O futebol paraguaio que volta a incomodar

  • por Gustavo Ribeiro
  • 4 Anos atrás
Foto: ABC - jogadores do Nacional antes da final contra o San Lorenzo

Foto: ABC – jogadores do Nacional antes da final contra o San Lorenzo

É inquestionável que o Brasil vem fracassando nos últimos torneios continentais. Enquanto a seleção não foi longe na Copa América, os clubes nacionais não sabem o que é chegar em uma final sul-americana desde 2013, quando o Atlético Mineiro conquistou a Copa Libertadores. Depois de quatro anos seguidos ficando com a taça, já são dois anos sem colocar um time na final. Alguns podem falar que a crise que assola os clubes brasileiros é a culpada, mas esses mesmos clubes pagam salários que os grandes sul-americanos nem sonham em desembolsar.

Com os brasileiros ficando de fora das disputas por títulos, era de se esperar que algum outro país começasse a se destacar no cenário internacional. Nos últimos anos, vimos clubes colombianos, como o Santa Fe, uruguaios, como o Defensor Sporting, e bolivianos, como o Bolívar, chegando em fases decisivas da Libertadores. Mas são os times paraguaios que mais surpreenderam nas últimas edições, seja na própria Libertadores ou Sul-americana.

No cenário mundial, o Paraguai fez boa campanha na Copa do Mundo de 2010, chegando às quartas de final e caindo em um jogo duríssimo contra a Espanha, que viria a ficar com o título do torneio. Com vários jogadores espalhados pelo futebol europeu e com a ótima impressão deixada na Copa, era esperado que os clubes voltassem a incomodar nas competições continentais, como fez o Olimpia nos anos 70 e 90 (permanece, até hoje, sendo o único paraguaio a conquistar um título internacional).

Nas cinco edições de Libertadores disputadas desde a Copa do Mundo de 2010, em quatro tivemos pelo menos uma equipe paraguaia chegando às semifinais em cada uma delas, sendo que em duas ocasiões (2013 e 2014) chegaram até a final. Em 2013, um Olimpia mergulhado em dívidas e com mais de seis meses de salários atrasados surpreendeu a todos chegando à final da Libertadores, perdendo o título nos pênaltis para o Atlético de Ronaldinho Gaúcho. Em 2014, o Nacional Querido, que até pouco tempo atrás vendia mando de campos para obter mais lucros, foi vice-campeão continental, perdendo a taça para o San Lorenzo.

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Em 2015, outro clube que foi longe é o Guaraní. Se dentro do Paraguai é um dos gigantes depois de Olimpia e Cerro Porteño, internacionalmente muitos nunca tinham ouvido nem falar do time. Eliminando Corinthians e Racing no mata-mata, foi cair apenas para o campeão River Plate na semifinal. Foi a maior campanha para além das fronteiras nacionais da história da equipe.

Na Copa Sul-americana, a sensação paraguaia do momento é o Sportivo Luqueño, um dos poucos times paraguaios que consegue fazer sucesso dentro e fora do país que não é da capital. Na Copa Sul-americana, o clube está na semifinal contra o já tradicional Santa Fe. O primeiro jogo no Paraguai terminou 1×1 e agora a equipe de Luque precisa vencer na Colômbia para chegar a uma inédita final.

Com essas recentes boas campanhas dos clubes paraguaios nas competições sul-americanas, vale citar que ainda não vimos brilhar o Cerro Porteño, que mesmo sendo gigante no país, não consegue traduzir esse tamanho em títulos internacionais. É o clube com maior número de participações (já são 37) e nenhum título conquistado, tendo como maior feito ter chegado às semifinais, como foi em 2011. Outro que merece ser citado é o Libertad, uma das equipes mais organizadas do país e que desde 2010 já conquistou o torneio nacional quatro vezes, mas ainda precisa uma campanha internacional de maior destaque.

O que vale ressaltar nessa ascensão dos times paraguaios nos últimos anos é a organização dos clubes que chegaram longe nas competições. O Nacional que foi vice-campeão em 2014, por exemplo, já vinha com uma base formada desde 2009. Não foi apenas sorte, mas sim planejamento. Já o Guaraní, nos últimos onze campeonatos nacionais disputados, ficou entre os três melhores por seis vezes, chegando a levar o título em 2010.

Vale ressaltar, contudo, que os times paraguaios fazem muito mais do se espera deles nas competições internacionais. Isso porque não há grandes investimentos da Associação Paraguaia de Futebol (APF) na estrutura dos clubes, seja na parte financeira ou na formação de jovens talentos, como acontece, por exemplo, na Alemanha. Trata-se de uma das federações mais corruptas de futebol do continente, que já começa a ter todos os seus contratos e contas investigados, o que pode diminuir os desvios de verbas e fazer com que esse dinheiro seja realmente investido na melhoria do futebol local.

No Brasil, alguns ainda fecham a cara quando equipes além das brasileiras e argentinas fazem boas campanhas e chegam longe nas competições. É comum o discurso de que isso representa a decadência do futebol sul-americano, e que reflete a crise do futebol brasileiro. Mas, para o bem do próprio futebol sul-americano, é importante que essa descentralização continue e que mais clubes paraguaios, bolivianos, peruanos e venezuelanos surpreendam, seja na Copa Sul-americana ou na Libertadores.

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Projeto de jornalista, mineiro, 20 anos. Viu que não tinha muito futuro dentro das quatro linhas e resolveu trabalhar dando seus pitacos acompanhando tudo relacionado ao futebol, principalmente quando a pelota rola nas canchas dos nossos vizinhos sul-americanos. Admirador do "Toco y me voy" argentino, também escreve no Sudaca FC e tem Riquelme e Alex como maiores ídolos.