O caminho até a Rússia: Chile 2×0 Brasil

Hoje começamos uma nova coluna no Doentes por Futebol.

CAMINHO ATÉ A RUSSIA - DESTACADA

“O caminho até a Rússia 2018” trará em análises táticas o desempenho do Brasil por todo seu percurso visando alcançar a Copa do Mundo de 2018.

Siga com a gente e fique por dentro de como a seleção vai se ajeitando até – se tudo der certo – sua estreia no mundial.

 

Primeiro tempo com falhas de ambos os lados:

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A estréia da Seleção Brasileira nas eliminatórias foi dura como era esperado. A derrota para o Chile, atual campeão da Copa América, em sua casa, não chega a ser absurda.  Mas a baixa produção ofensiva e o fraco conjunto de Dunga, sim.

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Sampaoli manteve a formação com três zagueiros contra o Brasil. Além de uma estratégia para compensar a baixa estatura dos defensores, tal desenho diz respeito a um modelo de jogo no qual os três homens da zaga sabem tocar a bola e permitem a saída “de pé em pé”, tendo Marcelo Diaz à frente e Vidal alinhado. Valdívia centralizou atrás da dupla Vargas-Sánchez no “3-4-1-2” de Jorge Sampaoli. 

Dunga seguiu com o 4-2-3-1. Hulk jogou avançado, mas não como referência móvel, tal qual esperado. Com Elias e Luiz Gustavo presos, o técnico seguiu emulando sua dupla com Mauro Silva em 1994. O time contou com meias sem poder de transição e que não passavam do meio-campo, e o ataque foi baseado em jogo pelas laterais – um modelo arcaico e sem nenhuma criatividade. 

O técnico chileno percebeu não só as falhas da Canarinha, como as do próprio Chile. La Roja jogava pouco por dentro, apesar de contar com Isla bem solto, agudo no corredor direito e ter Sánchez deslocado da ponta para a direita, ajudando os apoios do ala. Do outro lado, Beausejour chegava pouco porque Vidal avançava no setor, tornando Vargas o mais agudo dos homens de frente. Valdívia se movimentou bem, preencheu espaços, mas se mostrou longe do futebol da Copa América, o que provavelmente é fruto do menor nível do centro onde joga atualmente.

Sem a bola, o Brasil compactava duas linhas buscando a dinâmica citada acima: laterais soltos, volantes presos e o quarteto tentando criar. Douglas e Willian foram rápidos pelos lados, assim como Marcelo e Daniel, mas houve problema no passe vertical. Oscar esteve muito apagado e também não ajudou na transição. No final das contas, o Brasil conseguiu apenas uma finalização certa em cinco tentativas, tendo 53% de posse de bola e 214 passes certos. Durante o jogo, houve uma abundância de lançamentos (28), mas poucos acertos (12).

POSICIONAMENTO 1

Com menos posse (47%), o Chile tentou acelerar o jogo. O time conseguiu acertar 190 passes e 3 das 5 finalizações (uma na trave de Sánchez).

https://youtu.be/MENukMKfFJg?t=1m41s

Antes do intervalo, Sampaoli sacou Silva e colocou Mark Gonzalez, voltando com a linha de quatro atrás. Beausejour segurou o posicionamento na lateral, com Mark subindo no setor e Isla do lado oposto apoiando muito.

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Segundo tempo, Chile pressionador x Brasil do contragolpe

O Chile reposicionado e com mais homens no meio-campo estava pronto para a pressão em busca do gol. Se não havia tanta intensidade, como é de costume, pressão não faltaria. Willian e Douglas Costa se juntaram a Elias e Luiz Gustavo fechando o meio-campo: frente à pressão adversária, o time apresentou mais compactação.

O Brasil se tornou mais reativo, com muita velocidade para sair, mas pouca precisão. A ordem era expressa: a linha de quatro e os dois volantes ficavam enquanto os quatro da frente estavam “autorizados” a armar. No fim das contas, pouca gente para contragolpear – uma ideia falha, atrasada. 

Sem a bola, Vargas foi fechar o lado direito, enquanto Valdívia se alinhou a Vidal e Mark fechava o outro lado. Com Diaz entre as linhas e Sánchez mais avançado (4-1-4-1), os atacantes trocaram de lado no segundo tempo, apostando na diagonal. A seleção de Dunga teve oportunidades, pôde sair na frente, mas perdeu gols demais.

Matías Fernández entrou no lugar de Valdívia, tentando buscar a transição pelo centro, que havia diminuído. Outra bola na trave com Sánchez. Apesar dos contra-ataques, o Brasil passou tempo demais retraído. A não-alternância entre momentos de pressão e linhas contidas fez com que o ímpeto do Chile resultasse em gol.

Com a vantagem, Sampaoli voltou ao esquema com três zagueiros – era hora de segurar o jogo. Assim, o Chile passou a ter Vilches no lugar de Diaz, Vidal mais recuado e Vargas fechando o lado direito com Mark na lateral oposta. O time tocou a bola à espera do fim, e ainda teve tempo para o gol de Sánchez, na lacuna pelo lado esquerdo, já no desespero. 

https://www.youtube.com/watch?v=wH8xrIqN0FI

O gol foi o 7º acerto do Chile em 13 finalizações no total, contra 10 erros em 11 tentativas do Brasil. Foram 41 lançamentos do time de Dunga, 25 errados. Nenhum dos 17 cruzamentos deu certo. Ricardo Oliveira chegou a entrar no lugar de Hulk e Lucas Lima na vaga de Luiz Gustavo, um lampejo tardio de ousadia.

POSICIONAMENT2

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Deixa os volantes jogarem, Dunga!

Abaixo, os mapas de calor de Elias no Corinthians e na seleção do Brasil. É interessante notar a diferença gritante de dinâmica, justamente no setor onde o time de Dunga é mais carente. 

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Dados estatísticos: Footstats.net 

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“Brasil bostinha” sem Neymar:

Infelizmente, fica difícil arranjar argumentos para tentar contradizer a sincera opinião expressa por José Trajano. Com a derrota para o Chile, a seleção brasileira deixou escapar um tabu de 15 anos sem perder para os rivais andinos, além disso, pela primeira vez na história o Chile ultrapassará o Brasil no ranking de seleções da FIFA. Completando os recordes negativos acumulados no jogo, foi a primeira vez – desde o início das Eliminatórias (1954) – que o Brasil estreia com derrota no certame.

O Brasil de Dunga se defendeu mal (Chile finalizou 13 vezes) e atacou pior ainda (90% de erro nas finalizações). Enfrentando um adversário que sai jogando preconizando a posse e a construção das jogadas na base do toque de bola, a seleção brasileira insistiu absurdamente nos chutões da defesa para o ataque (41 lançamentos no total).

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Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Some isso a um time recuado, que contra-ataca sem utilizar seus volantes como elemento surpresa e que não possui um centroavante titular (Hulk não agradou no jogo e Ricardo Oliveira se aproxima mais da aposentadoria do que de disputar sua segunda Copa) e fica difícil não como olhar para o trabalho de Dunga e perceber que o treinador depende excessivamente de Neymar.

O Brasil tem material humano suficiente para exibir um jogo coletivo melhor e proposta de jogo de maior protagonismo, resta saber é se Dunga terá interesse em fazê-lo. Vamos acompanhar nos próximos jogos para saber.

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Estudante de jornalismo. Redator e editor no Taticamente Falando. Colunista no Doentes por Futebol. Contato: [email protected]