Há sintonia entre a Seleção Olímpica e a Principal?

Fotos: Marlon Costa/FPF (acima); Rafael Ribeiro/CBF (abaixo)

Fotos: Marlon Costa/FPF (acima); Rafael Ribeiro/CBF (abaixo)

*Colaborou Raí Monteiro

Integração entre as Seleções Brasileiras de base e a principal. Esse conceito vem sendo uma constante no discurso da CBF há alguns anos. Desde o 7 a 1, tornou-se um verdadeiro mantra da entidade. E com a crescente proximidade dos Jogos Olímpicos, virou preocupação da torcida, que vê a Seleção Olímpica se preparando em datas próximas às que a principal entra em campo pelas Eliminatórias para a Copa da Rússia.

Comandada por Rogério Micale, vice-campeão mundial em 2015 com a sub-20, a sub-23 conta com atletas que já são destaque no cenário do futebol nacional e até europeu. Jogadores como Felipe Anderson, Lucas Silva, Gabriel Barbosa e Luan, entre outros, já são realidades e referências em seus clubes. Esses talentos vêm formando um conjunto que têm chamado a atenção de imprensa e torcida pelo futebol agradável que vem sendo apresentado nos últimos amistosos, algo que também marcou o time vice-campeão de Micale no Mundial sub-20.

Trocas de passes rápidos, superioridades nas jogadas pelas laterais, muita movimentação, ataques com sete ou até oito jogadores… tudo isso é parte do repertório da Seleção Olímpica que está há nove partidas invicta, com 26 gols marcados e 6 sofridos no período. Marcas que terminaram por enaltecer um certo contraste com os resultados que o time comandado por Dunga vem acumulando nos últimos meses: no mesmo recorte de nove jogos, são seis vitórias, duas derrotas e um empate, com 14 gols pró e oito contra.

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Para os atletas da sub-23 que jogaram para menos de 7 mil pessoas contra os Estados Unidos, no entanto, esses números não traduzem a sintonia que existe entre os dois times. Essa opinião é unânime entre os cinco jogadores entrevistados pela reportagem do Doentes por Futebol na zona mista montada ao lado da Ilha do Retiro. Eles defenderam o trabalho que vem sendo tocado em conjunto pelos técnicos Dunga e Rogério Micale, e ressaltaram aspectos do ótimo futebol apresentado pela Seleção Olímpica que, para eles, também existem no contestado grupo que disputa as Eliminatórias.

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Lucas Silva

(Foto: Marlon Costa/FPF)

O maestro da noite na Ilha do Retiro: Lucas Silva serviu Gabriel e Luan nos gols da Seleção (Foto: Marlon Costa/FPF)

Para o volante que decidiu o jogo contra os ianques com duas lindas assistências, a estrutura tática das duas equipes se parecem. Ele inclusive afirma enxergar no time de cima volantes com características próximas das suas. “Sim (são parecidos). Com dois jogadores abertos, muito rápidos, como na Seleção Principal. Com um meio bem consistente, com uma defesa consistente também, todo mundo atacando e defendendo. O mesmo serve para os volantes, que têm uma boa pegada, com marcação, e também têm uma boa saída de jogo”, analisa o atleta emprestado ao Olympique de Marseille.

Felipe Anderson

O camisa 10 teve atuação discreta, mas ameaçou com bons chutes de fora (Foto: Marlon Costa/FPF)

O camisa 10 teve atuação discreta, mas ameaçou com bons chutes de fora (Foto: Marlon Costa/FPF)

Sem entrar muito no aspecto tático da comparação, o meia da Lazio credita o ímpeto ofensivo do time de Micale à juventude dos jogadores, que ainda não sabem bem a hora de prender mais a bola. Essa diferença à parte, Felipe vê algumas semelhanças. “A forma de construir o jogo, de marcar, é mais parecida. É que como somos mais novos, vamos mais para frente ainda, não temos tanto aquela responsabilidade, a gente pensa mais em atacar. Com o tempo, a gente vai amadurecendo e vai entendendo também que tem mais que segurar a bola e atacar menos”, avalia.

Valdivia

Xodó da torcida: Valdivia entrou a pedido do público presente na Ilha (Foto: Pedro Galindo)

Xodó da torcida: Valdivia entrou a pedido do público presente na Ilha (Foto: Pedro Galindo)

Atleta mais exaltado pela torcida pernambucana no amistoso, o meia-atacante ressaltou o intercâmbio existente entre as duas seleções como um fator que aumenta a sintonia no trabalho que vem sendo desenvolvido. Sim. Nossa equipe tem qualidade, está bem unida, quando um machuca lá, sobem uns daqui. Então, estão bem juntas as duas seleções, e tem tudo para dar tudo certo nas Olimpíadas. Perguntado sobre que jogador no time principal tem características próximas às suas, Valdivia assumiu seu lado “figura”, que já cativa muitos fãs. “Na Principal? O meia, Kaká. Podia ser Oscar, Coutinho também (risos). Não quero nem falar, porque são de qualidade demais, eu estou apenas começando ainda…”, desconversa.

Gustavo Scarpa

Meia teve poucos minutos em sua primeira vez com a camisa amarela (Foto: Pedro Galindo)

Meia teve poucos minutos em sua primeira vez com a camisa amarela (Foto: Pedro Galindo)

Estreante na Seleção Olímpica, Gustavo entrou na segunda etapa e não teve muito tempo para mostrar seu futebol à torcida pernambucana. Ele vê todos os atletas do time sub-23 procurando aprender com a experiência dos craques da Seleção Principal, mas aponta nela um certo “ponto fora da curva” que, para ele, dificulta comparações. “A gente procura seguir o exemplo da seleção principal, mas acho que é um pouco diferente. Porque a Principal tem Neymar, que é um cara que consegue decidir as partidas. Mas acredito que nossa equipe está no caminho certo. Dá para ser semelhante à Principal”, assegura.

Gabriel

Matador do Santos na temporada deixou sua marca contra os ianques (Foto: Marlon Costa/FPF)

Matador do Santos na temporada deixou sua marca contra os ianques (Foto: Marlon Costa/FPF)

O sistema é igual, mas há algumas diferenças pontuais. É essa a visão do atacante que marcou o primeiro gol da noite, nos minutos finais do primeiro tempo. Mas acima de tudo, Gabriel garante que os atletas da sub-23 se esforçam para seguir o exemplo dos mais velhos. “A gente busca, faz algumas coisas parecidas. Claro que às vezes os jogadores têm características muito diferentes, mas acho que o sistema de jogo é igual, algumas coisas são iguais sim.

Opiniões divergentes

Parte da imprensa vê bem menos semelhanças nessa relação entre Seleção Olímpica e Principal. Um deles é Raí Monteiro, que é colunista de tática aqui no DPF e foi convocado para fazer essa comparação entre o time de Dunga e o de Rogério Micale. Há poucos meses, Raí escreveu sobre o baile que o Brasil tomou do Chile em Santiago, pelas Eliminatórias, quando perdeu por 2 a 0. Mas ao comentar a boa vitória do time sub-23 sobre os Estados Unidos, nosso colaborador adotou um tom quase de lamentação por não identificar tantos pontos positivos no trabalho do capitão do tetra.

“Enquanto a seleção principal sofre com as poucas ideias de Dunga, a base comandada por Micale mostra modernidade no jogo e boa assimilação dos conceitos. O que, em parte, é trabalho do técnico, mas também é continuidade do que os jovens aprendem nos clubes onde jogam.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

As marcas do time olímpico são as mesmas que vemos nos grandes clubes da Europa: compactação, marcação pressão e alta para roubar perto gol, dupla de volantes construtora, que participa do jogo de forma ativa, e meias, pontas e atacantes muito móveis.

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Foto: Reprodução

O time que troca passes em alta velocidade, cria ocasiões e tem qualidade também no momento individual, mas tem problemas. Naturais pelo início de trabalho e total assimilação das ideias – que, como citada acima, já é boa. A defesa alta precisa de um pouco de coordenação, assim como as coberturas, tanto por dentro como pelos lados.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Mas já é muito interessante ver como a seleção de base trabalha, de forma totalmente diferente, e melhor, do que a seleção de cima. Tomara que o tempo faça com que Dunga aproveite essas ideias, além, é claro, de aproveitar os jovens”.

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Raí não está sozinho em sua visão do que aconteceu em campo. Durante e depois do jogo, outros jornalistas e comentaristas fizeram leituras semelhantes. Os jogadores mostram estar tentando assimilar os conceitos aplicados, além de deixarem evidente que estão se cuidando fisicamente, comprometidos com a evolução do futebol nacional e, acima de tudo, com o projeto do ouro olímpico. O discurso dos técnicos denota a preocupação com o tema. Mas basta comparar o desempenho das duas seleções, Principal e Olímpica, para observar o óbvio: há algum descompasso entre elas.

Comentários

Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.