A truculência, o medo e o futebol em segundo plano

A ignorância se tornou marca registrada das torcidas organizadas, da Polícia Militar e da sociedade brasileira (Foto: Pedro Galindo)

A ignorância se tornou marca registrada das torcidas organizadas, da PM e da sociedade brasileira (Foto: Pedro Galindo)

Na avenida apinhada de gente, o estampido de um disparo desencadeia o empurra-empurra generalizado. Imediatamente, o que era só uma multidão docemente bagunçada se transforma em pandemônio. Tomadas pelo pânico, centenas de pessoas se põem a correr. “Cola no muro que é melhor!”, diz um desses sábios populares. Segui a orientação. Olhei, então, para a pista e vi uma manada que parecia não se importar para onde estava indo, desde que fosse para um lugar seguro. Sustos como esse são normais numa cidade como Recife. Inclusive – e infelizmente – no contexto em que eu então estava: indo a uma partida de futebol, em uma tarde de domingo.

Encostado no muro da sede do Sport e assistindo ao espetáculo de pânico coletivo nas pistas da Abdias de Carvalho, foi impossível não me perguntar por que razão eu tinha resolvido sair de casa. A vontade de apoiar o time em uma partida decisiva foi irresistível, mas o fator mais determinante foi a expectativa de um público fraco na Ilha do Retiro. “Vai ser tranquilo”, pensei. Não podia estar mais enganado. Terminei testemunhando um episódio de selvageria provocado pela truculência das torcidas organizadas e, sim, da Polícia Militar.

Tudo começou, apurei depois, com uma provocação entre as uniformizadas de Sport e Atlético-MG perto do Túnel Chico Science. Depois de dois ou três minutos, quando muita gente já havia fugido para longe da beira do rio, aparece um grupo de quatro soldados da PM. Se esse povo que correu era uma manada, dá para dizer que eles eram os tocadores. Sua estratégia, a estupidez: munidos de cassetetes e bombas de efeito moral, dispersavam toda a gente que se concentrava em frente à sede, esperando o início do jogo. Tentando atingir membros da organizada, eles atiravam balas de borracha contra a multidão. Eu continuava lá, colado ao muro, ainda comemorando a decisão de não correr.

Nesse momento, meu ímpeto jornalístico falou mais alto. Saquei (da cueca) o celular. Tirei três ou quatro fotos, das quais só uma conseguiu registrar bem a ação da Polícia. O retrato do medo e da ignorância que se apoderaram do futebol – e também da sociedade brasileira. Mas fui repreendido. “Esconde esse celular, boy! Quer pesar aqui, é?”, me sussurrou outro torcedor que, tanto quanto eu, temia uma represália dos soldados. É bem verdade que a PM costuma castigar “excessos” como o que eu praticava, mas, aparentemente, consegui ser discreto o suficiente. Acho que ninguém mais viu.

Ali naquele muro onde estávamos eu, esse jovem que me recriminou, o meu sábio conselheiro e tantos outros, a violência relegou o jogo a um segundo plano. Isso também vem acontecendo no jornal onde trabalho: frequentemente, páginas do caderno de Esportes são usurpadas por ocorrências policiais envolvendo facções organizadas. Fatos que não pertencem ao universo do esporte, mas que vêm emparedando o futebol brasileiro e torcedores como eu e os outros 15.458 que tentavam adentrar a Ilha do Retiro naquele fim de tarde.

Terminei entrando atrasado no estádio. Perdi o primeiro gol rubro-negro, mas presenciei uma vitória histórica de 4 a 1 sobre um dos melhores times do país. Voltei para casa aliviado: o Leão chegou aos 46 pontos e eliminou qualquer chance de rebaixamento. De quebra, ainda voltou para a briga pelo seu objetivo no Brasileiro: uma vaga na Libertadores. O maior alívio, no entanto, foi de ter escapado ileso de experiências que, no Recife, são potencialmente traumáticas: ir a uma partida de futebol e fotografar a ação da Polícia.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.