Pinturas inesquecíveis: Bernabéu e as palmas para Ronaldinho

  • por Leandro Lainetti
  • 4 Anos atrás

Quando o futebol descobre um novo craque, os olhares estão sempre voltados ao que ele fará com a bola nos pés. De tanto vermos sua genialidade, por vezes acabamos nos acostumando com seus lances espetaculares. Assim, torna-se fundamental que, aqui e ali, eles transcendam a realidade para nos lembrar que os verdadeiros gênios são especiais até na trivialidade. Foi o que fez Ronaldinho Gaúcho, em 2005, contra o Real Madrid, em pleno Santiago Bernabéu.

R10 PINTURA

O placar anotou três gols do Barcelona, nenhum do Real. Ronaldinho, em mais um show solo, tão comuns àquela época, fez dois. Fora o baile. Antes dos gols, ambos anotados no segundo tempo, desfilou seu festival de dribles e passes mágicos, criando uma mistura de agonia e curiosidade na plateia, que pensava quando viriam os golpes fatais.

Eles estavam sendo preparados aos poucos, e Michel Salgado era o alvo preferido durante o ensaio. Se Garrincha fez de João diversos marcadores, Ronaldinho criou vários Joãos em um adversário só. O lateral madrilenho sofreu tanto quanto um paciente moribundo que nada pode fazer perante à dor excruciante. A cada investida do Gaúcho, uma pontada de sofrimento. O cenário se repetiu durante todo o primeiro tempo.

Mas, curiosamente, no momento derradeiro, decisivo, Michel cansou de ser João e trocou de lugar com Sergio Ramos, ainda uma jovem promessa do Real. Se é desde cedo que se aprende, Ronaldinho o iniciou em um rito que é feito até hoje, mas atualmente por meio dos pés de um argentino. O lance começou daquele jeito meio morno, despretensioso, com a bola afastada pela zaga caindo nos pés de Deco. Um toque bastou para fazê-la chegar aos pés do craque.

Pela esquerda, curiosamente, usou a perna inversa para realizar todo o lance. Acionou o modo magia e fez o simples parecer complicado, como se mortais feito nós fôssemos pisar na bola ao tentar reproduzir as graciosas passadas e toques na pelota. Quando Sérgio Ramos chegou, foi ignorado solenemente, levado ao chão pela velocidade e técnica acima da média.

CANVAS RAMOS

Ronaldinho rumou para a área. Quando a invadiu, deparou-se com Helguera, a quem também fez João. Um João órfão, sem pai, nem mãe. Um verdadeiro João Ninguém.

Casillas se pôs como último desafio. E mostrou-se uma barreira tão ineficaz quanto as anteriores.

CANVAS CASILLAS

Seguiu o padrão e esperou o chute cruzado. Mas gênios não são padronizados, e Ronaldinho colocou no canto contrário. Sem nada poder fazer, o goleiro apenas se ajoelhou. Em seguida, o brasileiro ainda fez mais um gol, semelhante ao primeiro.

Ali, era o fim do show. Num campo abarrotado de craques – estavam no gramado Zidane, Ronaldo, Raúl, Roberto Carlos, Beckham, Eto’o, Deco, Messi, Xavi -, Ronaldinho foi o único a sair aplaudido de pé pela torcida rival.

Mais uma vez, o gênio transcendeu a realidade.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.