A última grande noite de Anfield Road na Liga dos Campeões

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Anos atrás

A diretoria do Liverpool demitiu o treinador Brendan Rodgers logo depois de mais um tropeço na temporada. Hoje, o clube está na 10ª colocação da Premier League, com dez pontos, e embora esteja somente a cinco da zona de Liga dos Campeões da UEFA, a temporada dos Reds começa a ganhar um contorno precoce de redimensionamento. Para alguns, o novo treinador deve começar a preparar o terreno para a próxima campanha.

Há um ano, os Reds voltavam à UCL com a expectativa alta. Apesar da perda de Suárez, a temporada 2013-2014 havia sido tão boa sob a perspectiva de “ressurgimento” que muitos apostavam na sobrevivência do time mesmo sem seu grande craque. Afinal de contas, não é nenhuma mentira dizer que o Liverpool, durante o primeiro semestre de 2014, mostrou grande funcionamento graças ao coletivo. No entanto, a aventura da equipe de Merseyside foi trágica. Conseguiu apenas uma vitória em seis jogos na fase de grupos, na estreia contra o Ludogorets, por 2 x 1. As duas derrotas para o Real Madrid (uma, em Anfield, de maneira acachapante, por 3×0) e para o Basel decretaram a eliminação dos comandados de Rodgers antes do mata-mata.

Os torcedores ainda não perderam a fé em voltar a viver em um cenário semelhante ao da segunda metade da década passada. Entre 2005 e 2009, as partidas de Liga dos Campeões no Anfield Road se converteram em história. O Liverpool de Rafa Benítez era um dos times mais respeitados da Europa, e visitar seu estádio era tarefa árdua para qualquer um. Com Pepe Reina, Álvaro Arbeloa, Jamie Carragher, Javier Mascherano, Xabi Alonso, Steven Gerrard, Dirk Kuyt e Fernando Torres, os “Vermelhos” fizeram eliminatórias inesquecíveis contra o Barça, de Rijkaard e Ronaldinho, duelos épicos com o Chelsea, de Mourinho e Lampard, e finais históricas ante o Milan, de Ancelotti e Kaká. Mas, de repente, desapareceram. E o fizeram sem avisar. Voltaram a viver aqueles anos de inocuidade que abasteceram o clube pós-Bill Shankly, Bob Paisley e Kenny Dalglish.

Aquele Liverpool foi construído a partir de seu poderoso meio-de-campo, a sensibilidade tática de Benítez e o calor de sua torcida, que nunca deixa os jogadores caminharem sozinhos. A última grande noite europeia do clube dos Beatles aconteceu em maio de 2009. O adversário: o Real Madrid de Juande Ramos, Wesley Sneijder, Arjen Robben e Raúl González. Antes de explicarmos o que foi o jogo é necessário relembrar o contexto. A expectativa pelo lado merengue era alta. A troca de treinador durante a Liga Espanhola (de Bernd Schuster para o já citado Juande Ramos) fez muito bem ao plantel, que assimilou as ideias do novo treinador de maneira rápida.

Créditos: Site Oficial do Liverpool | A última grande noite do Liverpool na Champions foi contra o Real Madrid, em 2009. Benayoun marcou o gol da vitória no Bernabéu

Créditos: Site Oficial do Liverpool | A última grande noite do Liverpool na Champions foi contra o Real Madrid, em 2009. Benayoun marcou o gol da vitória no Bernabéu

Em fevereiro, mês do jogo de ida, o Real vivia seu melhor momento e o L’pool começava a mostrar irregularidade na Liga Inglesa. Após derrotar o Sporting Gijón por 4 a 0, no El Molinón, e impor um 6 a 1 ao Bétis, no Bernabéu, o otimismo merengue era enorme para enfim quebrar a escrita de, à época, cinco anos sem avançar às quartas de finais. “Não diria que estamos eufóricos, mas estamos otimistas porque tudo está fluindo muito bem. A atitude dos jogadores está sendo perfeita”, comentou Ramos. A dinâmica era favorável aos blancos e a presença de Robben, que estava voando e era semanalmente comparado a Messi pela imprensa de Madrid, era um fator dado como decisivo para o confronto.

Porém, a Liga dos Campeões tratou de mostrar ao madridismo que a realidade era bem distinta da que eles sonhavam. Com problemas físicos, Gerrard foi dúvida até a última hora. Mesmo sem sua bandeira, o Liverpool mostrou desde o primeiro minuto no Bernabéu ter ideias tão claras. Em outras palavras, Benítez preparou sua equipe de maneira perfeita. O plano do espanhol era claro: marcar gols na Espanha. As disciplinadas linhas de quatro sem a bola evitaram que o Real tocasse a bola com paciência. A intenção era jogar no erro espanhol, recuperando a bola para acionar um contra-ataque. Apesar da alta posse blanca, um erro de Heinze permitiu ao L’pool ter uma falta que foi concluída dentro das redes por Benayoun. O 1 a 0 fora de casa praticamente sentenciou a eliminatória. Os torcedores madridistas sabiam disso: vencer em Anfield era missão impossível.

E realmente foi. No jogo da volta, só uma cor prevaleceu: o vermelho. O Liverpool deu uma exibição de ritmo e intensidade que dissipou um Real Madrid que deixou evidente que não aguentava correr como o conjunto inglês. Naquele dia, Benitez e seus jogadores levaram ao máximo o conceito de verticalidade no futebol. Em relação ao rival, os Reds estavam em outra dimensão. O Liverpool de Mascherano, Xabi, Gerrard e Fernando Torres merecia uma noite como aquela. A imprensa britânica estava em êxtase. O Benítez Team foi alçado ao patamar de favorito à UCL.


O que não aconteceu. A última eliminatória de UCL do Liverpool foi trágica. Depois de perderem por 3×1 justamente em Anfield para o Chelsea, de Hiddick e Drogba, os Reds, sem Gerrard, encararam Stamford Bridge como se nada tivesse acontecido. Paciente para reverter o difícil placar, o time abriu 2 a 0 em menos de meia hora do primeiro tempo. Essa era a identidade daquela geração: máxima competitividade, por mais complicado que fosse o rival. O Chelsea virou para 3 a 2, Lucas e Kuyt desempataram, mas Lampard colocou um ponto final na classificação dos Blues. O gol do holandês, portanto, foi o último lapso do Liverpool em um mata-mata de UCL. Irá se completar, daqui a alguns meses, sete anos sem jogo decisivo do principal torneio de clubes do mundo em Anfield. No fundo, faz falta. E como.

Créditos: Site Oficial do Liverpool | No 4 a 0 em Anfield, Gerrard e Fernando Torres fizeram o estrago

Créditos: Site Oficial do Liverpool | No 4 a 0 em Anfield, Gerrard e Fernando Torres fizeram o estrago

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.