O problema é a geração

  • por Matheus Garrôcho
  • 5 Anos atrás
scolari guardiola

Foto Arquivo

“Se jogador x fosse bom mesmo, estaria na Europa”. O modus operandi é sempre o mesmo: um jogador começa a se destacar em campeonatos estaduais ou nacionais e alguém tece este comentário. Mas por que um técnico nunca é julgado pelos mesmos critérios?

Em uma recente entrevista, Leonardo, atual diretor esportivo do Paris Saint-German, afirmou que o futebol brasileiro está fechado para o resto do mundo. Segundo o ex-técnico do Milan e da Inter de Milão, o perfil atual de um treinador no Brasil está fora do circuito internacional e não possui uma formação de base. Ele recordou, ainda, que, para que assumisse tal função, foram necessários dois anos em um curso de formação da UEFA, que lhe deu uma base teórica para desenvolver suas ideias táticas. Enquanto isso, os cursos oferecidos no Brasil não são reconhecidos por ninguém no mercado internacional.

O tetracampeão mundial também comentou a formação de jogadores no país, afirmando que o que é feito atualmente não é o suficiente para que os atletas se desenvolvam completamente. “Ronaldo virou Ronaldo na Europa. Ronaldinho virou Ronaldinho na Europa. Kaká virou Kaká na Europa. Mas isso não tem vida longa. (…) A gente não mapeou nada. Produzimos Pelé, Zico, Ronaldo, e cadê nosso know-how? Não existe. Ninguém tem.”, concluiu.

Técnicos brasileiros não costumam se dar bem no mercado europeu. Com exceção de Leonardo, o último a ir foi Vanderlei Luxemburgo, que assumiu o Real Madrid em 2004. Após vencer múltiplos títulos por aqui, em destaque os conquistados junto ao Cruzeiro em 2003, as portas do futebol do Velho Mundo se abriram majestosamente para o treinador. Entretanto, o time, ainda em sua geração galáctica, não produziu bons resultados e Luxa foi mandado embora pouco mais de quatro meses após assumir o cargo.

Vivendo do pentacampeonato mundial, ainda recente na época, uma geração de craques brasileiros decolou na Europa e levou com ela a moral do treinador brasileiro. “O melhor futebol do mundo é o nosso”, diziam. Mas, com o passar dos anos, pode-se ver que isso não é bem verdade.

Em 2011, o Santos enfrentou o Barcelona na final do Mundial de Clubes, no Japão. O time, àquela altura, tinha como destaque Neymar e Ganso, grandes revelações do futebol nacional. Comandado por Muricy Ramalho, ainda em alta após seu trabalho no São Paulo, o grupo entrou em campo buscando vencer o Barcelona de Pep Guardiola, considerado por muitos como a melhor equipe do mundo. Antes do jogo, Muricy, ao ser perguntado por um jornalista sobre como o time se portaria taticamente, afirmou que o Santos não jogaria um futebol vistoso e que o torcedor que quisesse ver um espetáculo deveria ir ao teatro.

O torcedor não precisou ir ao teatro. O Barcelona se encarregou do espetáculo e passou por cima do Santos de Muricy, Ganso e Neymar com um sonoro 4×0. Com o resultado, pôs-se em questão a qualidade do treinador brasileiro. Entretanto, o debate só veio a ganhar um novo capítulo em 2014, após a derrota sofrida pela seleção brasileira contra a Alemanha na Copa do Mundo.

Na entrevista acima citada, Leonardo afirma que o 7 a 1 é apenas uma consequência drástica do mau planejamento dos clubes nacionais, e da própria CBF, e que, para que haja mudança neste cenário, é necessário muito trabalho.

A derrota histórica da seleção tornou-se um divisor de águas. Até mesmo os mais apegados à tradição canarinho admitiram que existem falhas no cenário esportivo nacional e técnicos, por mais experientes que fossem, passaram a ir até a Europa frequentemente para estudar técnicas e táticas.

O primeiro a ir foi Tite, ainda em 2014. Desempregado, o treinador passou o ano assistindo jogos e buscando bons exemplos em grandes clubes europeus. Retornando ao Corinthians, já em 2015, empregou tudo aquilo que aprendeu e sua equipe tornou-se a maior sensação do ano no Brasil. Com os bons resultados de Tite, idas à Europa tornaram-se frequentes entre técnicos brasileiros.

Outro que se destacou após um período estudando por lá foi Mano Menezes. O ex-técnico da seleção retornou ao Brasil após ter feito o curso da UEFA, em Portugal, e assumiu um frágil e vulnerável Cruzeiro. Vindo de uma sequência de maus resultados, o clube celeste, bicampeão nacional, corria sério risco de rebaixamento antes de sua chegada. Após quatro meses de trabalho de Mano, o clube possui a maior invencibilidade atual da Série A (11 jogos) e atualmente briga por uma vaga no G-4.

Muricy Ramalho foi outro que resolveu aumentar seus conhecimentos. No momento, o técnico aprende a dar espetáculos no clube que outrora lhe deu um: o Barcelona. Dorival Júnior também tem passado algumas boas horas pelo velho continente estudando futebol, e Ney Franco disse recentemente que irá para lá fazer o mesmo no ano que vem.

Entretanto, de nada adianta o sucesso de um clube, ou de um treinador em específico, se o benefício não for nacional. E, para isto acontecer, é necessário repensar a postura da CBF para com os técnicos da seleção.

Antes mesmo de Felipão ser anunciado técnico em 2012, especulou-se sobre uma possível vinda de Guardiola para assumir a seleção canarinho. A CBF, de imediato, bateu o pé: “treinador estrangeiro, não”. Dias depois, anunciaram que o responsável pela busca do hexa em casa seria o mesmo que trouxe o penta em 2002.

Impossível imaginar o que aconteceria de diferente caso Guardiola, treinador que mais ganhou títulos em toda a história do Barcelona, comandasse o Brasil. Após a Copa do Mundo, e o 7 a 1, o debate sobre treinadores estrangeiros voltou à cena. Entretanto, a CBF continuou lutando contra a ideia de um “gringo” no comando e anunciou a volta de Dunga à equipe.
Difícil dizer se Dunga é o cara certo para liderar este momento de mudança do futebol nacional. O que é possível dizer, no entanto, é que ele tem falhado em apresentar um bom futebol dentro de campo.

Do time que enfrentou a Argentina, na última sexta-feira (13), 14 jogadores atuam na Europa. Destes, destacam-se, pela temporada que têm feito, Douglas Costa, Willian e Neymar. Entretanto, o desempenho dos jogadores nos clubes não é o mesmo visto na seleção. Dizem que é o peso da camisa que influencia este resultado. Que nada. É o técnico mesmo.

Peguemos, como exemplo, Willian – já citado aqui no site algumas vezes. Destaque no Chelsea, comandado pelo português José Mourinho, o meia sequer consegue uma boa sequência na seleção. O mesmo acontece com Douglas Costa, atualmente no Bayern de Munique: o jogador assumiu grande protagonismo na equipe alemã, mas não consegue nem uma vaga de titular no time de Dunga. Na atual temporada, jogou por 18 vezes, anotando 4 gols e 14 assistências.

Outros bons exemplos da diferença tática entre os clubes europeus e a seleção atual são Daniel Alves e Marcelo. Considerados por muitos os melhores laterais da atualidade, os jogadores parecem não se encontrar dentro do esquema tático quando jogam com a amarelinha. Isto porque, em seus respectivos clubes, ambos atuam quase como meias, preocupando-se mais em atacar do que defender.

Enquanto na Europa discute-se um esquema tático sem zagueiros de origem, aqui ainda se fala em volante “cão de guarda” pra fechar a zaga. A verdade é que podemos ter inúmeros jogadores com destaque no cenário mundial, mas não temos nenhum técnico do mesmo nível. Nem mesmo Dunga.

O problema do futebol nacional é, sim, a geração atual. De técnicos.

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Mineiro e estudante de Jornalismo. Consumidor primário de futebol, luta-livre e cultura pop. Constantemente analisando o futebol brasileiro, espanhol e inglês.