O paradoxo da Marselhesa em Wembley

  • por Lucas Sousa
  • 6 Anos atrás
Foto: FA - Wembley ganhou as cores da França

Foto: FA – Wembley ganhou as cores da França

A seleção francesa voltou a entrar em campo quatro dias após os atentados que mataram mais de 120 pessoas em Paris. A decisão, tomada pela federação sem consultar os atletas, não foi refutada nem mesmo após Bélgica x Espanha e Alemanha x Holanda terem seus jogos cancelados, este último algumas horas antes do apito inicial. Para a França, porém, o amistoso tomou proporções enormes. Se os resultados de partidas amigáveis pouco interessam, desta vez ficou ainda mais de lado. Inglaterra e França pisaram na grama de Wembley para homenagear as vítimas do atentado, para enviar uma mensagem de força neste momento turbulento, para mostrar que seguirão em frente e até mesmo para jogar futebol.

Os ingleses foram anfitriões como raramente se vê no meio do futebol. Mais do que nunca, a rivalidade ficou só dentro do campo. Fora dele, tudo preparado para acolher e apoiar o vistante. Wembley foi pintado com as cores da França, o arco que cruza o belíssimo estádio londrino foi iluminado em azul, branco e vermelho e as bandeiras francesas estavam por toda a parte. No entanto, o grande momento se deu no decorrer de um protocolo repetitivo e muitas vezes entediante. Durante a execução do hino nacional francês, a letra foi projetada nos telões do estádio para que os torcedores da casa também pudessem cantar. Uma bonita forma de demonstrar solidariedade, como se os dois povos estivessem juntos até mesmo no hino. É aí que se encontra o impasse.

A Marselhesa, como é conhecido o hino, era uma canção de guerra na época da Revolução Francesa. Ela foi composta por Claude Joseph Rouget de Lisle, um oficial do exército, em 1792, e adquiriu tamanha popularidade no período que se tornou o hino do país, embora tenha sido banida algumas vezes desde então. A canção tinha o intuito de motivar os revolucionários a lutarem nos campos de batalha e por conta disso sua letra é bastante violenta, fazendo referência direta ao ato de matar seus inimigos.

Além disso, uma parte específica é bastante controversa: “Marchemos! Marchemos! Que o sangue impuro banhe nossa terra!” Por conta deste trecho, muitos franceses filhos de imigrantes não cantam o hino, uma vez que não são “franceses puros” e se sentem ofendidos. É comum ver jogadores calados durante a execução do hino nacional e, na maior parte, eles são muçulmanos de origem africana.

O que aconteceu hoje em Wembley foi um gesto de compaixão, solidariedade e paz e que teve seu ápice com uma música que prega a violência e ofende os muçulmanos. Estes, devemos lembrar, não são sinônimos de terrorismo, mas uma parcela rejeitada da população francesa. Obviamente os contextos histórico, político e social são diferentes. A França do século 19 não é a mesma da atual e a Revolução não se assemelha aos atentados terroristas. O hino é simbólico, faz parte da identidade da nação e foi um bonito gesto por parte daqueles que estiveram presentes, porém a letra não se encaixou no momento. Quem cantou a Marselhesa em Wembley não estava se preparando para ir a um campo de batalha, mas o paradoxo é inevitável: um pedido de paz com uma canção que incentiva a guerra.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.