A fantástica trajetória de Marcelo Martelotte no Santa Cruz

  • por Doentes por Futebol
  • 4 Anos atrás
(por Roberto Dantas)

Dizem que certos jogadores e treinadores nasceram para trabalhar em um time em particular. Um exemplo clássico é o de Dorival Júnior, atualmente no Santos, que – a despeito de passagens medianas por vários clubes do futebol nacional – sempre faz excelentes aparições no alvinegro praiano. Dentro desta mesma categoria se enquadra o atual técnico do Santa Cruz, Marcelo Martelotte.

Sucesso no clube como jogador:

A história com o Santa Cruz remonta a época do ainda goleiro Marcelo, nos anos 90. O hoje técnico coral participou de uma das conquistas mais icônicas da história do clube: o Campeonato Pernambucano de 1993, quando o Santa Cruz bateu o Náutico com um a menos, dentro do Arruda, por dois tentos a um (o Alvirrubro – com um a mais desde os 39 do primeiro tempo – vencia até os 37 do segundo. Aos 38, veio o empate. Aos 44, a virada). A simbiose do ex-arqueiro com o Tricolor, portanto, vem de décadas.

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O então goleiro Marcelo, na formação do time campeão de 1993 (imagem: coralnet.com.br)

Regresso: agora como técnico

Vinte anos após a conquista, o Santa Cruz decide contratar o agora técnico Marcelo Martelotte para a temporada de 2013. Um profissional jovem e inexperiente: Só tinha treinado os inexpressivos Taubaté (em 2003) e Ituano (2012), além de uma passagem como interino pelo Santos (2010-2012). Veio com dupla pressão: a de ser uma aposta da diretoria e a de ser o substituto de Zé Teodoro, o treinador que havia tirado o Santa Cruz da lama no biênio 2011-2012.

A despeito da fracassada campanha da Copa do Nordeste (eliminado pelo Fortaleza), Martelotte fez um grande primeiro semestre pelo clube das três cores. Se destacou por fazer alguns jogadores renderem muito acima do esperado. Como Nininho, que nunca repetiu nos anos seguintes o futebol que desempenhou no primeiro semestre de 2013. Ou como o zagueiro Everton Sena, que foi improvisado na lateral-direita e por lá terminou entrando na Seleção do Campeonato.

A partida que resume o trabalho de Marcelo no primeiro semestre daquele ano pode ser definida na magistral partida contra o Náutico, nos Aflitos: um 2×0 sem discussões onde a equipe coral dominou toda a partida. Um 4-2-3-1, com um quarteto ofensivo funcionando de forma impecável, com os jovens Renatinho e Natan nos flancos e o cerebral Raul na armação das jogadas, com Dênis Marques como finalizador. Nos demais jogos – e também na final contra o Sport – o 4-2-3-1 foi substituído pelo clássico 4-2-2-2, com a dupla de ataque sendo formada por Dênis Marques e o folclórico Flávio Caça-Rato. O título contra o maior rival garantiu o tricampeonato do Estado e a (re)consolidação do Santa Cruz como força vencedora.

(o 4-2-3-1 campeão de Pernambuco em 2013)

(o 4-2-3-1 campeão de Pernambuco em 2013)

Depois da conquista – a primeira como treinador – a polêmica: Marcelo Martelotte, ao fim do Pernambucano, saiu para o Sport. Aqui cabe uma opinião pessoal deste que vos escreve: como torcedor, fiquei bastante contrariado. Na condição de trabalhador assalariado, faria o mesmo que ele! Seja sincero: Você recusaria uma proposta para ganhar SEIS VEZES MAIS em outra empresa? Foi o que Marcelo fez.

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Tempos de andarilho e retorno ao Santa:

Martelotte decidiu sair. E rodou. Entre 2013 e 2015, passou por quatro clubes (Sport, Náutico, América de Natal e Atlético Goianiense). Teve um breve sucesso no Dragão Goiano, onde foi campeão estadual em 2014. Foi demitido do time rubro-negro pernambucano após uma sequência de maus resultados. Por duas vezes foi mandado embora do Atlético deixando o time perigosamente na zona de rebaixamento. E, no América, foi demitido da equipe potiguar com o time rubro na zona de rebaixamento (e, de fato, o Mecão seria rebaixado para a C ao fim do campeonato).

No ano corrente, estava no Atlético Goianiense, clube que, junto com o Santa Cruz, estava na zona de rebaixamento para a Série C de 2016. Foi demitido pouco antes do ex-técnico coral Ricardinho. Quando assumiu o clube das três cores, o Santa se encontrava em décimo oitavo lugar no certame, dentro da zona de rebaixamento, com uma vitória, dois empates e quatro derrotas.

A reação passa por uma mudança crucial na escalação da equipe e também na parte tática. Na escalação, do onze habitual do técnico Ricardinho, só sobraram quatro: Alemão, Néris, Daniel Costa e João Paulo. Pode se dizer, entretanto, que a principal alteração e fator fundamental para a incrível reação do Santa passa pelo tático somado ao dedo do técnico: Da alteração do 4-2-2-2 clássico usado pelo ex-técnico para variações do 4-5-1 (4-2-3-1 e 4-1-4-1).

(O 4-1-4-1 do Santa Cruz 2015: do 18o lugar ao G4 em 20 rodadas)

(O 4-1-4-1 do Santa Cruz 2015: do 18o lugar ao G4 em 20 rodadas)

O esquema com um volante só é feito graças a um achado de Martelotte: a joia da base Wellington, jogador de contenção que, brilhantemente, vem sendo a base de toda a segurança do sistema defensivo da equipe coral. Na verdade, o único grande erro de Marcelo até agora foi demorar para confiar o suficiente no jovem. O esquema com dois cabeças de área (Bruninho, Moradei, Bileu) nunca demonstrou muita força ofensiva ou defensiva. Na ânsia de mais segurança, o time acabava sendo mais agredido pelos adversários. Os grandes jogos do Santa Cruz foram todos no esquema 4-1-4-1. Com a segurança do jovem volante, se liberou Renatinho ou João Paulo (armadores) para jogar na posição de segundo volante, puxando o time para frente, com Daniel Costa nas bolas paradas e armação de jogadas, mais centralizado, além de Lelê e Luisinho nos flancos, como pontas, finalizando com o sempre goleador Grafite no ataque. O 4-1-4-1 de 2015 é uma versão mais ousada do 4-2-3-1 de 2013.

(foto: Marlon Costa/FPF) Wellington César, a peça fundamental no esquema de Martelotte

(foto: Marlon Costa/FPF)
Wellington César, a peça fundamental no esquema de Martelotte

O resultado pode ser medido em números: Do 18o lugar, o Santa Cruz – em 21 rodadas – foi para a terceira posição, dentro do G4 (posição provisória). Se tornou o melhor mandante da Série B, além de ter o segundo melhor ataque da competição e o líder de assistências (Luisinho). Faltando nove jogos para o fim do certame, o que antes era sandice se torna cada vez mais realidade: o Santa Cruz entrou de fato na briga por uma das vagas da Série A de 2016. E não dá para negar:

A escalada rumo ao sucesso passa diretamente pela chegada de Marcelo Martelotte. Que, pelo visto, nasceu pra brilhar nas Repúblicas Independentes do Arruda.

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NÚMEROS DE MARTELOTTE PELO SANTA CRUZ

2013: 27 jogos – 16 vitórias – 5 empates – 6 derrotas – 65,43% de aproveitamento

2015: 22 jogos – 13 vitórias – 4 empates – 5 derrotas – 65,15% de aproveitamento

TOTAL: 49 jogos – 29 vitórias – 9 empates – 11 derrotas – 65,30% de aproveitamento

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