Rafael Benítez contra Neymar

  • por Victor Mendes Xavier
  • 2 Anos atrás

Rafael Benítez tem recebido críticas pelo jogo do Real Madrid neste início de temporada, mas é inegável sua condição de estrategista pelos feitos de sua carreira. No próprio Real, por exemplo, o espanhol demostrou grande sensibilidade tática ao preparar mais de uma estratégia em determinados campos, de acordo com as características de seu adversário. No entanto, é visível a irregularidade de sua equipe, não só na temporada, quanto ao longo dos 90 minutos. Os merengues foram capazes de se comportar de maneira exemplar contra o PSG em Paris, mas acabaram dominados pelo mesmo adversário dentro de seus próprios domínios.

BENÍTEZ 06-07

Em 2006/2007, quando treinava o Liverpool, Benítez foi ao Camp Nou visitar o Barcelona pela UEFA Champions League. O Barça era o então campeão da competição e, embora o sistema de Rijkaard já mostrasse falhas, enfrentar Ronaldinho e Messi ainda era algo temido. Por mais que o brasileiro fosse a estrela do time, o jovem argentino era uma preocupação a mais para todos os treinadores. O espanhol sabia disso. Não à toa, montou um planejamento especial para parar a Pulga. Na cabeça de Benítez, o pensamento era claro: frear Messi era frear 50% do Barça. Não deu outra. Com a marcação dobrada de Arbeloa e Riise, o jovem de 19 anos viveu um pesadelo e foi incapaz de armar alguma de suas costumeiras arrancadas com a bola. O placar? Barcelona 1×2 Liverpool, e Reds nas quartas de final.

Voltando ao presente, Rafa Benítez irá encontrar pela primeira vez no clube da capital o grande rival Barcelona. As notícias da imprensa catalã dão conta de que Messi volta a campo depois de dois meses, mas provavelmente inicia no banco. Porém, a preocupação do madrileno é outra: Neymar Júnior.

https://www.youtube.com/watch?v=Hqi4Jl3z8rY

O brasileiro vive um momento especial. Desde que o camisa 10 barcelonista se lesionou, Ney assumiu com êxito três funções principais: inventar gols, criar futebol e inspirar o Barcelona. Daqui a dois dias, Benítez tentará pará-lo.

O lado direito do Madrid funciona como um relógio. Sua composição mais frequente conta com Varane como zagueiro, Danilo como lateral, Modric como segundo volante ou interior e Isco como extremo. Mas é justamente quando Neymar pegar a bola no seu setor que mora o maior perigo para os madridistas: o embate direto contra Danilo. A experiência do mineiro contra os habilidosos pontas do futebol espanhol até o momento é bastante negativa. Contra o Celta, no Balaídos, Nolito fez de sua vida um inferno. Contra o Sevilla, no Pizjuán, o cenário foi pior ainda: Konoplyanka fez gol, deu assistência e terminou a partida como o melhor em campo.

O camisa 2 do Real ganhou fama como um clássico lateral brasileiro no Santos. Suas aventuras no campo adversário, por meio de uma eficiente arrancada, e a potência chamaram a atenção do Porto. Com Benítez, Danilo ganhou uma função mais precavida. Como Marcelo tem maior protagonismo e é mais criativo, o lateral direito guarda mais posição e, às vezes, joga até mesmo na mesma altura que a dupla de zaga. O problema mora aí: Danilo não tem, por natureza, “senso defensivo”. À medida que recua, chama mais o adversário. Por isso sofre no um contra um.

Carvajal, que deve começar no banco por ainda se recuperar de dores musculares, seria uma opção mais confiável para tentar controlar as transições de Neymar. Isco, encarregado de recompor, tem a obrigação de ajudar Modric e Kroos quando o brasileiro recuar para organizar jogadas. No sistema defensivo, o único jogador que daria um grande impacto contra o camisa 11 é Varane.

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A velocidade do francês, especialmente para recuperar a bola, é perfeita em qualquer mecanismo anti-Ney que Benítez possa configurar.

Para evitar que o ponto fraco de Danilo seja exposto, o espanhol poderia tentar, sem a bola, dar mais altura às suas linhas, tal qual Mourinho tanto fez para impedir as triangulações de Messi, Xavi e Iniesta. Requer muita concentração, é verdade, sobretudo em um time que tem pecado pela falta de solidez defensiva (a brilhante temporada de Keylor Navas explica por que o Real Madrid não sofreu mais gols do que o devido), mas garante que Neymar não tenha tanto tempo para pensar.

De qualquer forma, a tarefa é ingrata. O futebol é dos jogadores e é difícil parar um talento inspirado da forma que Neymar está. O teste é gigante para Benítez e uma derrota poderia assar ainda mais a sua batata. Que venha o SuperClássico.

 

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.