Os 100 dias de Petković no Criciúma

(atualização 07/10/2015)

Mudança geral resultando na demissão de Pet:

Capture

“Não tenho dúvidas disso – demissão por razão política. A gente não esperava isso, já que não corremos risco de ser rebaixados e nem de subir para a Série A. A gente tem que entender, não tem outro jeito”.

Em entrevista à ESPN (realizada 06/10/2015), o sérvio agradeceu ao presidente Antenor Angeloni e explicou que a demissão se deu, principalmente, pela crise política do Tigre, que culminou com a troca na presidência. Confira os números de Petkovic em seu período de pouco mais de 04 meses no comando do Tigre:

7 vitórias
12 empates

5 derrotas

45,8% de aproveitamento
22 gols marcados e 21 sofridos


 

Foto: Fernando Ribeiro

Foto: Fernando Ribeiro

Há exatos 100 dias, o sérvio Dejan Petković fazia a sua estreia no comando do Criciúma. No dia 16 de junho, em uma terça-feira à noite, o ídolo flamenguista debutava com uma vitória pelo placar mínimo sobre o Luverdense, em Lucas do Rio Verde, com um gol de pênalti de Rodrigo Andrade.

A empreitada no Sul de Santa Catarina está sendo a segunda do Rambo como treinador, sendo a primeira em um time profissional – a primeira havia sido no time sub-23 do Atlético Paranaense, em 2014. Até o momento, foram 22 partidas, com sete vitórias, 11 empates e quatro derrotas, desempenho que não conseguiu colocar o Tigre nos postos mais altos da tabela da Série B do Campeonato Brasileiro.

Neste período, Pet colecionou amigos e inimigos. Os amigos ficaram na torcida, que, mais consciente do que o normal, entende a limitação do elenco montado por Marcos Moura Teixeira, Felipe Ximenes e seus “blue caps” e sabe que o sérvio tem tirado leite de pedra. Os inimigos, talvez na imprensa, que, moldada por ideais arcaicos do futebol, não se atualiza e não compreende como o esporte é efetivamente jogado nos dias atuais. Já Pet, reconhecido pelo pavio curto dos tempos de jogador, nunca foi de aliviar e batia de frente nas entrevistas quando necessário.

Aproveitando a marca centenária, o Doentes Por Futebol traz um balanço do trabalho do sérvio até o momento. Confira:

Pontos positivos

Foto: Gazeta Press

Foto: Gazeta Press

A principal mudança que Petković trouxe para o Criciúma está na proposta de jogo. Os balões e chutões viraram coisa do passado e o time atual valoriza muito mais a posse de bola. O Tigre já está entre as equipes que mais acertaram passes na Série B – é a sexta, segundo o Foot Stats. A proposta de jogo é moderna, com posse de bola, linhas compactadas e ocupação de espaços.

Outro ponto positivo de Pet é saber “rodar” o elenco. Nessas 22 partidas, o sérvio aproveitou mais de 30 jogadores. O que para muitos é absurdo, por não repetir uma mesma formação, para este que vos escreve, é uma maneira de explorar ao máximo o plantel o qual chegou a disputar nove jogos em menos de um mês.

Aliás, há certo exagero por parte da imprensa – e até da torcida – quando este assunto é abordado. Muitos dizem que “ninguém sabe qual é o time do Criciúma”, vide a rotatividade do elenco. É fato que não dá para cravar os 11 fixos do tricolor, mas se pode dizer que há uma espinha dorsal na equipe. O goleiro Luiz é incontestável, melhor jogador do time no ano. Na defesa, Maicon Silva, Wanderson e Guilherme Santos são todos titulares. No meio-campo, Wellington é peça de confiança e pode ter ao lado jogadores como Marcos Assunção, Marcão e Paulinho, todos eles adaptados ao time titular. O setor de armação e o ataque são os grandes dilemas, vide a ineficácia dos homens de frente.

É importante ressaltar que Pet teve problemas com lesão nesse período. Guilherme Santos e Rodrigo Andrade, por exemplo, ficaram algumas semanas fora e deram dores de cabeça ao sérvio na hora de formatar o time.

Vale ressaltar, também, que uma das peças que compunham a espinha dorsal do time deixou o clube. O atacante Lucca foi emprestado ao Corinthians até o Paulistão de 2016. O atleta de 25 anos era o artilheiro com cinco gols e o jogador mais criativo do elenco, apesar da instabilidade entre suas atuações. Foi uma perda considerável.

Pontos negativos

Foto: Gazeta Press

Foto: Gazeta Press

Um dos pontos que mais geraram questionamentos no trabalho de Petković é a pouca variação tática. O treinador apostou no 4-2-3-1 e em raras vezes alterou essa formatação. Por mais que este seja o sistema tático “padrão” da maioria dos times brasileiros, a variação do Criciúma é quase que inexistente, as mudanças acontecem apenas quando a equipe necessita do resultado.

Pet também mostrou certa insistência em alguns jogadores que não renderam o esperado. O caso mais clássico é o de Neto Baiano. Contratado para solucionar o trauma da camisa 9, existente desde a saída de Zé Carlos, em 2013, o atacante fez apenas três gols na Série B e causa calafrios na torcida toda vez que pega na bola. Por mais que se esforce, nada parece dar certo para Neto, que não enxerga uma sombra dentro do elenco. Quem mais se aproximou disso foi Tiago Ádan, porém, uma lesão o tirou dos gramados no seu melhor momento dentro do time.

A insistência em Neto Baiano, por mais que incomode o torcedor, é plausível pela escassez de opções, porém, as várias oportunidades dadas a Maurinho, por exemplo, já são inexplicáveis. Contratado em 2014 após ótimo estadual pelo Metropolitano, o jogador chegou lesionado, demorou a estrear pelo Tigre e não mostrou a que veio. Nesse caso, a falta de opções está longe de ser desculpa. Pet tem um leque variado de atletas para aproveitar na função, incluindo alguns que esqueceu no elenco, como Paulo Sérgio – que apesar de ter perdido seus vários gols, desempenhou função tática importante quando atuou aberto pela esquerda no 4-2-3-1 da equipe.

Melhor jogo

Poucos jogos ficarão na memória do torcedor carvoeiro neste fraco ano de 2015, mas um em especial será lembrado por muito tempo: 1×0 sobre o Grêmio, na Arena Porto-Alegrense, pela Copa do Brasil. Quem assistiu ao jogo, sabe muito bem que ficou barato para o time gaúcho. O Criciúma perdeu chances claríssimas e obrigou o goleiro Marcelo Grohe a trabalhar mais do que em muitos jogos da Série A. O número de finalizações certas retrata bem como o placar mínimo ficou magro pelo que foi o jogo. O Grêmio deu 17 chutes, mas apenas três foram na direção do gol; o Tigre finalizou nove vezes e cinco foram na meta adversária. Mesmo eliminado nos pênaltis no jogo de volta, o Criciúma saiu da competição de cabeça erguida e com a sensação de dever cumprido.

O que melhorar?

É unânime: a finalização – o próprio Petković reconhece isso em entrevistas recentes. A média de gols do Criciúma é inferior a um por jogo – 25 em 27 jogos – e o time tem o terceiro pior ataque da Série B. O site Foot Stats aponta ainda que o Tigre é a sexta equipe que menos acerta finalizações na Série B. Além disso, o Criciúma não venceu nenhuma partida por mais de um gol de diferença na Série B.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

É até complicado explicar o real motivo dessa ineficiência do ataque tricolor. O torcedor aponta o dedo para Neto Baiano. E há um pouco de razão. Ele é o jogador que mais finalizou pelo Criciúma, liderando o número de acertos e erros do time. Os míseros três gols marcados contrastam com esse número.

Esse é só mais um dos vários capítulos da novela “O Fantasma de Zé Carlos”. Artilheiro da Série B com a camisa do Tigre em 2012 com 30 gols, “Zé do Gol” deixou o clube no começo de 2013 e, desde então, ninguém se fixou com a camisa 9. Marcel, Giancarlo, Wellington Paulista, Bruno Lopes e até o próprio Zé Carlos – em retorno relâmpago – tentaram quebrar a sina, alguns com mais gols que outros, mas ninguém conseguiu ficar no clube por muito tempo.

Formações

Formações
“Empatekovic”

Durante algum tempo, Pet foi chamado de “Invictovic” por causa da sequência invicta que obteve na sua chegada ao Criciúma. Hoje esse apelido mudou, ouvindo-se vez ou outra um “Empatekovic”.

Em toda Série B, foram 11 jogos com placar igual – metade a frente do time. Só para se ter uma ideia, dois resultados foram predominantes nas partidas de Pet: 1×0 e 0x0, cinco vezes cada.

Mas diferente de outros técnicos, que assumidamente jogam para empatar e se contentam com esse placar, raramente o Criciúma adotou essa proposta dentro dos jogos. O sérvio solta o time e não tem receio de abrir a equipe quando o resultado está negativo.

Há um misto de azar e incompetência nesse caso. Por mais que o time erre e falhe em diversos aspectos, sempre tem uma trave, um goleiro inspirado ou um árbitro fraco no meio do caminho.

E o futuro?

Foto: Fernando Ribeiro

Foto: Fernando Ribeiro

É difícil prever o destino de Petković. Talvez o mais provável seja que deixe o clube no final da Série B, mas é impossível cravar. Além dos resultados, que não ficaram próximos do esperado, o Criciúma passará por mudança administrativa. Mandatário do clube há cinco anos, o presidente Antenor Angeloni já comunicou que deixará o tricolor no final deste ano. Com ele uma barca deve ir junto – incluindo a GA (grupo gestor), direção, jogadores e funcionários de confiança.

O que talvez pese em favor de Pet é a popularidade que possui. Mantê-lo como treinador em 2016 pode ser uma manobra para o novo presidente – ou grupo gestor – começar o mandato com alguma moral com o torcedor. Caso o futuro do sérvio não seja dentro do clube carvoeiro, o Rambo certamente encontrará vaga em outro lugar, já que mostrou serviço nos primeiros cem dias de clube.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.