David Alaba, o “deus” de Guardiola

  • por Israel Oliveira
  • 3 Anos atrás

Sempre que a palavra polivalente é colocada na mesa, pensamos logo em  jogadores que não passam de esforçados, como Emre Can, Jorge Henrique, Dirk Kuyt, Marquinhos Paraná e tantos outros.

MULTIFUNCIONAL

Porém, tal qual nomes de peso como Wayne Rooney e Philipp Lahm, David Alaba não é um jogador jogador esforçado “qualquer”, ele é qualificado o suficiente para cumprir inúmeras funções dentro de campo, em qualquer contexto.

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Ponto de partida: meia-esquerda

A viagem de Alaba pelo campo de futebol é longa, apesar de ter apenas 23 anos.

INÍCIO NA MEIA

Sua posição original foi como meia-esquerda, setor onde se destacou pelo Bayern München II, onde venceu duas vezes a 3. Liga. Foi promovido rapidamente ao time principal, e sob o comando de Louis Van Gaal, pouco foi utilizado. Em Janeiro de 2011, foi para o Hoffenheim, para se desenvolver melhor e ter mais minutos.

No subúrbio de Sinsheim pela primeira vez teve destaque no futebol de elite. Jogando numa equipe de nível fraco, David Alaba demonstrava uma integridade impressionante ao trabalhar diante de companheiros limitados. No 4-3-3 de Marco Pezzaiuoli, assumiu a função de volante, comandando a saída de bola. No setor que exige frieza e responsabilidade, se saiu bem, demonstrando características importantes como qualidade de passe, poder de marcação e chegada ao ataque, marcando dois gols em sua passagem por empréstimo. Inevitavelmente, o austríaco acabaria retornando ao Bayern de Munique, um clube muito mais condizente com seu nível futebolístico avançado.

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Nova posição com Jupp Heynckes

Com a concorrência de Toni Kroos, Schweinsteiger e Luiz Gustavo, Alaba participava pouco da temporada 11/12, ganhando esporadicamente alguns minutos em jogos já decididos pelo gigante da Baviera. Porém, em certa altura, motivado pelo desfalque de Schweinsteiger e com Toni Kroos sobrecarregado no 4-2-3-1, Jupp optou pelo simples para aproveitar o o atual jogador do Real Madrid: Alaba como volante, assim posicionando Toni Kroos mais próximo da área adversária.

Após a derrota para o Leverkusen (2-0), Heynckes ensaiou um novo movimento: colocou Lahm na lateral direita, e trouxe Alaba para a primeira linha, numa função inédita para austríaco até então.

ALABA NA LATERAL

Em sua nova posição (não perca as contas, já é a terceira em que ele joga!), Alaba deu equilíbrio ao Bayern, demonstrando compostura para atacar e defender. Contra o Real Madrid foi um destaque positivo, talvez na sua primeira atuação de alcance mundial. Suspenso, não pode disputar a final da Liga dos Campeões contra o Chelsea, cenário onde o time sentiu sua falta em campo, já que na lateral-esquerda estava o limitado Diego Contento.

Parcialmente bem instaurado em sua nova posição, em 2012/2013 fez sua temporada de afirmação. No voador Bayern de Heynckes, foi peça importante no versátil e vertical esquema do time.

Com uma inteligência fora do comum, sabia dosar suas subidas, e aparecia pro jogo sempre de forma inteligente. Contra o Barcelona, vimos um Daniel Alves dominado pela excelência defensiva e ofensiva de Alaba. Ao fim da temporada foi indicado, por voto popular, a seleção da UEFA (recebeu inquestionáveis 63% dos votos na posição de lateral esquerdo).

ALABA UEFA 2013

Suas ultrapassagens eram sempre um elemento ofensivo importantíssimo, dada a sua qualidade no passe final e seu entrosamento com Franck Ribéry. No ápice, costumava recuperar bolas no campo ofensivo e dali iniciar os ataques bem elaborados do Bayern. Muito do melhor time da temporada se deveu a qualidade dos laterais, que tinham qualidades ofensivas e defensivas na medida. Na defesa, eficazes no mano a mano e com grande capacidade de roubar a bola no campo alto, ofensivamente, ofereciam profundidade, qualidade para ir ao fundo e participar do jogo de passes.

Com a chegada de Pep Guardiola, surpreendentemente, Alaba não foi deslocado de posição, de início. O espanhol em sua primeira temporada não tentou inúmeras peripécias técnicas, alterando apenas o modo de como a equipe jogava. Sempre consistente, Alaba novamente figurou na seleção da UEFA 2014, apesar de atuações abaixo da média contra o Real Madrid nas semifinais da Champions.

Créditos: zonalmarking.net

Créditos: zonalmarking.net

Ensaiando o futuro de Alaba, a equipe de Guardiola possuía um movimento sólido em que os laterais vinham para o centro com a missão de armar o jogo e dar mais liberdade para os meio-campistas, além dos extremos espetados em campo. Só foi possível o sucesso desse módulo graças a qualidade de passe de Lahm e Alaba, além de seus respectivos poderes de cobertura. Variação essa que garantiu a classificação contra o Manchester United, num jogo complicadíssimo nas quartas de final da Liga dos Campeões. Porém, Carlo Ancelotti entendeu o intento de Pep e conseguiu produzir um “antídoto”; com isso Alaba esteve abaixo da média na semifinal contra o Real Madrid.

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Halbraumlibero: Alaba vira zagueiro de Guardiola

Em sua segunda temporada na Baviera, Pep Guardiola resolveu modificar por inteiro o modo de atuar do Bayern de Munique. Trouxe Xabi Alonso para servir de elo entre os setores graças ao seu passe longo e criar superioridade na saída, e Juan Bernat, para ocupar a ala esquerda.

PEPENSADOR

Clique e saiba mais sobre o time montado por Guardiola em sua segunda temporada pelo Bayern.

A nova posição de Alaba? Zagueiro pela esquerda, com movimento para o meio-campo quando o time povoa todo o lado adversário.

Mas não é uma simples função, apenas povoando o setor exigido por Pep. Alaba dá uma nova figura para a posição, graças a sua imposição física e técnica. É possível dar opções tanto para Bernat dialogar na ponta quanto para ajudar na saída de bola, gerando opção para Xabi Alonso, e retornando para distribuir o jogo. Foi chamado na Alemanha de  Halbraumlibero, que seria o líbero entre o centro e o flanco da defesa, povoando unicamente todo esse setor.

Na temporada 15/16, Guardiola aparentava ter em mente devolver Lahm e Alaba a suas posições do triplete com Heynckes. Inicialmente, o projeto era usá-los como alternativa vertical na zona de ataque, ultrapassando com frequência e armando o jogo, sem ocupar totalmente o flanco. Porém, contando somente com Benatia e Boateng disponíveis no elenco, o risco de ter seus zagueiros lesionados era grande, sendo Dante uma opção descartável e plenamente negociável. Bingo! Benatia se lesiona, o que leva Guardiola a trazer novamente o austríaco pra mais próximo de Neuer.

No jogo contra o Leverkusen, sem Boateng e Benatia, se sobressaiu a inteligência de Lahm, Alonso e Alaba, que formaram diversos mecanismos de combate para suprir a ausência de altura e força física mais ríspida.

Um simples e mágico truque de Guardiola para suas ideias serem incrementadas, observando qualidades secundárias dos seus jogadores para transformá-las em chaves para um novo espaço.

Onipresente. Sem bola, protege a defesa, sempre tentando roubar a bola na antecipação ou em botes precisos. Com bola, um importante elemento ofensivo, que muitas vezes não é acompanhado.

Onipresente. Sem bola, Alaba protege a defesa, sempre tentando roubar na antecipação ou em botes precisos. Com bola, um importante elemento ofensivo, que muitas vezes não é acompanhado.

Sua constância tem encantado Pep Guardiola, que classificou David Alaba como o jogador mais moderno do mundo.

Geralmente como volante ou zagueiro, tem sido a peça mais regular do time da Baviera, que muitas vezes se complica diante de adversários bem configurados. A versatilidade Alaba será vital para a reta final da temporada, podendo confundir esquemas adversários em qualquer movimento.

Jogos contra a Roma e Borussia Dortmund mostraram como sua liberdade e leitura é capaz de dar um elemento fortificante ofensivamente, sem perder o senso defensivo.

O movimento tático com Xabi Alonso

O movimento tático com Xabi Alonso

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“Retorno” ao terreno de seu auge

Após o retorno de Javi Martinez ao time, vindo de grave lesão, Alaba em alguns jogos tem retornado a posição de lateral esquerdo, mas numa função diferente. Com Xabi Alonso e Thiago resguardando o centro e cobrindo sua subida, joga espetado, próximo ao ponta (Douglas Costa ou Kingsley Coman).

Por seu vigor físico, realiza sem problemas os recuos naturais, mas o esquema é proporcionado para os flancos, para quem tem capacidade de desconstruir a defesa em jogadas de um contra um. O volume físico exercido por Alaba em parceria com seu companheiro de lado tem sido impecável, gerando 04 gols  ( 03 assistências e 01 gol) nas últimas duas aparições na lateral. Assim que confiar inteiramente em Javi Martinez ou contar de vez com Benatia, Guardiola usará essa arma ofensiva com mais frequência, apesar de Alaba ser um zagueiro competente na saída de bola e na mutação tática da equipe.

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Um jogador completo

Alaba é extremamente competente em quase todos atributos vitais.  Assim como na lateral-esquerda, ele é capaz de incursões e arrancadas fantásticas também quando joga numa função de mais organização e ainda consegue demonstrar uma qualidade de passe imensa. Na Bundesliga 2014/2015, foi o segundo jogador em média de passes por jogo (86.32), atrás apenas de Xabi Alonso (100), e com um aproveitamento sublime de 91% em seus passes.

https://www.youtube.com/watch?v=VNgRO9A-rn0

Não à toa foi deslocado para a defesa. Em duelos contra seus oponentes, ganha 65% dos combates. Apesar de não ser tão alto, tem bom posicionamento, é capaz de burlar o esquema e escolher a melhor forma para defender, seja desarmando ou interceptando bolas. O mais incrível dado sobre Alaba: o rapaz ficou de agosto de 2011 até outubro de 2015 sem receber nenhum cartão amarelo (105 jogos)! Isso mostra toda transparência e limpeza em seu jogo, sem perder a intensidade. Extremamente competente no mano-a-mano, é capaz de marcar individualmente ou por setor, graças a uma leitura extremamente aperfeiçoada sobre o jogo.

ALABA AUSTRIA EURO

Nos atributos mais ofensivos, ele também não faz feio. Na seleção Austríaca, joga como meia armador e liderou as estatísticas do time com  04 gols e 03 assistências nas eliminatórias para Eurocopa, tendo sido importantíssimo na classificação de seu país para o torneio continental. Habilidoso, tem facilidade em jogar com a bola no chão em velocidade, além de ter um chute extremamente poderoso, como vem demonstrando em suas venenosas cobranças de faltas e chutes de média distância.

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Peça versátil na engrenagem de Guardiola

Para o andamento daquele que talvez seja o melhor time do mundo, David Alaba é de importância gigantesca. Muito mais que um motor, consegue conciliar sua disposição tática e física com qualidade técnica extrema, dando a equipe diversas opções. Sem a bola, ofensivamente é sempre um elemento surpresa, seja abrindo pelo lado, cobrindo os avanços de Bernat, ou pelo meio, em incursões surpreendentes.

Sua qualidade de passe faz a equipe funcionar em linhas curtas. Se Xabi Alonso interliga todos os setores através do lançamento, Alaba é responsável pelas conexões mais curtas. Seu passe na diagonal e a capacidade de se movimentar corretamente cria opções amplas na saída de bola, e sempre abre as defesas adversárias.

Num esquema tão ambicioso, sua coordenação é vital tanto para o sucesso quanto para o fracasso de sua equipe. Em “Guardiola Confidencial”, livro que fala sobre sua primeira temporada no Bayern de Munique, Pep diz que não necessita de um elenco volumoso, mas de jogadores que possam desempenhar 2/3 funções, dando a ele munição para suas ideias.  Certamente David Alaba é um jogador especial para o gênio espanhol.

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“Alaba é nosso Deus. Ele já jogou em quase todas as 10 posições no campo”.

Com apenas 22 anos e já tendo passado por todos os setores do gramado com grande competência, é natural dizer que Alaba é um jogador especial. Sua flexibilidade o elege para ditar e obedecer qualquer sistema, com uma qualidade especial.

Há diversos jogadores versáteis no mundo, mas nenhum é tão moderno, trafega por tantos locais em nível altíssimo quanto Alaba.

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