Aquele que amam odiar

  • por Nilton Plum
  • 4 Anos atrás

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São conhecidos, no futebol, casos frequentes de torcedores adversários que compartilham, secretamente ou explicitamente, admiração pelo ídolo rival. Vascaínos que reconhecem a genialidade de um Zico, flamenguistas que exaltam o faro nato de gol de um Roberto Dinamite (neste caso, a admiração entre os jogadores se tornou amizade), por exemplo. Este tipo de desapego à ferrenha rivalidade que se sobrepõe, muitas vezes, ao bom senso faz bem ao espírito. Mesmo no futebol, terreno fértil da hipocrisia, em dado momento é necessário que a paixão fique de lado ante ao olhar racional.

O Fluminense deu adeus à Copa do Brasil 2015 diante do Palmeiras na semifinal de um jogo eletrizante que mostra na cara dos diversos detratores que o futebol brasileiro respira, em CTI é bem verdade, mas que não está desenganado. A despeito da recorrente e nefasta interferência equivocada da arbitragem em dois penais pra lá de discutíveis que acabaram por favorecer o time paulista, a carga emocional envolvida foi digna de um grande espetáculo. Teve festa de torcidas e estádios lotados, teve a ascensão de um carrasco gringo (Barrios). Teve um Fernando Prass inspirado e heroico, teve os penais: terror de tudo o que há no futebol. E teve o Fred. Cambaleante, dolorido, contundido os 90 minutos, artilheiro e maior ídolo de um time que até bem pouco tempo atrás era acusado de não possuir um jogador que os representasse na História de maneira convincente e resoluta.

Quando o torcedor de outro time espumar de raiva no estádio, socar a parede em ódio em casa, engasgar com a cerveja no bar diante da passividade, da impotência, da falta de brio e de comprometimento dos jogadores que fazem parte de seu elenco ele deve lembrar de que TODOS, no fundo, gostariam de ter um Fred envergando a sua camisa 9, nem que fosse para dar suas corriqueiras cobradas nos árbitros, suas polêmicas declarações ou aquele gol maroto empurrando em falta o zagueiro que o juiz quase nunca marca. Seria muito simples resumir Fred como ídolo tricolor pelos seus serviços prestados em campanhas vitoriosas. Seria muito simples desqualificá-lo pelas limitações que o tempo, o verdadeiro rival de todos nós, lhe impõe. Seria fácil diminuir sua importância diante de breve contribuição na seleção brasileira e de sua patética participação no time dos 7 x 1. Mas quem disse que o ídolo se forma somente no conforto infantil da glória?

Mesmo que ao invés de Gum fosse o Fred a perder o penal fatal… Zico nunca deixará de ser quem foi pelo penal perdido na seleção, até porque seus serviços foram prestados, e muito bem, à outra Nação. Edmundo nunca deixará de ter relevância no quadro vascaíno por ter chorado em campo o desastre do rebaixamento ou ter perdido um penal numa final de Mundial interclubes… Quando Fred fizer gol no seu time, e ele fez ou fará, saiba que não se trata de um gol mundano. É a energia histórica de uma torcida emanando através de seu principal avatar. Quem tem seu ídolo no futebol sabe bem do que se trata. E reconheça que se não for tricolor você adora odiá-lo. Até porque não é só de admiração e de amor que os ídolos se alimentam.

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