O fim do quarto ato de Levir no Atlético

  • por Lucas Sousa
  • 5 Anos atrás

Por Lucas Sousa e Wladimir Dias

Levir Culpi está no rol dos treinadores que mais se identificaram com o Clube Atlético Mineiro em todos os tempos, isto é um fato indubitável e que, a despeito das críticas recentes, segue valendo. O momento em que o paranaense se despede das Minas Gerais é oportuno para lembrar sua mais recente passagem e afirmar a frase que dá início a este texto.

A juntada dos cacos e a ascensão nacional: breve resumo da última passagem de Levir pelo Galo

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Levir Culpi desembarcou em Belo Horizonte no final de abril de 2014 para reconstruir um time que vinha abaixo de seu potencial desde a conturbada disputa do Mundial Interclubes, com a estranha forma como foi conduzida a saída de Cuca e a derrota precoce para o Raja Casablanca. Para o lugar do campeão da Libertadores de 2013, Paulo Autuori chegara e, como o torcedor previra, fazendo um trabalho extremamente questionável.

O mau futebol, a perda do estadual para o Cruzeiro e a possível eliminação da Copa Libertadores foram ingredientes que colocaram a direção em ebulição e levaram à queda de Autuori e à chegada de Levir. No entanto, após anos isolado no Japão, Culpi era visto por muitos com desconfiança, como um integrante da “velha guarda” e que há muito tempo estava comandando equipes de valor duvidoso na Terra do Sol Nascente.

Foto: Atlético - Levir Culpi chegou para salvar a campanha na Libertadores 2014, mas não foi possível

Foto: Atlético – Levir Culpi chegou para salvar a campanha na Libertadores 2014, mas não foi possível

Essa desconfiança seguiu crescendo logo no início do trabalho de Levir, com problemas com os dois jogadores mais talentosos do elenco, Ronaldinho Gaúcho e Diego Tardelli. Ambos perderam seu status de intocáveis – tendo suas estatísticas questionadas -, o time enfrentou uma dura eliminação na Libertadores contra o Atlético Nacional e os rumores apontaram uma crise de vestiário no Galo. Na sequência, R10 veio a deixar o clube, mas DT9 entendeu-se com Levir e voltou a viver grande fase.

Mais do que táticas revolucionárias, o comandante mudou rapidamente a mentalidade do time. A apatia vista com Autuori acabou rapidamente e o time ganhou brio. Levir deu confiança para o elenco pondo fim às concentrações pré-jogo que tanto irritam os jogadores e colocou o elenco inteiro na balança, dando valor e oportunidades àqueles que fizeram por merecer. Assim Rafael Carioca foi entrando na equipe na vaga do querido Pierre, Jemerson ganhou espaço e Jesús Dátolo cresceu. Todos alavancados pela grande forma de Tardelli, que mostrou comprometimento impressionante em seus últimos meses no Atlético.

Durante esse tempo, também teve que lidar com problemas extra-campo com Jô, André e Emerson Conceição, que foram afastados. No entanto, esta medida parece ter sido feita com muito tato, haja visto que a forma do time não foi afetada pelo incidente do trio

Assim, mesmo sem ter sido brilhante, o time conquistou a Recopa Sul-Americana e chegou a um honrado 5º lugar no Brasileirão. Entretanto, houve espaço para o brilhantismo também, como confirmou a fantástica e emocionante campanha do time na Copa do Brasil, com resultados verdadeiramente inesperados e excepcionais contra Corinthians e Flamengo e uma vitória contra o rival Cruzeiro na finalíssima. O Galo conquistava ali também um título inédito.

Foto: Atlético - Sob o comando de Levir o Galo conquistou o inédito título da Copa do Brasil

Foto: Atlético – Sob o comando de Levir o Galo conquistou o inédito título da Copa do Brasil

Terminando o ano em grande forma, com futebol ofensivo – muitas vezes com um volante apenas – e resultados expressivos, 2015 foi projetado como mais um grande ano. Da base de 2014 saiu Tardelli apenas, chegando o bom Lucas Pratto para a recomposição do elenco.

No início do ano, o treinador bancou os retornos de empréstimo de Patric e Giovanni Augusto, algo que certamente deixou alguns torcedores com uma pulga atrás da orelha. Apesar da boa forma no Sport, o lateral-direito tinha um passado de rusgas com o torcedor e o meio-campo travava batalha judicial para conseguir se desvincular e partir para outro destino. Ambos ficaram e acabaram tornando-se figuras importantes no ano alvinegro. Mérito para Levir.

Foto: Atlético - Mesmo questionado por parte a torcida, treinador deixa o clube pela porta da frente

Foto: Atlético – Mesmo questionado por parte a torcida, treinador deixa o clube pela porta da frente

No primeiro semestre de 2015, o comandante conduziu de forma emocionante o time ao título do Campeonato Mineiro, eliminando o Cruzeiro na semifinal em lances brilhantes de Guilherme e Pratto, mas não conseguiu melhor sorte na Copa Libertadores, competição em que o time fez uma má primeira fase – embora tenha avançado – e caiu na sequência para o Internacional.

Ainda assim, o time não se abalou e fez um belo início de brasileiro, mantendo sua postura ofensiva e vistosa. No entanto, a equipe perdeu peças importantes durante o ano – casos mais emblemáticos de Guilherme e Maicosuel – e para ter em definitivo os emprestados Douglas Santos e Rafael Carioca não pôde reconstruir o elenco. Logo seguiram-se também falhas defensivas e questionamentos.

Foto: Atlético - Levir comandando seu último treinamento pelo Atlético

Foto: Atlético – Levir comandando seu último treinamento pelo Atlético

A parte final da passagem de Levir pelo Galo foi cercada pela expectativa de um título há anos esperado e que novamente escapou. Os resultados, de forma geral, não foram ruins, como confirma a segunda colocação no Brasileirão, só não foram suficientemente bons para superar o Corinthians. Além disso, o clube foi eliminado precocemente da Copa do Brasil e sofreu derrotas pesadas para Sport, Santos e Corinthians que feriram a alma do torcedor e tornaram o ambiente muito ruim para o treinador. Por mais que o tempo passe, o imediatismo ainda marca o futebol brasileiro e a consequência foi a saída de Levir, com um “até logo”, que bateu fundo na consciência de grande parte da torcida.

A saída de Levir e a realidade brasileira

19 meses à frente de um clube. Mais de 60% de aproveitamento, três títulos (um estadual, um nacional e um continental) e o atual segundo lugar no campeonato. Em algum lugar do mundo do futebol, esse trabalho não e considerado bom. E esse lugar é o Brasil. Levir Culpi teve o currículo acima em sua quarta passagem pelo Atlético, encerrada, ironicamente, um ano após a conquista da Copa do Brasil sobre o maior rival. A saída, justificada pelo presidente do clube por conta de um “desgaste”, evidencia um dos problemas mais graves do futebol brasileiro: o da avaliação.

Afinal, o que é um bom trabalho, uma boa temporada? Para os clubes da Série A, isso se resume a título. É isso que nos mostra os números do campeonato: apenas o campeão Corinthians terminará o torneio com o mesmo treinador que começou. Para alguns cartolas, membros da imprensa e torcedores é difícil avaliar como boa uma temporada consistente que se encerrou sem troféu. O Atlético não foi espetacular, mas também esteve muito longe de ser ruim. Foi uma boa temporada para o padrão recente do clube. Nos últimos três anos, o Galo foi um dos três melhores times do Brasil sem dúvida alguma e, como atesta a tabela do Brasileirão, é o segundo melhor atualmente.

Foto: Atlético - Com lágrima nos olhos, Levir deixou o Galo

Foto: Atlético – Com lágrima nos olhos, Levir deixou o Galo

Será que se o Corinthians tivesse tropeçado na reta final e o caneco ficasse com o time mineiro, Levir Culpi deixaria o comando por conta de um “desgaste”? Não. Provavelmente esse tal desgaste nem existiria e, se existisse, seria esquecido após o título. O treinador saiu porque avaliaram o ano como ruim ou como abaixo daquilo que poderia render. Mesmo o Atlético sendo líder por apenas sete rodadas, muitos (da diretoria, da imprensa e da arquibancada) acreditam que o time perdeu o título do Campeonato Brasileiro.

O que não exime Levir dos erros que cometeu. Os problemas defensivos do Galo chamaram a atenção neste ano. A defesa, que sempre esteve entre as cinco melhores nos últimos três anos, é a sétima mais vazada em 2015, com 45 gols sofridos. O time jogou sempre com a linha de defesa alta, mas tinha dificuldades para pressionar o adversário logo após perder a posse e contava com o veterano e lento Leonardo Silva no centro da defesa. Uma combinação fatal que resultou em vários gols e sustos. O belo tento de Douglas, na vitória do Grêmio em pleno Mineirão, ilustra isso: vários jogadores fora de posição, pressão descoordenada e ineficaz. Por diversos momentos, a marcação com referências individuais bagunçou o sistema defensivo e proporcionou aos adversários oportunidades para marcar.

Fora de campo, o comandante também se equivocou ao não pedir reforços após as saídas de Maicosuel e Guilherme. A dupla não era titular e estava sendo bastante questionada pela torcida, mas eram peças úteis no elenco alvinegro. A falta de opções no ataque fez Levir improvisar o lateral Patric como ponta em diversas ocasiões. O período coincidiu também com a queda de rendimento de Dodô e Carlos, jovens que aparecem muito bem na temporada passada e não conseguiram manter o ritmo neste ano.

Mesmo com os erros, Levir Culpi não fez por merecer sua saída do Atlético. Era o treinador a mais tempo no cargo na Série A, conhecia todos no cube e teria totais condições de conduzir o Galo aos títulos em 2016. Porém, o simpático técnico sofreu com a “cultura do 8 ou 80” que impera no futebol brasileiro: se não é ótimo é ruim. No final das contas, ruim mesmo está o futebol brasileiro.

O que esperar no futuro do Galo?

Até o momento, as especulações da imprensa colocam quatro nomes na mesa alvinegra: Muricy Ramalho, Cuca, Edgardo Bauza e Alejandro Sabella. Algo em comum? Títulos recentes da Copa Libertadores da América. Algo diferente? Quase tudo.

Muricy não faz um grande trabalho desde a sua passagem pelo Santos, quando conquistou a Copa Libertadores com um time mais que especial, comandado pela qualidade de jogadores como Neymar, Ganso, Danilo, Alex Sandro e Elano. Em seu retorno ao São Paulo, em 2013, o comandante não fez mau papel, obtendo 59,9% de aproveitamento, mas não foi o suficiente para garantir sua permanência, também atrapalhada por problemas de saúde. Após uma ausência dos gramados de cerca de oito meses é um nome que balança o mercado e possui boas credenciais. No entanto, sua chegada dificilmente preservaria a forma de jogo ofensivo implantada por Levir durante sua passagem, o que poderia torná-lo uma opção para uma reformulação mais drástica.

Foto: Atlético - Campeão da Libertadores em 2013, Cuca é um dos especulados para assumir o cargo

Foto: Atlético – Campeão da Libertadores em 2013, Cuca é um dos especulados para assumir o cargo

Cuca, por sua vez, está distante do Brasil desde que deixou o Atlético, mas conhece muito bem a estrutura do clube e seu funcionamento – além de alguns jogadores do elenco. Sua capacidade de gestão da equipe o diferencia, mas muitas vezes o Galo foi taxado como um clube que “dava um chutão na direção de Jô”. Claro que sua passagem pelo clube foi maior do que isso, mas a barreira financeira e a forma como deixou-o podem pesar na hora da escolha do comandante.

Os outros dois treinadores são incógnitas, e não por suas qualidades e defeitos, mas por serem estrangeiros. Recentemente Palmeiras, São Paulo e Internacional fizeram tentativas com comandantes de outros países e não tiveram paciência com os métodos impostos por Ricardo Gareca, Juan Carlos Osório e Diego Aguirre, respectivamente. A vinda de um estrangeiro poderia impor novos paradigmas e a adaptação poderia ser demorada. Como com Muricy, a reformulação seria drástica.

Foto: Estudiantes - Sabella foi campeão da Libertadores em 2009

Foto: Estudiantes – Sabella foi campeão da Libertadores em 2009

Bauza foi campeão continental com o San Lorenzo no ano passado e já havia sido anteriormente com a LDU. Além disso, conduziu o clube de Almagro em grande parte do último campeonato nacional, que terminou com o vice-campeonato do Ciclón. Ou seja, vem de uma boa sequência. Sabella, por outro lado, fez um trabalho espetacular com o Estudiantes, também sendo campeão continental, em 2009, mas foi muito criticado no período em que liderou a Seleção Argentina e mesmo com o vice-mundial não voltou a trabalhar desde então.

No fim das contas, todos têm qualidades e defeitos e são muito diferentes. Não obstante, qualquer um que vier – o que inclui outras possibilidades – deverá promover uma mudança substancial no estilo do time, uma vez que a forma implantada por Levir era bem peculiar e única. O que é uma pena, afinal o paranaense foi muito importante para o Atlético e sua estada deveria deixar algum legado dentro das quatro linhas.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.