A consagração de Luis Enrique

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

Quatro a zero. O impactante resultado em pleno território inimigo era o que faltava à carreira de Luis Enrique como treinador. Apesar da Tríplice Coroa, Lucho ainda não tinha em seu currículo “o” jogo. E ele chegou. Porque seu Barcelona desfrutou no Santiago Bernabéu da arte que é jogar futebol, como tanto fez com o encantador time de Guardiola. Foi um passeio coletivo, que contrastou com a vexatória insuficiência madrilenha de criar algum ataque coerente.

A vitória absoluta de Luis Enrique ante o compatriota Rafael Benítez veio pela forma na qual o seu Barcelona se comportou dentro de campo: dominando a posse de bola em todos os aspectos. Na época de Guardiola, os blaugranas usavam a bola para se defender e cansar o adversário. Atualmente, essas características não foram deixadas para trás, mas o atual técnico do Barcelona implementou um jeito de monopolizar a pelota de maneira agressiva: utilizando-a para “atacar como se contra-ataca”. Veja bem: não há uma incessante troca de passes (ou não tanto em relação a 2008 e 2012). Todos participam, mas as jogadas foram mais encurtadas.

Hoje, os jogadores foram perfeitos ao lerem a situação que o cenário do jogo lhes deram. O Real Madrid começou o jogo tentando marcar à frente, dando altura às suas linhas. Porém, a intensidade foi baixando aos poucos. Reconhecendo a impaciência merengue correndo atrás da bola, o Barça exibiu-se batendo linhas e encontrando espaços. Daí nasceu o maior mérito de Iniesta no jogo: dar clareza a saída de bola barcelonista. Como Kroos e Modric não o pressionavam, o manchego se juntou a Busquets e Alba e facilitou a tarefa de Neymar. Andrés se vestiu de Xavi dando ordem e contundência no início da transição ofensiva. A bola chegava tão limpa ao brasileiro, que o camisa 11 encarou Danilo (o embate individual que o Real tanto temia antes do jogo) mais de uma vez no um contra um. Um dos pontos chaves da goleada.

Foto: Site Oficial do Barcelona | Aplausos para o maestro: Iniesta foi o melhor em campo em mais uma história goleada do Barcelona contra o Real Madrid

Foto: Site Oficial do Barcelona | Aplausos para o maestro: Iniesta foi o melhor em campo em mais uma história goleada do Barcelona contra o Real Madrid

No ataque, além de Ney, Suárez e Sergi Roberto também merecem destaques. Movendo-se entre linhas, o canterano interpretou o jogo de exuberantemente. Não à toa, a assistência para o gol do uruguaio nasce de uma jogada em que o espanhol aparece na zona do interior direito, conduz de fora para dentro e acha Luisito livre. O uruguaio, por sua vez, foi tremendo tirando Varane de sua zona de conforto: a proteção à sua área. O defensor por muitas vezes perseguiu o camisa 9 até setor dos volantes e dos laterais. Taticamente, Suárez é uma máquina que não para quieta e evidencia a ideia de Luis Enrique: ser agressivo na frente.

A desorganização do Real Madrid de Benítez beirou o amadorismo. Sem a bola, a falta de compactação que vem marcando o trabalho de Rafa em Chamartín deu as caras, mas o mais preocupante foi a carência de criatividade com ela (com Modric, Kroos, James e Marcelo de titulares!). Confuso, o time não criou linhas de passes e se viu em mais de uma vez entalados em duas linhas de cinco. Os blancos foram incapazes, em 90 minutos, de criar um ataque compactível com as qualidades de seus jogadores. Perdidos, Modric e Kroos deram muitos espaços às suas costas.

A potente atuação do Barcelona englobou tudo que a filosofia de jogo catalã prioriza: técnica, talento, ideias e, sobretudo, inteligência. Através dos pés de Iniesta, Neymar e Suárez, o dia 21 de novembro de 2015 vai ficar marcado como o da consagração de Luis Enrique.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.