História do futebol colombiano: a reconstrução

  • por Doentes por Futebol
  • 4 Anos atrás

Parte 1: Do nascimento à Era de Ouro
Parte 2: A Era dos Narcos
Parte 3: A Era dos Narcos (cont.)

Por Ivan Alves Pereira

Talvez os leitores mais jovens não lembrem, mas, na década de 1990, a Colômbia tinha grande fé em sua geração. Contudo, Los Cafeteros não eram os únicos a contar com uma boa safra e, mesmo superando todos os problemas, a verdade é que Gheorghe Hagi e seus companheiros enterraram definitivamente os sonhos de Valderrama, Rincón, Asprilla e cia na Copa de 1994. A hora era de começar um novo trabalho.

(Em tempo: escrever este artigo me fez lembrar da experiência de andar com a camisa da Romênia por Bogotá de forma desavisada e receber olhares semelhantes aos de um indivíduo que anda com uma camisa do Palmeiras por Itaquera em dia de jogo.)

Se dentro de campo o objetivo era reconstruir um time, fora dele a meta era reconstruir um país. Em 1991, a Colômbia passou a ser regida por uma nova constituição. Escobar foi assassinado em 1993 e Gilberto Orejuela acabou preso em 1995 durante a gestão de Ernesto Samper (o mesmo que teve que responder por acusações de ter sua campanha presidencial financiada pelo Cartel de Cali). A essa altura, Gacha já estava morto (assassinado em uma ação do governo em 1989), o M-19 já era um partido político e as FARC-EP negociavam a paz.

É verdade que, sim, a guerrilha continuava agindo. Ainda nos dias atuais, políticos do alto escalão da Colômbia são associados à máfia (são inúmeras as acusações ao ex-presidente Álvaro Uribe envolvendo narcotráfico). Este cenário deixa claro que a indústria das drogas não se refere somente a uma ou outra figura “lendária”, pois mesmo com a queda de grandes Narcos durante a década de 1990, ela permanece firme e forte no país. A indústria das drogas é institucionalizada.

Apesar dos entraves, nas eleições municipais de Bogotá em 1994 ocorreu aquele que é considerado o primeiro grande passo para a mudança que se viu desde então na Colômbia. Antanas Mockus, filósofo e ex-Reitor da principal universidade do país, foi eleito prefeito. Mockus venceu após uma campanha pouco ortodoxa, na qual faltou aos debates, fantasiou-se de Super-Cidadão, o herói da cidadania, não teve ligação alguma com qualquer partido ou sequer comitê de campanha. Sua estratégia consistiu apenas em debater com as pessoas.

CAFETONES1

Mockus, El Super Cívico (foto: Telegraph)

Após eleito, Mockus definiu que sua principal meta de governo seria criar uma cultura de cidadania em Bogotá. Para isso, utilizou-se de modos nem um pouco comuns.

Em iniciativas de sua gestão, policiais de trânsito foram trocados por mímicos e palhaços. Assim, quando um motorista parava com o carro na faixa de pedestres, por exemplo, logo apareciam palhaços para recriminá-lo. Antanas acreditava que esse método traria melhores resultados e seria mais democrático (a multa não é igual para todos).

CAFETONES2

Mímico orientando o trânsito em uma rua de Bogotá (foto: arquivo)

Essa ação, além de chamar atenção para a violência no trânsito, acabou dando enormes resultados: os números de atropelamentos e infrações diminuíram drasticamente. Além disso, cartões foram cunhados para demonstrar insatisfação e foram criados conselhos de diálogo – as pessoas voltaram a buscar uma conciliação objetivando a paz, o que era radicalmente diferente da cultura da violência reinante até então.

Mockus defendia a importância da criação de espaços públicos (afinal, é nos espaços coletivos que as pessoas se relacionam) e promoveu em Bogotá uma cultura de ocupação de praças e ruas com eventos, shows e arte. Também iniciou na cidade projetos de corredores de ônibus, incentivou o uso da bicicleta e, ao final de sua gestão, produziu uma cidade cheia de vida e muito menos violenta.

Depois de Antanas, outro candidato sem partido assumiu e, em poucos anos, transformou a cidade. Inúmeros parques foram inaugurados, calçadas foram alargadas, foi criado o Transmilenio (principal sistema de transportes de massa) e novas bibliotecas. Enrique Peñalosa, inspirado na gestão de Jaime Lerner em Curitiba, mudou significativamente a cara de Bogotá e, em apenas 3 anos, colocou a cidade no mapa do urbanismo mundial como exemplo a ser seguido.

CAFETONES4 CAFETONES3

Enquanto Bogotá se reconstruía, o país se preparou para sediar a Copa América de 2001. A ideia era justamente mostrar ao mundo que mudanças vinham acontecendo e que a Colômbia não era mais aquela dos anos 1980. Apesar dos avanços, nem tudo ocorreu como planejado: ataques das FARC-EP meses antes da competição quase colocaram tudo a perder. O evento só foi confirmado um mês antes de sua realização (por pouco não foi transferido para o Brasil) mas as delegações de Argentina e Canadá abriram mão de suas vagas alegando falta de segurança.

Embora sem as estrelas dos anos 1990, o renovado time colombiano contava com bons jogadores como o goleiro xeneize Oscar Córdoba, o defensor Ivan Córdoba, o interminável Mario Yepes, e o veterano atacante Victor Aristizábal. A Colômbia chegou à final contra o México vencendo todas as suas partidas e, pela primeira vez, ganhou um titulo relevante entre os profissionais – tudo isso sem tomar nenhum gol.

Mesmo com o título inédito, a seleção colombiana acabou fazendo um péssimo segundo turno nas eliminatórias e ficou fora da Copa do Mundo de 2002.

Autor do gol do título, Ivan Córdoba beija a taça da Copa América 2001 (foto: Mexsport)

Autor do gol do título, Ivan Córdoba beija a taça da Copa América 2001 (foto: Mexsport)

Enquanto isso, Medellín, a segunda cidade mais importante do país, iniciava seu processo de reconstrução. Sergio Fajardo assumiu em 2004 e colocou em prática o seu urbanismo social, inaugurando parques e bibliotecas no meio de favelas, construindo grandes museus e redesenhando toda a cidade. Medellín, no ano de 2013, ganhou o importante prêmio da ONG Urban Land como a cidade mais inovadora do mundo e permanece se reinventando ainda hoje. A cidade oferece, entre outras coisas, um bom sistema de metrô conectado a teleféricos e escaladas rolantes em meio aos morros que facilitam (e muito) o acesso dos mais pobres ao centro da cidade.

metrocable2

CAFETONES7 CAFETONES6 CAFETONES5

Assim como suas cidades, o futebol da Colômbia também busca se reinventar. O investimento na base de clubes pequenos como o Envigado e uma gestão cada vez mais profissional permitem a times locais resultados cada vez mais expressivos. Como exemplos, temos a eliminação de brasileiros na Libertadores e o vice-campeonato da Copa Sul-Americana do Atlético Nacional em 2014, além da bela campanha, conhecida por todos, dos comandados de José Pekerman no Mundial da Fifa de 2014.

Todas essas novidades dentro e fora dos campos nos levam a crer que finalmente a Colômbia encontrou o seu caminho. É claro que a guerrilha e a máfia não desapareceram, mas os resultados de políticas públicas inovadoras e da boa gestão do futebol profissional são expressivos e animadores. Apesar do passado difícil, os colombianos podem sonhar com um futuro muito melhor.

A alegria colombiana foi um dos marcos da Copa de 2014 (foto: FIFA.com)

A alegria colombiana foi um dos marcos da Copa de 2014 (foto: FIFA.com)

Comentários