Corinthians: início turbulento, final incontestável

  • por Pedro Rocha
  • 3 Anos atrás
Foto: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

Foto: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

Eliminação para o rival no campeonato estadual; eliminação para um time de pouquíssima expressão na Copa Libertadores; problemas para pagar o estádio recém-construído; 10 meses de salários atrasados; saída de um jogador fundamental para o time. Acredite: este é o retrato do campeão brasileiro.

O Corinthians empolgou o torcedor no começo do ano. Fez uma bela campanha na fase de pontos corridos do Campeonato Paulista e da Copa Libertadores. Era quase unânime entre os comentaristas que Tite havia voltado com conceitos renovados após seu ano sabático, apesar do padrão tático e pragmatismo da equipe serem muito semelhantes ao time que ele deixou em 2013. Chegou-se a falar que o Corinthians estaria preparado para disputar a Champions League.

Tudo caminhava bem quando duas eliminações fizeram o castelo corintiano, até então intransponível, desabar. O primeiro baque veio na semifinal do Paulista, depois que o time do Parque São Jorge foi eliminado pelo rival Palmeiras, mais uma vez, nos pênaltis. O segundo, após deixar precocemente a Copa Libertadores na fase de oitivas de final, perdendo os dois jogos para o inexpressivo Guaraní do Paraguai, time que, à época, tinha a folha salarial menor que os encargos mensais de Emerson Sheik.

A partir desse momento, o time de Champions League começou a ser especulado, inclusive, como equipe que brigaria para se manter na primeira divisão. Os salários atrasados e a dificuldade de pagar a dívida da nova arena vieram à tona, enquanto Emerson Sheik e Paolo Guerrero, principal jogador de ataque no elenco, foram para o Rio de Janeiro jogar no Flamengo.

O desastre poderia ter sido ainda pior caso as especuladas saídas de Renato Augusto, Elias, Gil e Jadson, os pilares remanescentes da equipe, se confirmassem. Todos ficaram, devido, em grande medida, ao professor Tite. Foi ele quem apostou em Jadson, jogador que nem sempre era relacionado para os jogos com Mano Menezes e havia recebido proposta para jogar no mundo chinês. Todavia, nem mesmo a permanência destes atletas parecia motivo de alivio ao torcedor, já que o time, apesar de conseguir acumular pontos, jogava mal e não dava sinais de que chegaria ao topo.

Tudo começou a mudar no jogo em casa contra o Sport, válido pela 18ª rodada. A partir de então, o time que havia começado a escalar posições na 10ª rodada, contra a Ponte Preta, não largaria mais o topo. Apesar da liderança, o Corinthians não jogava tão bem e o time ainda era questionado pelos erros de arbitragem que o favoreceram e prejudicaram o Atlético-MG no momento em que a disputa pela liderança ainda estava bastante acirrada. O técnico do time mineiro chegou a falar até em um campeonato manchado.

A grande virada corintiana aconteceu, por ironia do destino, na virada do turno. O jogo em questão, válido pela 20ª rodada, foi realizado na Arena Corinthians em uma tarde de domingo contra o Cruzeiro. Após uma vitória pouco convincente fora de casa contra o Avaí, o Timão atropelou a Raposa. O conhecido pragmatismo do professor Tite dava mostras de superação e a equipe abriu quatro pontos de vantagem sobre o vice-líder Atlético-MG. Depois dessa partida, o alvinegro paulista foi a Santa Catarina enfrentar a Chapecoense, que só havia perdido em seus domínios para o São Paulo com um chute de raríssima felicidade do meia Souza. O Timão se impôs na Arena Condá e não deu nenhuma chance à Chape. Ficava claro a todos que o Corinthians havia encontrado seu padrão tático ideal e o campeonato começava a ser definido.

O ano sabático de Tite dava mostras, enfim, de ter renovado o treinador. O meio de campo do Corinthians se transformou em uma máquina. Elias infiltrava na defesa adversária com uma facilidade espantosa. Renato Augusto, para muitos o melhor jogador do Brasileirão, ocupava todos os espaços do campo. Jadson – que não saiu do Timão graças, entre outros fatores, a uma conversa com o professor Tite – comandava o ataque, tornando-se o líder em assistências, vice-artilheiro do campeonato e melhor jogador da competição para os outros tantos. A consistência do meio de campo era tão grande que nem as contusões, que tanto atrapalham as equipes, diminuíam o rendimento corintiano. A impressão é de que qualquer jogador que entrasse, a não ser no lugar da trinca de ouro, manteria o mesmo nível do substituído, tamanha a organização do time.

Sem abandonar a consistência tática e regularidade, O Corinthians deixou o pragmatismo defensivo de lado e passou a ser um time mais ofensivo. Não à toa, tem o melhor ataque da competição. Como se não bastasse, tem a melhor defesa. O melhor aproveitamento dentro de casa. O melhor aproveitamento fora de casa. A equipe ficou imbatível. Mais uma vez, mérito de Tite, que, além de tudo isso, ainda administrou brilhantemente a euforia e “oba-oba” da torcida e imprensa.

Os números do 2º turno alvinegro até aqui são impressionantes: 11 vitórias, 4 empates e, pasmem, 1 derrota. O time se organizou de tal maneira que até o contestado Vagner Love passou a fazer gols. E fez muitos. Inclusive o do título. Está em segundo lugar na artilharia do campeonato, algo impensável no começo do ano, mesmo para o mais otimista torcedor corintiano. Mérito, mais uma vez, do professor Tite, que organizou um meio-campo capaz de produzir chances claras de gol para o atacante em todos os jogos.

O jogo contra o Galo na 33ª rodada apenas confirmou o que todos já sabiam há muito tempo: o Corinthians seria campeão brasileiro. Restava somente esperar a matemática carimbar o veredicto, o que não tardou, graças à grande vantagem que o Timão abriu sobre o vice-líder.

Em um Brasileirão em que tanto se falou de arbitragem, o Corinthians sobrou. Não deu margem para que uma pessoa sequer diga que o campeonato estava comprado. A mancha atribuída ao campeonato por Levir Culpi foi superada na bola, enchendo os olhos de quem gosta de um bom futebol. Não é por acaso que o time foi campeão com três rodadas de antecedência e tem tudo para quebrar o recorde de pontos desde que o campeonato passou a ser disputado por 20 clubes. O Corinthians foi absoluto e não há quem possa questionar sua campanha. Resta ao apreciador de futebol render-se a Tite e seus comandados.

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