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DPF Entrevista: Pedro Ribeiro, do Orlando City

Foto: Orlandocitysc.com

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Meia-atacante do Orlando City, o mineiro Pedro Ribeiro tem uma carreira extremamente peculiar diante da realidade brasileira. Com passagem pelas categorias de base de Atlético Mineiro e Cruzeiro, o jogador decidiu deixar a base celeste, seguir nos estudos e, posteriormente, partir para os Estados Unidos para se formar. Assim, acabou integrando o sistema universitário norte-americano – sem, contudo, deixar de lado o futebol. Diante disso, conseguiu destaque no futebol universitário vestindo a camisa do Coastal Carolina University, ganhando prêmios e graduou-se em Ciência do Exercício do Esporte.

No entanto, destinado às quatro linhas, participou do SuperDraft 2014 e foi escolhido pelo Philadelphia Union, equipe que disputa a MLS. Iniciava ali uma trajetória profissional que levaria o jogador, hoje com 25 anos, ao Orlando City, equipe em que atua com Kaká. Com essa trajetória incomum, mas extremamente interessante, histórias não faltam e o jogador dividiu algumas delas, com exclusividade, com o Doentes por Futebol.

Wladimir Dias (DpF): Diante de sua história curiosa e interessante, em primeiro lugar, gostaria de saber qual a motivação maior para deixar o Cruzeiro que possui uma base muito respeitada e optar por um futuro nos estudos e posteriormente nos Estados Unidos. Em sua chegada ao seu novo país você já projetava alguma oportunidade na MLS?

Pedro Ribeiro: O Cruzeiro é respeitado e eu estava satisfeito e feliz de estar lá, mas, como qualquer outro clube, mesmo com a categoria de base tão forte, nunca é certo que você vá se profissionalizar. Desse time mesmo do Cruzeiro em que eu estava, dois ou três estão jogando (futebol) profissional e o resto, hoje em dia, eu não sei o que está fazendo. Para mim, a escola vinha ainda em primeiro lugar, sem a menor dúvida. Isso foi a minha motivação para deixar o Cruzeiro, continuar estudando e me formar. Quando eu cheguei aos EUA, o futebol estava em segundo plano ainda, era a única forma pela qual conseguiria uma bolsa escolar, e eu não tinha a pretensão de me profissionalizar até o segundo ano. A partir do segundo ano, meu sonho de me profissionalizar voltou, renasceu, porque eu fui muito bem na liga universitária e comecei a me destacar.

Fto: Goccusports.com

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DpF: A realidade do futebol norte-americano é completamente diferente da brasileira e de forma geral da maior parte do mundo. Como funciona o futebol universitário? Ele é uma boa vitrine para a MLS?

PR: O futebol universitário ainda é a maior fonte de revelação de jogadores dos Estados Unidos, não só do futebol, mas de todos os outros esportes, a maioria dos atletas vêm das universidades, que é como a categoria de base do Brasil e do Mundo, como um sub-23, por exemplo. O trabalho de base é feito dentro das universidades. Dos alunos que se formam no ensino médio, os bons vão para a universidade e da universidade para a MLS, se forem bons. Não é todo mundo que vai para a MLS. É muito difícil, muito competitivo, fazer parte dessa transição da universidade para a MLS.

Todo ano, dos alunos que estão se formando, dos jogadores de último ano, só 60 são convidados para um processo seletivo, então são os 60 melhores do país inteiro. Para você ter uma ideia, de primeira divisão são 200 universidades, cada universidade com 30 jogadores, juntando as quatro divisões devem dar mais de 1000 universidades, então você multiplica e são muitos jogadores. 60 todo ano têm a chance de entrar na MLS e dos 60, uns 20 ou 30 conseguem um clube, então não é fácil, é um processo bem seletivo.

A maioria dos americanos que estão na universidade não pensa em se profissionalizar lá. A maioria está estudando, consegue uma bolsa e quer se formar. Mas muitos estrangeiros, e também alguns americanos, vão para lá tentando se profissionalizar. Então, a universidade funciona como a base.

DpF: Conte-nos um pouco sobre o Draft da MLS. Como funciona, o que um atleta precisa para participar e como é a seleção dos atletas?

PR: Os 60 (jogadores) são convidados e vão para o Combine, o MLS Combine, que é uma semana que nós passamos em Miami. Os treinadores todos da MLS estão lá. Nós somos divididos em quatro equipes e jogamos durante cinco dias, um jogo contra cada equipe, então são três jogos em cinco dias e os treinadores, assistentes técnicos, e as comissões técnicas estão todos lá assistindo. Na semana seguinte, dos 60, acho que 38 ou 40 são selecionados para o Draft e ele é determinado de acordo com as posições em que cada clube terminou a temporada anterior, então quem terminou em último tem direito à primeira escolha, isso como uma forma de equilibrar a liga, de equilibrar o nível dos times.

Tecnicamente, os melhores jogadores da universidade vão para os piores times, são escolhidos primeiro. Na verdade não para os piores times, mas o que terminou pior no ano anterior. O que normalmente não significa nada, porque sempre os times são do mesmo nível. Quem termina o ano em último em um ano, no outro ano pode ganhar o título, então é difícil de dizer.

DpF: Qual a sua memória mais marcante do período no Philadelphia Union?

PR: A mais marcante para mim foi o dia do draft, da seleção, foi muito bacana, um momento que nunca vou esquecer, até porque já havia treinado com o Philadelphia, já conhecia a comissão técnica e alguns jogadores. Eu treinei com eles em 2012, enquanto eu estava na faculdade ainda, passei uma semana lá.

Mas, outro momento foi meu primeiro gol jogando por ele, meu primeiro gol como profissional, que foi contra o (NY) Red Bulls, em um jogo em que o (Thierry) Henry estava jogando. Ele havia feito o primeiro gol, eu empatei o jogo, sofri um pênalti no final, e troquei a minha camisa com ele no final do jogo. Esse foi para mim um momento muito marcante, ele é um cara que sempre admirei muito.

DpF: Qual foi a sensação de participar do gol da primeira vitória da história do Orlando City na MLS, o qual, após uma confusão, acabou não sendo oficialmente creditado a você, mas ao goleiro adversário contra?

PR: No meu livro, está como meu gol ainda! Foi um lance curioso, mas foi muito importante também, não só para mim, mas também para o Orlando, foi a primeira vitória do Orlando na MLS. Foi um gol feio, curioso e engraçado, com muitos adjetivos para descrever, mas também muito importante. Para mim foi bacana ter a oportunidade de entrar no jogo e ser o responsável pelo gol que deu a primeira vitória do Orlando pela MLS.

Foto: Philadelphiaunion.com

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DpF: Com o que você acompanha dos bastidores do futebol nos EUA em relação a organização, sistemas de treinamento, e afins, eles podem sonhar com resultados expressivos em um curto prazo numa Copa do Mundo?

PR: Eu acho que a tendência é que (o futebol norte-americano) melhore todos os anos, mas ser campeão, chegar numa semifinal (de Copa do Mundo), eu já não sei. Isso é difícil de falar, nunca se sabe. Eles estão se desenvolvendo sim, mais do que muitos países que já foram referência no futebol, até como o Brasil. Acho que o Brasil sofreu uma queda bem grande, pode-se dizer que parou no tempo em questão de desenvolvimento.

Os EUA estão se desenvolvendo sim, mas é difícil dizer quando eles serão campeões, eu acredito que no curto prazo não, mas que nas próximas duas ou três copas eles chegarão numa semifinal, por exemplo, porque o futebol, a categoria de base está sendo feita de uma forma muito boa, as universidades estão fazendo um trabalho muito bom, a MLS está crescendo muito. Eles são muito organizados e investem muito dinheiro no futebol hoje em dia, isso é receita para dar resultados bons.

Foto: Philadelphiaunion.com

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DpF: Neste ano, você recebeu o Green Card. Além de não ser considerado um estrangeiro na MLS, isso pode representar no futuro uma convocação para a Seleção Norte-Americana. Isso é algo que passa pela sua cabeça? Caso houvesse o convite você o aceitaria?

PR: Por enquanto, só com o Green Card eu não tenho possibilidade disso ainda, eu teria que virar cidadão (norte-americano). Depois de cinco anos com o Green Card você tem o direito de virar cidadão, então eu acredito que isso não vai acontecer, não é plano meu. Mas se alguma coisa acontecer, se eles tiverem interesse e agilizarem esse processo e me oferecerem, eu faria sem problemas. Agora não tenho planos de mexer com isso, mas se for alguma coisa oferecida por eles e se for uma coisa boa, eu aceitaria sem problemas. Mas é um processo meio complicado e que no momento não vai acontecer.

DpF: Em outras oportunidades você já deixou clara sua intenção de atuar no Brasil. Se um clube daqui oferecesse salários equivalentes aos que você recebe no Orlando City, você aceitaria retornar ao país ou a opção pelos EUA é mais do que uma questão financeira?

PR: Eu tenho isso como plano de carreira sim, mas agora, no presente, não, não voltaria. Eu tenho mais dois anos de contrato lá no Orlando e eu vou procurar terminar esses dois anos de contrato e daí ver outras possibilidades. Se for o Brasil, se for algum outro país, se for uma oportunidade boa para mim, para a minha carreira – a questão financeira também é importante –, mas eu estou focado no meu contrato com o Orlando.

Para voltar para cá, eu só voltaria agora se fosse para um time de primeira divisão, um time muito bom e com um salário muito alto, e eu não tenho possibilidade de conseguir isso agora. Mas, mais para frente, se Deus quiser, eu terei a oportunidade de voltar para cá com um projeto melhor.

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DpF: Para os torcedores das diversas partes do mundo é curioso o fato de que não há descenso e acesso na MLS. Na sua opinião, isso tem algum reflexo positivo ou negativo na evolução do futebol norte-americano?

PR: Eu também não gosto, eu não acho que é interessante. É legal a questão da estabilidade para o trabalho dos jogadores e dos treinadores, mas em questão de competitividade diminui um pouco. O nível da segunda e da terceira divisão acaba sendo mais baixo exatamente por isso. Mas é o modelo americano, é assim com todos os outros esportes, e eles mostraram que isso dá certo. Vamos ver no futuro como vai ser para os Estados Unidos, mas parece estar funcionando para eles.

DpF: Mesmo nos EUA, acredito que você acompanha o futebol brasileiro. Quais as diferenças de estilo de jogo entre o praticado na MLS em relação ao brasileiro? Você enxerga um estilo de jogo padrão, comum as equipes, praticado na MLS?

PR: Eu acompanho (o futebol brasileiro), mas não acompanho muito. Depois que fui para os EUA não assisto tantos jogos quanto eu assistia, até porque eu assisto mais jogos da MLS, mas é visível a diferença. A MLS é um jogo mais físico, mais pegado, mais rápido; no Brasil o futebol é um pouco mais técnico ainda, a questão da técnica ainda é diferente, os EUA estão melhorando quanto a isso, mas o futebol brasileiro ainda é um pouco mais lento.

Eu nunca joguei (no Brasil), mas vendo como torcedor eu vejo isso, um futebol mais lento, mais cadenciado, em que tecnicamente os jogadores são muito bons, mexem a bola muito bem, um futebol explosivo quando chega ao ataque. Nos EUA já é um futebol mais rápido saindo da defesa e eu acho que essa é a maior diferença. Mas isso está se igualando, o futebol moderno requer que se tenha os dois estilos de jogo, então eu acho que o Brasil, a MLS, e as outras ligas estão incorporando esses dois estilos de jogo, um jogo mais cadenciado, com jogadores que cadenciam mais o jogo, seguram a bola um pouco mais, e jogadores mais de explosão.

Foto: Orlandocitysc.com

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DpF: Para finalizar, como um bom mineiro, certamente você deve ter algum “causo” para dividir com nossos leitores. Conte-nos alguma história curiosa, divertida ou inusitada de sua trajetória pelos gramados norte-americanos.

PR: Quanto a contar “causos” eu não sou mineiro, sou muito ruim. Mas eu tenho uma história curiosa que foi no início da temporada, na primeira viagem que a gente fez com o Orlando – eu fui companheiro de quarto do Kaká. Estava no início, tinha acabado de conhecer o cara, então era meio estranho, estava no mesmo quarto que meu ídolo, um cara que sempre admirei, um craque. E eu era meio calado, não falava muita coisa, esperava ele puxar conversa, ficava com vergonha mesmo.

Eu conversava com meus pais todas as noites e teve uma noite em que eu não usei meu fone de ouvido e no meio da conversa meus pais começaram a gritar do outro lado: “mostra ele, cadê o Kaká, mostra o Kaká!” e, claro, ele ouviu. Eu fiquei morrendo de vergonha, mas ele começou a rir e, por ser uma pessoa tão simples, tão tranquila, veio, saiu da cama dele e veio conversar com meus pais pelo Skype. Para os meus pais foi um momento engraçadíssimo, muito especial, ele tratou eles super bem, foi super engraçado!

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.