Cerveja nos estádios: DPF entrevista Geraldo Pudim

  • por Doentes por Futebol
  • 3 Anos atrás

Taxada como responsável pela violência nos estádios de futebol do Brasil, a cerveja saiu de circulação das arquibancadas cariocas em 2008, para dissabor dos torcedores mais chegados ao “danone”.



Agora, o projeto de lei 799/15, criado pelos Deputados Estaduais Ge
raldo Pudim (PMDB), Wanderson Nogueira (PSB) e Luiz Martins (PDT), regulamenta a venda de cerveja novamente nos estádios. Sancionado pelo Governador Luiz Fernando Pezão no último dia 17 de outubro, já está em vigor.

Para entender melhor sobre a liberação da comercialização de cerveja nos estádios do Rio de Janeiro, o Doentes por Futebol entrevistou um dos criadores do projeto, o Deputado Geraldo Pudim.

DPF Entrevista: Geraldo Pudim, Deputado Estadual do Rio de Janeiro


DPF: A violência de fato diminuiu com a proibição da comercialização da cerveja?

Absolutamente. Não há nenhum dado estatístico que comprove isso. O que existe em comprovação é a Copa do Mundo, onde houve liberação e não teve nenhum tipo de violência. Então, aquelas pessoas que defendem a não liberação não tem nenhum dado estatístico que comprove que a proibição da cerveja tenha diminuído a violência nos estádios. Agora, volto dizer; a violência nos estádios está acontecendo muito mais fora do que dentro deles.

DPF: Aqui no Rio de Janeiro, temos setores que acabam sendo mistos, no caso do Maracanã Mais e da Leste Inferior. Vocês não tem nenhum receio de que haja venda nesse setor e possa causar alguma confusão por ter torcedores dos dois times? Seria necessário um policiamento maior nesses setores?

Pudim: No setor de arquibancada, não é permitida a venda de bebida. A própria administração do estádio que será responsável por determinar onde haverá a oportunidade de venda. Eu não creio que possa acontecer isso, não vejo dessa forma. É uma questão educacional. Não é você tirar a cerveja na marra que vai resolver isso. O cara às vezes já chegou altamente embriagado, pois bebeu 4 cervejas em um minuto do lado de fora para poder entrar. E, com toda sinceridade, eu sou frequentador de estádios, sei que o cara não fica preocupado em tomar uma cerveja enquanto o jogo está rolando. A magia do estádio está em ver o lance. O cara não está preocupado em parar para tomar uma cerveja. A nossa preocupação é com o cara que já chega no estádio embriagado.

DPF: Mas a venda será permitida durante o momento do jogo?

Pudim: Sim, ele poderá beber a sua cerveja. Mas aí volto a dizer; a quantidade será excessiva? Ele sairá com 30 latinhas de uma vez só? Iremos reunir os clubes para que haja campanhas de conscientização aos torcedores, em especial às torcidas organizadas, elas têm um papel importante nisso. A liberação não pode se tornar um transtorno para quem não bebe.

DPF: Então, já dentro desse planejamento de vocês, existe o pensamento de realizar reuniões para que seja tudo bem alinhado e exista a colaboração tanto dos clubes quanto das torcidas organizadas?

Pudim: Exato, e aí os meios de comunicação têm papel fundamental nisso. A bebida não pode ser transformada em uma ferramenta para destruir as pessoas.

DPF: Não é permitida a venda no entorno do estádio, mas algumas pessoas vendem burlando a lei. Vai ser permitido também vender ao redor do estádio ou não?

Pudim: Já existe uma lei vedando. É óbvio que na medida em que você libera a cerveja dentro do estádio, a fiscalização fica mais fácil, tem menos tumulto, menos correria, menos pessoas recorrendo à essa ferramenta lá fora de forma irregular. A médio e longo prazo, as coisas tendem a normalizar e definitivamente acabar com essa venda em torno dos estádios, pois as pessoas terão possibilidade de tomar a sua cerveja do lado de dentro.

“Eu gostaria de fazer um destaque que me chamou muita atenção: vocês falam muito da questão do futebol, vamos falar dos outros esportes? Qual outro que existe a vedação? Nenhum. Você vai numa arena de MMA tem e tem bebida sendo vendida lá, nos jogos de basquete, que tem por vezes o mesmo público que recebe o Maracanã, por exemplo, é liberada a comercialização. Por que essa discriminação com futebol?”

QUESTIONAMENTO PUDIM

O legislador, legítimo frequentador de estádios de futebol, é categórico em seu questionamento.

DPF: Antigamente, a classe atuante nos estádios era mais pobre em comparação com a atual. A elitização da torcida e a modernização dos estádios foram alguns dos motivos para esse movimento de liberação ou vocês não pensaram nisso?

Pudim: A gente não pensou nisso, mas que há um processo de elitização, realmente há. Sou de um tempo que existia a geral. A elitização do futebol se dá em função do preço dos ingressos. Isso que é a grande chave. Fui de um período que teve uma vez que o Governo do Estado fez uma campanha em que você poderia ter acesso ao estádio por um preço baixo. Dava para levar toda a família, mas hoje, com os preços atuais, dificilmente um trabalhador tem condições de frequentar um estádio.

DPF: Antes da aprovação do seu projeto já havia algum tipo de legislação estadual aqui no Rio que controlasse a bebida nos estádios?

Pudim: Em 2008, houve a proibição como forma de combater a violência, e alguém aventou a possibilidade desta violência estar diretamente relacionada à bebida e com isso houve uma vedação como forma de controle. Mas aí vem a Copa do Mundo e verifica-se que com a liberação não houve excesso. Não havendo excesso, não tem porque continuar essa vedação.

DPF: Por que o senhor acha que demorou tanto tempo até surgirem pessoas como o senhor que vieram com a idéia de revogar esse veto?

Pudim: O Parlamento é ambiente. Você precisa compreender o ambiente oportuno para aprovar uma legislação. Estive em um Congresso Nacional uma vez e ouvi do vice-presidente da República o seguinte: “O Parlamento, quando não decide, é porque já decidiu”. Então o Parlamento não decidiu a questão da revogação, pois já havia decidido por manter a legislação. Quando o Parlamento ficou propício para a liberação, se reuniram e liberaram. O silêncio do parlamento pressupõe de que ele concorda com a legislação vigente.

DPF: Quando o torcedor finalmente vai poder beber a sua cerveja?

Pudim: O governador tem um período para sancionar e, se ele não fizer, a gente promulga. Esse é o rito do Legislativo. Aprovamos a lei e precisamos da sanção do governador do estado para que ela possa ter força de lei, publicação no Diário Oficial, etc. Depois de sancionada, passa a ser lei e, a partir daí, as administrações dos estádios terão um período para que possam tomar as providências necessárias para poder voltar a comercializar a cerveja.

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