Os problemas defensivos do Chelsea

  • por Lucas Sousa
  • 5 Anos atrás

Sem dúvidas, o Chelsea é a maior decepção da temporada europeia. Atual campeão inglês e um dos times mais consistentes do continente nos últimos anos, os Blues amargam a 16ª colocação da Premier League, somando míseros 11 pontos após 12 rodadas. Olhando as estatísticas do campeonato, fica fácil entender o motivo de um desempenho tão ruim: o terrível rendimento da defesa. Famoso por ser um treinador pragmático e defensivo, José Mourinho tem tido pesadelos com o desempenho de seus comandados quando não têm a bola.

Após 12 jogos no Inglês, o Chelsea foi vazado 23 vezes e tem a terceira pior defesa. Para se ter uma noção, o time teve a melhor defesa do campeonato passado com 32 gols sofridos. Esse número fica ainda mais assustador se fizermos um ranking entre as cinco grandes ligas da Europa. Em 2014-2015, o time londrino foi o nono que menos sofreu gols. Atualmente, é o 91º, ou seja, apenas sete equipes entre as 98 que disputam a primeira divisão na Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália levaram mais gols que o time de Mourinho.

Foto: Chelsea FC - Blues ainda não se encontraram nesta temporada

Foto: Chelsea FC – Blues ainda não se encontraram nesta temporada

São números inimagináveis para um clube da dimensão do Chelsea e para os padrões de seu treinador. Nas outras cinco temporadas em que esteve à frente do time de Londres, Mourinho sempre teve a melhor defesa do campeonato nacional. Inclusive, é do seu Chelsea 2004/2005 o recorde de melhor defesa da história da Premier League, com apenas 15 gols sofridos.

Obviamente a campanha do time não poderia ser muito diferente. Nos primeiros 99 jogos de Mourinho, em Stamford Bridge, pela Premier League, o português perdeu apenas uma vez. Nesta temporada, são três derrotas em seis jogos. Nas 54 partidas disputadas em 2015/2015, o Chelsea saiu derrotado somente quatro vezes, nos 19 embates de 2015/2016 já são nove tropeços.

Dentro de campo os erros defensivos são vários. O principal deles é a dificuldade imensa de defender os flancos, e por ali os adversários constroem jogadas e gols, muito por conta da baixa contribuição dos pontas sem a bola. Sua função não é só recuar, é também saber a hora certa de acompanhar o lateral ou de ocupar os espaços. E isso tem faltado aos homens de Mourinho.

Observe o primeiro gol do Everton:

Foto: Reprodução - Lateral esquerdo Galloway (circulado) infiltrando sozinho nas costas da defesa blue

Foto: Reprodução – Lateral esquerdo Galloway (circulado) infiltrando sozinho nas costas da defesa blue

As linhas de meio-campo e defesa estão bem postadas e próximas. Mas ninguém percebe que o lateral Galloway está passando livre para receber o passe. Quando a bola chega até ele, já é tarde para Ivanovic e Pedro começarem a correr a fim de pará-lo. O lateral recebe e centra para Naismith marcar.

Frente ao Liverpool, o Chelsea cedeu o empate nos segundos finais do primeiro tempo em uma jogada pelo lado esquerdo da defesa. Note como Azpilicueta está enfrentando Milner no mano a mano e não tem ninguém perto para fazer a cobertura, o lateral está numa “ilha” contra seu oponente. Oscar, ponta pela esquerda, não tenta ocupar aquele espaço e nem acompanha Philippe Coutinho, apenas assiste.

Foto: Reprodução - Ninguém se aproxima de Azpilicueta para fazer a cobertura ou ocupar o enorme espaço vazio a suas costas

Foto: Reprodução – Ninguém se aproxima de Azpilicueta para fazer a cobertura ou ocupar o enorme espaço vazio a suas costas

Inteligentemente, Firmino avança em direção ao buraco, recebe o passe e entrega para Coutinho. Em momento algum Oscar esboça uma reação defensiva. Novamente, o problema não foi o jogador não voltar para ajudar a defesa, mas sim sua passividade sem a bola.

https://youtu.be/GmkA2hm_PYs?t=1m44s

Na segunda rodada, o Manchester City amassou o Chelsea, 3×0. E o primeiro tento dos Citizens saiu por onde? Por uma jogada lateral, claro. Mais uma vez, o ponta recua mas não participa e isso provoca uma grande efeito dominó na defesa londrina. Com Hazard parado, quem sai para cobrir o espaço deixado pelo belga é o zagueiro Terry, então Matic recua para a zaga e Fàbregas fecha para ocupar a posição do sérvio. Essa sucessão de coberturas abre um espaço na entrada da área, para onde Aguero recua, tabela com Touré e conclui em gol.

Foto: Reprodução - Hazard (circulado) pára no lance e provoca um efeito dominó na defesa do Chelsea

Foto: Reprodução – Hazard (circulado) pára no lance e provoca um efeito dominó na defesa do Chelsea

Teoricamente, Hazard deveria estar onde se encontra Terry, cercando o adversário. Se isso tivesse acontecido, todas aquelas coberturas não precisariam acontecer e, provavelmente, Fàbregas estaria na meia-lua, impedindo que a bola chegasse até o atacante do City. A falha de um jogador comprometeu todo o sistema defensivo.

Por último, uma nova sequência de compensações que não evita o gol. Os erros se reptem: o ponta não ajuda na recuperação da bola e o lateral fica isolado contra o atacante. Na tentativa de fazer a cobertura, o volante Matic se aproxima de Azpilicueta, abrindo espaço as suas costas. Por ali o Everton ataca com dois jogadores contra Terry e sacramenta a vitória por 3×1.

Foto: Reprodução - Matic faz a cobertura mas abre um grande espaço no meio, permitindo uma jogada de dois contra um

Foto: Reprodução – Matic faz a cobertura mas abre um grande espaço no meio, permitindo uma jogada de dois contra um na entrada da área

Se os problemas extracampo têm sido pauta de jornais britânicos e motivo de preocupação para Mourinho, dentro do gramado o Chelsea também vai mal. O clima não ajuda na busca pelas vitórias e as derrotas não melhoram o clima. Vencer esse ciclo é a chave para o time retornar aos trilhos e subir na tabela, mas o problema é quanto tempo isso vai levar. A imprensa inglesa fala de uma reformulação no elenco em janeiro para “eliminar as maçãs podres”, porém, onde os Blues estarão quando 2016 começar? Hoje a equipe está a 13 pontos da Liga dos Campeões e a três do rebaixamento. Se conseguir bons resultados nesse intervalo, ainda pode sonhar na reta final. Um novo (e grande) desafio para o clube e para José Mourinho, acostumados com as primeiras colocações.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.