História do futebol colombiano: do nascimento à Era de Ouro

  • por Doentes por Futebol
  • 4 Anos atrás

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Parte 2: A Era dos Narcos
Parte 3: A Era dos Narcos (continuação)
Parte 4: A reconstrução

Por Ivan Alves Pereira

A história do futebol na Colômbia é marcada por pequenos êxitos e grandes tragédias. De certa forma, o desenvolvimento do futebol neste país reflete (e muito) tudo o que se passou a partir do ano de 1948. Em uma época onde o narcotráfico na Colômbia volta aos olhos do ocidente (vide sucesso da série Narcos produzida pela Netflix), criamos uma série de reportagens relatando os acontecimentos dentro e fora de campo que influenciaram o desenvolvimento do futebol profissional na Colômbia. Começando pelo início da profissionalização e a Era de Ouro do futebol do país.

Em meados dos anos 1940, a disputa entre Conservadores e Liberais dava o tom à política da Colômbia. Após anos afastados do poder, os Conservadores finalmente retornam à Presidência da República, muito em função de uma grande divisão dentro do Partido Liberal.

O grande nome do Partido Liberal na época era Jorge Eliécer Gaitán, ex-prefeito de Bogotá e que contava com grande apoio da esquerda Liberal. Gaitán nutria uma grande disputa interna no partido com Gabriel Turbay, primeira opção dos burocratas. Este racha dentro do Partido Liberal permitiu a eleição do Conservador Mariano Ospina Pérez em 1946. Posteriormente, no ano de 1947, as eleições legislativas apresentaram uma vitoria expressiva dos aliados de Gaitán, obrigando o partido a nomeá-lo como chefe único.

Caos e revolta

No início de 1948, os Conservadores foram acusados de praticar massacres contra Liberais em pequenos povoados no interior do país. Esse fato levou Gaitán, um líder nato e querido pelas massas, a organizar grandes marchas contra a crescente violência no país. Em meio a este processo, no dia 9 de Abril de 1948, o liberal foi baleado por um homem que o esperava na porta do edifício em que trabalhava e acabou falecendo.

O assassinato de Gaitán deu origem a uma grande revolta popular na cidade de Bogotá. Somente no dia 9 de abril, 142 edifícios foram destruídos, igrejas incendiadas, unidades de transporte coletivo destruídas e 500 pessoas assassinadas. Este dia entrou para a história colombiana como “El Bogotazo”.

"El Bogotazo"

O assassinato de Jorge Eliécer Gaitán desencadeou um dos grandes atos de revolta popular da história colombiana (Fotos: Arquivo)

A partir destes acontecimentos, iniciou-se na Colômbia uma época de grande violência no campo, causando uma explosão demográfica nos principais centros urbanos. A esquerda, em contrapartida, passou a ser perseguida e fugiu para as áreas rurais, dando origem a diversas guerrilhas que levaram a Colômbia a uma guerra civil que atormenta o país até os dias de hoje.

Apito inicial

Foi nesse clima de caos cívico que se iniciou a profissionalização do futebol na Colômbia. Nas palavras de Eduardo de Souza Gomes:

“Até então, os campeonatos do esporte no país eram disputados de forma amadora. A Adefútbol, que era a Federação máxima responsável pelo futebol colombiano, pecava na falta de organização das competições do esporte no país. Com sede em Barranquilla, a Adefútbol possuía cada vez menos aceitação das ligas regionais colombianas, assim como realizava uma cada vez maior centralização no poder do futebol colombiano. Movidos por essas insatisfações e por interesses de empresários que buscavam no futebol uma forma de alcançar um lucrativo negócio, alguns clubes resolveram formar um campeonato profissional.”

Dez equipes espalhadas pela Colômbia iniciaram o primeiro campeonato profissional de futebol do país, que foi realizado no mesmo ano de 1948. De Bogotá, estavam o Millonarios e o Santa Fé; de Medellín, os representantes eram o Atlético Municipal e o Medellín; Manizales possuía o Deportes Caldas e o Once Deportivo; em Cali, os clubes eram o América e o Deportivo Cali; o Junior, que viria a se tornar a “casa dos brasileiros na Colômbia”, era o representante de Barranquilla; e, por último, estava o Universidad, que era de Bogotá, mas possuía sua sede em Pereira.

O torneio contou com amplo apoio da classe política, que tentou utilizar o futebol como forma de acalmar os ânimos da população em meio ao clima de revolta. Eduardo Gomes em seu trabalho “Esporte, política e identidade nacional: efeitos do profissionalismo no futebol colombiano”, faz o seguinte relato:

“Já no seu primeiro ano, o sucesso da Dimayor era evidente. Os estádios que na era amadora na maioria das vezes ficavam vazios, começaram a ficar cheios. A aceitação do público no país havia sido melhor do que esperavam os dirigentes e empresários envolvidos com a profissionalização do esporte. Nos jornais era notório o ganho cada vez maior de espaço das colunas esportivas.”

 

Santa Fé, o campeão nacional de 1948 (Foto: Arquivo)

Saqueando astros

Após o termino da primeira edição do torneio, vencida pelo Santa Fé, a Federação e a Associação de clubes começaram uma briga pelo controle do futebol no país. Em determinado momento, a Federação passou a não reconhecer a Dimayor como uma liga oficial, transformando-a em uma “Liga Pirata”, sem ligação alguma com as federações oficiais de futebol, dentre elas a FIFA.

Essa situação de clandestinidade possibilitou a Dimayor criar uma liga com regulamento próprio sem submeter-se às regras da FIFA. Alguns grandes empresários enxergaram aí uma grande possibilidade de fazer dinheiro e levar grandes craques para jogar na Colômbia – já que não eram submetidos às regras oficiais, não precisavam pagar pelo passe dos jogadores (o passe na época representava grande parte do gasto de uma equipe de futebol), podendo assim destinar uma verba maior para pagamento de salários.

Paralelamente, em novembro de 1948, o governo de Perón, na Argentina, estabeleceu um salário limite de futebolistas em $175. Assim, alguns jogadores como Pedernera, Alfredo Di Stéfano e Julio Cozzi se negaram a jogar. Com o impasse jurídico entre esses atletas e a Associação Argentina de Futebol, a saída para esses jogadores, que tinham seus passes presos na Argentina, foi migrar para a Colômbia, onde a liga não tinha ligação com os órgãos internacionais de futebol e o passe não era respeitado – sem falar na possibilidade de se ganhar bem em uma época aonde a moeda colombiana era quase parelha ao dólar. A ideia de levar grandes figuras de uma das ligas mais reconhecidas do continente supunha a possibilidade de conseguir maiores ganhos com bilheteria e publicidade, o que logo agradou os donos dos clubes.

Pedernera, o primeiro a acertar sua ida para a Colômbia, já não vivia seu melhor momento: passava dos 30 anos e não vinha jogando bem. Mesmo assim, exigiu US$5 mil de luvas e US$500 de salário, uma exorbitância para a época. Sua apresentação no Millonarios, em uma partida contra o Nacional, rendeu aproximadamente U$17 mil de renda de bilheteria, um recorde absoluto para a época, enquanto sua estreia contra o Deportes Caldas acabou com uma vitória de 3×0 com grande participação do argentino.

Destino atraente

Após o êxito da negociação de Pedernera, o Millonarios foi à Argentina e logo acertou as contratações de Néstor Rossi e Alfredo di Stéfano, apresentados em Agosto de 1949, dando inicio ao período conhecido como El Dorado do futebol colombiano.

O grande êxito da Liga Pirata atraiu diversos jogadores de outros países da América do Sul, entre eles Heleno de Freitas, interpretado por Rodrigo Santoro em filme recente. Este sucesso gerou revolta dos demais clubes do continente, que alegavam que as contratações dos clubes colombianos se caracterizavam como concorrência desleal.

 

Alfredo Castillo, Alfredo Di Stéfano, Adolfo Pedernera, Antonio Baéz e Reinaldo Mourin | Imagem: Millonarios (Site oficial)

Alfredo Castillo, Alfredo Di Stéfano, Adolfo Pedernera, Antonio Baéz e Reinaldo Mourin || Millonarios FC – Site Oficial

Durante o congresso da Fifa no mundial de 1950 no Brasil, firmou-se um acordo para que clubes colombianos não fossem mais buscar jogadores estrangeiros sem pagar por seus passes. Outro congresso, em 1951, em Lima, decidiu que os clubes colombianos tinham até o mês de outubro de 1954 para devolver os jogadores aos clubes de origem, caso contrário a FIFA suspenderia por tempo indeterminado a Federação Colombiana de Futebol.

Dessa forma, sem estrelas, sem grandes públicos e, consequentemente, sem grandes rendas, em 1953 foi dado por encerrado o período dourado do futebol colombiano.

Continue a série lendo: “A Era dos Narcos”

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