Victor Sánchez del Amo e o resgate do melhor Deportivo

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Anos atrás

Quem começou a acompanhar o futebol espanhol na década de 90 (mais precisamente no fim dela) ou no início dos anos 2000 certamente possui um apreço pelo Deportivo La Coruña. Afinal de contas, o clube da Galícia viveu sua melhor fase naquele período.

Além das conquistas do Campeonato Espanhol e da Copa do Rei, o Depor era ameaça regular a Barcelona, Real Madrid e Valencia e foi dono de apresentações memoráveis, inclusive na Europa.

Como não se lembrar da reação contra o PSG em 2001? Ou da fantástica vitória contra o Arsenal de Henry e Bergkamp em pleno Highbury em 2002?

Mais: a histórica remontada contra um Milan que defendia título, depois de perder por 4×1 no primeiro jogo e ganhar de 4×0 a volta?

Enfim, foram inúmeros momentos inesquecíveis.

No entanto, depois da boa temporada de 2003/2004, quando alcançou semifinal de Liga dos Campeões, sendo parado somente pelo Porto de José Mourinho, que viria a ser campeão na final contra o Mônaco, os blanquiazules aos poucos foram perdendo protagonismo até caírem no esquecimento total com os rebaixamentos em 2010/2011 e 2012/2013. Na temporada passada, a briga pelo descenso foi a tônica de mais uma temporada. Até que, faltando um mês para terminar a competição, o ex-jogador do clube Victor Sánchez del Amo, um dos mais destacáveis no período de ouro do Depor, assumiu o time em posição crítica.

O jovem Victor Sánchez del Amo, em seus tempos de jogador do clube

O jovem Victor Sánchez del Amo, em seus tempos de jogador do clube

A oito rodadas do fim, a inquietude tomou conta do treinador, do elenco e de toda região de La Coruña. Em plena era do futebol ofensivo na Espanha, Victor ousou: planejou uma estratégia conservadora e direta para salvar seu querido Deportivo de uma nova queda. O madrilenho tinha claro: precisava consertar os problemas na defesa antes de passar para o ataque, que contava com o bom Lucas Pérez como peça-chave, sendo foco de perigo constante. Com quatro empates e duas vitórias em sete partidas, o Deportivo chegava à última rodada com possibilidades de se salvar e dependia somente de si para isso. O problema era o adversário: o Barcelona, no Camp Nou. Apenas um ponto bastava.

E ele veio. E veio de maneira heroica, honrando toda a história da instituição. Perdendo por 2 a 0, com Messi buscando gols para tentar vencer o Pichichi do ano, os galegos se lançaram ao ataque e conseguiram empatar o duelo. Fim de jogo: 2×2, e Deportivo na primeira divisão. O Camp Nou, que comemorava mais um título de Liga, também aplaudia os esforços daqueles jogadores que vestiam um uniforme azul e branco.

Missão cumprida. Era hora de dar um passo definitivo para frente. Com mais tempo para se preparar, Victor deu uma repaginada no elenco. A ideia sempre foi achar um companheiro que pudesse acompanhar o nível de Lucas no sistema ofensivo. O técnico queria que seu plantel fosse caracterizado por cinco qualidades essenciais no futebol: velocidade, capacidade de dribles, determinação, contundência e gol. Seu primeiro Deportivo, montando às pressas, sempre deixou evidente a boa forma com a qual tocava a bola, apesar das linhas recuadas voltadas para um contra-ataque. E já podemos concluir que o futebol que o Depor joga atualmente é aquele que Victor sempre sonhou.

Camaleônica, a equipe não tem um estilo, digamos, “bem definido”: versátil, é planejada jogo a jogo de acordo com seus adversários. É verdade que o treinador gosta de ter a bola, mas essa “falta de identidade” é o que dá carisma ao time. Bem treinada, a posse ainda é vista como um conceito que dá controle e ordem, mas já há peças que são capazes de acelerar, verticalizar e surpreender com muita mais frequência. Quando tem que defender, não há pudor em entregar a pelota ao adversário e recuar em duas linhas de quatro.

Lucas Pérez segue sendo o Messi do Riazor, mas não está mais sozinho e divide protagonismo. Que o diga Pedro Mosquera.

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O espanhol é o líder do meio-campo. Maestro, organiza toda a medular e dá coerência ao jogo coletivo. Mosquera segura a bola, ordena os passes, se conecta com os atacantes e ainda libera Borges para avançar mais do que de costume. Mais à frente, Pérez não é mais o “todo-atacante” do primeiro semestre. As companhias de Fayçal Fajr e Luis Alberto caíram como uma bênção ao corunhês. Fajr por arrancar mais conduzindo a bola e Luis Alberto por fazer o trabalho sujo na fase defensiva, o que permite Lucas ter liberdade. Taticamente, a equipe varia entre um 4-4-2 e um 4-2-3-1, a depender da posição de Lucas, que atua entre meia-atacante centralizado e centroavante.

No último final de semana, a vitória no simpático Dérbi da Galícia contra o Celta de Vigo confirmou o melhor momento do La Coruña nos últimos dez anos. Sem Celso, que irá ficar de fora dos gramados por quatro meses por causa de uma lesão no pé, Victor elegeu Bergantiños para ser o companheiro de Mosquera na volância. O fato inesperado veio na formatação da dupla de extremos: Cani, pela direita, e Luisinho, com Jonathan Rodríguez e Lucas Pérez no ataque. Um 4-4-2 muito em linha, que tinha uma tarefa em mente: pressionar para evitar que o rival pudesse criar alguma coisa. O êxito da experiência foi total e inquestionável. Dentro de campo, para combater o poder de fogo dos comandados de Berizzo, o Deportivo deu uma exibição de marcação-pressão que com toda certeza valeria como aula para Rafael Benítez.

Asfixiantes, as linhas adiantadas não deixaram o Celta pensar e baixaram a energia do time que mais tem corrido nesta primeira fase da Liga. Quando os celestes conseguiam passar do meio-campo, os azuis logo roubavam e armavam um contra-ataque. O embate entre a dupla Jonathan e Lucas Pérez e Fontás foi desumano, porque a intensa dupla aproveitou a falta de velocidade do defensor para aniquilá-lo. Em todas as vertentes do Dérbi, o Deportivo foi superior. Inclusive em uma que parecia impossível: superar o Celta em velocidade.

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Tudo isso é obra de Victor Sánchez del Amo, de desempenho tático fantástico na campanha, que construiu um time agradável e com diferentes jeitos de se comportar. Hoje, o Deportivo está na oitava posição com 18 pontos, somente três atrás do Villarreal, quarto colocado, com 21.

Não sabemos até quando vai durar o gás do time, mas é bom vê-lo no caminho do protagonismo (mesmo que de segundo escalação) novamente.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.