Pobre, porém limpinho

  • por Nilton Plum
  • 4 Anos atrás

A crônica inicia com questionamentos curtos e grossos: tendo em vista o contexto financeiro caótico no qual está inserido o Flamengo desde fins de 2012, qual torcedor, apegado a mais pura e ingênua sinceridade, acreditou que o rubro-negro carioca chegaria em fins de 2015 com uma espécie de time “supercampeão”? Com que espécie de milagre ou magia contavam os obsessivos e megalômanos torcedores flamenguistas? É a mesma lógica de o indivíduo pagar dívidas com boa parte do que ganha e querer passar férias em Ibiza ou comprar um carro importado. Seja qual for o contexto, ninguém que se propõe a “apertar o cinto” em nome de se tornar um bom credor passa por momentos fáceis.

20121227211127_277

Fala do presidente em sua cerimônia de posse: “(…) fora de campo os problemas são mais preocupantes. Temos uma fama de um clube mau pagador, que desrespeita contratos, que não tem transparência e responsabilidade (…) As crianças e adolescentes olham as manchetes nos jornais. E que exemplo é esse que estamos dando à eles? O torcedor fica envergonhado quando o clube não paga seus funcionários, quando lê que está devendo. Como podemos cobrar uma postura profissional de nossos atletas se não tivermos uma conduta profissional?”.

Quando o grupo de executivos, que hoje se dividiu em dois, todos bem-sucedidos em seus respectivos ramos, venceu as eleições, não só pôs em prática uma plataforma de governo, bem como a sustentaram sob um sistema ideológico dolorosíssimo. Um remédio amargo seria dado. Isso foi dito e repetido nos primeiros meses de gestão de Eduardo Bandeira de Mello. O maior erro, talvez, de sua presidência à frente do Flamengo, clube mais popular do país, tenha sido, em dado momento, deixar brechas para que seu foco fosse esquecido ou distorcido não só entre grandiloquente massa torcedora, como também dentro do próprio clube.

Assumiram e cortaram na carne sim. Em 2013, fizeram um pacote de apostas, dispensaram jogadores que tinham predileção na torcida em nome de oxigenação financeira, contrataram atletas desacreditados em seus times de origem, trocaram de técnicos ora priorizando o preço mais viável, ora priorizando o custo-benefício, mas nunca, nunca esperem que um executivo à frente do Flamengo venha público dizer que seu elenco é “pobre, porém limpinho”, como diz o dito popular.

https://www.youtube.com/watch?v=UNaLBiSr1wY

O mais próximo disto, vejam só, foi o sincero e honesto time do segundo semestre de 2014 comandado por Luxemburgo que não se envergonhava em sustentar o discurso de que existia tão somente pra se livrar do rebaixamento, habilmente apelidado de zona da confusão, pois mesmo no futebol as palavras têm poder.

Ao torcedor rubro-negro, sinceras desculpas de antemão se suscetibilidades são feridas, mas ele precisa saber que entre 2013 e 2015, não importam os resultados, as vitórias ou derrotas, os vexames, as apostas, o belo passado glorioso, o Flamengo não se propôs a montar equipes campeãs. Em 2013, costurou sua colcha de retalhos “limpinha”, fracassou no estadual, ficou num insosso 11° lugar no brasileirão, que se transformou num arriscadíssimo 16° através da trapalhada do caso André Santos (além disso, é teoria da conspiração), e montado no cavalo do improvável, tão veloz e eficiente no Maracanã, foi tricampeão com méritos e justiça numa das mais difíceis edições da Copa do Brasil.

A mesmíssima fórmula foi aplicada em 2014. Lá estavam as apostas, lá estavam os refugos e a tentativa de se montar um elenco “limpinho”. No primeiro semestre, o improvável agiu e trouxe um estadual em cima do Vasco. E ali, no gol irregular de Márcio Araújo, um dos ícones deste triênio, para o bem e para o mal, a imprevisibilidade das coisas, artigo luxuoso e que nunca possui dono, deixou de agir. A realidade caiu cruel e pesada na semifinal da Copa do Brasil e lá estava o Flamengo figurando o meio da tabela na 38° rodada, o 10° lugar.

A partir da cisão do grupo gestor rubro-negro, por pura e completa falta de administração de egos, em 2015 a mesma estratégia foi adotada. Desta vez, com uma ousadia maior, pois a oxigenação financeira já era visível. E hoje, após 32 jogos, 14 vitórias, 2 empates e 16 derrotas (um recorde negativo que iguala o ano de 2006 em desempenho ruim), após eliminações de um cambaleante estadual e da Copa do Brasil para um dos piores Vascos da história, após sair do meio da tabela e chegar ao 4° lugar do campeonato, lá está o Flamengo no seu tão conhecido 10° lugar. Quem disse que a estratégia não deu certo? Monta-se um time com base no ano anterior que não foi bom, contratam-se apostas e alternativas baratas como jogadores encostados e/ou com históricos de lesão, continua-se a priorizar os ainda astronômicos débitos. O que se espera além do improvável agir novamente e sorrir em competições de tiro-curto, tais como o estadual e a Copa do Brasil, reservando o meio de tabela no brasileirão?

O que mudou em 2015 foi o simples fato de que, além do time não ter ganhado absolutamente nada nos tiros-curtos, acumulou derrotas e mais derrotas para times de aporte bem menor. Desta forma, esbarra-se num dado cultural do torcedor brasileiro e o Flamengo emula o Brasil sempre: somos uma geração de torcedores mimados, acostumados a glórias a qualquer preço sob quaisquer contextos. Somos crianças birrentas, fazendo pirraça para o pai gastar o que não possui para comprar aquele brinquedo que ajudará a “tirar onda” com o colega. Esperneia-se pela vitória e pelo título custe o que custar. O futebol brasileiro foi construído sobre este dogma. Sintomático é o fato de que vice, aqui, virou sinônimo de fracasso.

Em ano eleitoral é preciso que se saiba que se o executivo que capitaneou as complexas finanças rubro-negras por 2 anos e agora é oposição já avisou que 2016 por uma série de questões continuará sendo um ano de apertos para o futebol brasileiro e, consequentemente, para o Flamengo, o horizonte continua “pobre, porém limpinho” independente da chapa vitoriosa. A realidade é o 10° lugar e a glória no tiro-curto se o dado do improvável cair novamente a favor. Do contrário, é admitir com a maior sinceridade do mundo que a honestidade, a credibilidade, a lisura e a idoneidade que tantas pessoas cobram da sociedade sejam postas de lado em nome do brinquedo da glória. Não existe meio termo decente num meio indecente. O remédio é muito mais amargo do que dizem.

Comentários

Só há Justiça no aleatório. E nada é mais aleatório do que o futebol. Curte futebol, bebidas, boxe, artes em geral e farofa.