvimento de Pablo Escobar com um dos maiores times da Colômbia, o Atlético Nacional de Medellín.

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