O mal planejado ano do Aston Villa

Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images.

Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Sherwood não tem conseguido resultados bons como Villa

Nas últimas temporadas o tradicional Aston Villa, clube que já conquistou a UEFA Champions League, vem lutando duramente contra o rebaixamento. A última vez em que os Villans fizeram uma boa temporada foi na já distante campanha de 2009-2010, ocasião em que terminaram a Premier League na sexta posição. De lá para cá, os anos vêm sendo ruins e o início do atual segue a mesma linha, com um lugar cativo na zona de rebaixamento.

As referências se foram

Ainda que a última campanha tenha sido muito ruim, com o Aston Villa terminando a Premier League na 17ª posição, ou seja, no limite máximo entre a primeira e a segunda divisões inglesas, o vice-campeonato da FA Cup mostrou que havia algumas qualidades no elenco. Estas se revelavam sobretudo na figura de dois jogadores vitais para a equipe, tanto pela técnica quanto pela capacidade de transmitir confiança aos demais: o goleador Christian Benteke e o meio-campista e capitão Fabian Delph.

Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images

Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Benteke era a grande referência que hoje falta ao clube

O primeiro deixou a cidade de Birmingham e rumou para Anfield Road, para defender o Liverpool. Por mais de £30 milhões, o artilheiro belga deixou o Villa Park órfão de uma referência ofensiva. Mesmo tendo passado boa parte da temporada 2014-2015 lesionado e tendo perdido partidas por suspensão, na reta final Benteke mostrou porque era o grande nome do time.

Nas últimas 11 rodadas da Premier League, o atacante marcou 11 gols, o que inclui um hat-trick contra o QPR e um double frente ao Everton. Além disso, na semifinal da FA Cup, Benteke marcou um gol decisivo para a classificação do time contra o Liverpool. É indiscutível o fato de que, com o belga, o Aston Villa era outra equipe. Com ele, o time tinha não só um goleador prolífico no ataque, como também uma referência e um jogador capaz de executar muito bem a função de pivô, desafogando muitas vezes o restante da equipe.

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Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Delph tinha papel vital no time do Aston Villa

Por outro lado, Delph era um motorzinho e, mesmo tendo passado pelos mesmos problemas que Benteke – lesões e suspensões –, foi fundamental para a manutenção da equipe na primeira divisão e a chegada à final da FA Cup. Vital na transição defesa-ataque, o inglês era o jogador que conduzia o time, recuperando bolas, descendo à defesa para iniciar as jogadas ofensivas e chegando à frente para finalizar.

Como o goleador belga, Delph, que vem se firmando como peça importante na Seleção Inglesa, foi fundamental na FA Cup, marcando gols nas quartas e na semifinal. Assim, deixou o Villa Park e assinou pelo Manchester City.

Juntos, Delph e Benteke deixaram aproximadamente £40 milhões nos cofres do Aston Villa, que gastou bastante, mas não buscou novas referências de qualidade e tem sofrido com isso. Para piorar, jogadores dotados de liderança como Ron Vlaar e Tom Cleverley também deixaram os Villans.

O clube gastou, mas não supriu suas necessidades

O balanço de contratações do Aston Villa foi negativo. Entraram cerca de £45,2 milhões e saíram aproximados £46,5, números que colocam os Villans na sétima posição no ranking dos que mais gastaram na Premier League.

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Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Lescott vive mal momento 

Na busca pelas necessárias referências, o Aston Villa trouxe dois jogadores experientes, mas que não têm servido para essa função. Ex-Manchester City, clube que o formou e que esperou muito tempo pelo seu desenvolvimento, Micah Richards chegou sem custos, após empréstimo junto à Fiorentina, e tem sido o capitão da equipe. Além dele, Joleon Lescott, de 33 anos, também desembarcou em Birmingham.

Embora tenham boa experiência, o que inclui passagens pela Seleção Inglesa, nenhum dos dois tem estado em bom nível. Jogadores que deviam transmitir segurança aos companheiros, os dois defensores vêm mostrando exatamente o contrário e o clube amarga o péssimo recorde de 7 derrotas, 1 vitória e 1 empate em 9 jogos.

Além disso, a maior parte dos outros contratados são apostas. Irmão do bom André Ayew (do Swansea), Jordan foi a contratação mais cara do time (£8,4 milhões) e até o momento tem tido desempenho fraquíssimo. Nos sete jogos em que esteve em campo, o atacante de 24 anos ainda não balançou as redes e sequer concedeu alguma assistência.

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Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Sozinho, Sinclair não tem jogado o suficiente para levar o Villa às vitórias

“Eterna promessa”, Scott Sinclair, winger contratado em definitivo após chegar ao clube na última temporada emprestado pelo Manchester City, é o jogador que mais tem correspondido. Entretanto, seu desempenho não tem sido suficientemente bom para levar o clube às posições no meio da tabela com que o Aston Villa tanto sonha.

Adama Traoré, cria do Barcelona, Jordan Veretout e Jordan Amavi, franceses com passagens por seleções de base, e Tiago Ilori, zagueiro emprestado pelo Liverpool que sequer estreou ainda, todos abaixo dos 23 anos, são apostas que deveriam entrar gradativamente, o que é impossível tendo em vista o momento do time. Destes, quem tem se saído melhor é o lateral esquerdo Amavi, titular absoluto.

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Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Gestede tem marcado alguns gols

Para completar, chegaram o senegalês Idrissa Gueye, o defensor polivalente José Ángel Crespo, o centroavante Rudy Gestede e o goleiro reserva Mark Bunn. Dentre esses Gueye, ex-Lille, é um meio-campista útil, mas que não supre a falta de Delph, por não deter a mesma qualidade na movimentação do inglês. No ataque, Gestede, jogador de 27 anos sem grande expressão, até tem marcado alguns gols, mas não tem a qualidade de Benteke e nem é visto como um jogador em quem se pode confiar quando o jogo está difícil, apesar da boa presença de área e da sua estatura (1,93m). Esses dois tem se mostrado peças úteis, o que não basta para um clube que perdeu suas maiores referências. Crespo e Bunn são reservas.

O saldo até o momento

No fim das contas, o clube perdeu seus portos seguros e não tem conseguido um mínimo de segurança, ficando à deriva. Os contratados não são de todo ruins, mas não são suficientemente bons para o nível exigido pela Premier League.

Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Grealish tem potencial mas ainda é garoto

Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Grealish tem potencial mas ainda é garoto

Além disso, no elenco há outros jogadores com boa qualidade, mas que não podem ser tidos como os “salvadores” ou referências, caso dos promissores Jack Grealish e Carles Gil, jovens que tem se destacado mesmo nesses dias ruins, mas que ainda são garotos passíveis de muita oscilação.

Quem poderia exercer liderança é o atacante Gabriel Agbonlahor, jogador do clube desde 2005 e que muito prometia no início de sua trajetória. Mas, até hoje, aos 29 anos, o atleta não conseguiu se firmar como o jogador importante que se esperava.

Com o montante gasto, era possível trazer ao menos algum atleta de melhor qualidade, capaz de suprir minimamente as baixas do clube, mas não foi o que aconteceu. A defesa está fraca, o meio-campo não tem criatividade e tem muita dificuldade de fazer a transição, e o ataque, pouco fomentado, algo que já se via em 2014-2015, sofre por não ter um jogador capaz de aproveitar com mais acurácia as poucas chances que tem (o Aston Villa é o quinto time que menos cria na Premier League).

Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Agbonlahor não alcançou o nível dele esperado

Foto: Neville Williams/Aston Villa/Getty Images I Agbonlahor não alcançou o nível dele esperado

Tim Sherwood, comandante conhecido por sua cautela, admite que sua equipe está passando por uma transição e que os tempos estão muito difíceis, como estiveram em grande parte da última temporada. Não obstante, naquele momento havia dois jogadores cuja qualidade possibilitou a salvação ao clube. Neste, a falta de lideranças imponentes e seguras e a pressão sobre garotos de bom potencial pode ser crucial para o descenso da equipe, que vem sendo adiado há alguns anos.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.