Guerra pelo poder no São Paulo Futebol Clube

  • por Doentes por Futebol
  • 5 Anos atrás
(por Sérgio Ricardo Jr.)

Não é preciso saber muito sobre São Paulo para perceber que 2015 foi a pior temporada da recente história do clube.

https://www.youtube.com/watch?v=ehXDzQvQaDA

Se dentro do campo as coisas seguem no padrão do que tem sido as campanhas desde o nostálgico Tri-Brasileiro em 2008, fora dele tudo foi caos. Dívidas, erros grosseiros, brigas, tudo que era inimaginável dentro do clube que foi por anos modelo de gestão no Brasil aconteceu e de forma muito mais degradante do que aquilo que estávamos acostumados a ver nos demais times.

Algo que pode explicar o porquê de muitos dos deprimentes acontecimentos que ocorrem dentro do Tricolor é a forma de regimento interno do clube. Como já salientei, o São Paulo é um clube recente, é o mais novo entre os grandes times brasileiros, e contrariando uma lógica simples, também é um dos mais vitoriosos. Esses pontos são extremamente relevantes se nos dispormos a tentar entender o que acontece no São Paulo.

Justamente por ser um clube jovem, com 80 ou 85 anos (há divergências sobre o ano de fundação, sendo 1930 ou 1935), o poder dentro do São Paulo é dividido entre poucas figuras. O São Paulo funciona como uma aristocracia. É difícil imaginar que muitos dos fundadores do clube seguem vivos, com famílias interligadas à instituição desde seu berço, mas é isso que acontece. Mesmo sendo hoje indiscutivelmente um clube popular, o São Paulo ainda tem donos, ou pelo menos figuras que agem como tal.

Ter alcançado o status de time popular não mudou absolutamente nada no dia a dia do clube, pelo contrário, acirrou ainda mais a disputa pelas canetas e pela representatividade como membro importante da instituição. Fechados e altamente conservadores, os são-paulinos “nobres” se trancaram cada vez mais dentro de seus salões de conselho. Para ilustrar aquilo que digo, no clube ainda existem algumas pessoas que são denominadas de “cardeais”. Sim, cardeais. Estamos em 2015. Dá pra levar a sério?

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Érico Padilha dedicou um livro inteiro para detalhar a história dos ditos “cardeais” do São Paulo F.C.

A popularização não soube ser administrada pelo Tricolor, que poderia muito bem ter aproveitado os momentos sequentes de glória para se transformar em potência. Não aconteceu, e não existe perspectiva alguma de que as coisas voltem a se organizar minimamente nos próximos anos. Enquanto vários outros clubes talham dia após dia seus novos modelos democráticos, os são-paulinos trabalham para costurar acordos e conchavos entre os mesmos de sempre para não perder a super maioria e, consequentemente, o poder eletivo.

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Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net

O grupo político do recém eleito presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, por exemplo, está no comando do São Paulo há 13 anos, desde a eleição de Marcelo Portugal Gouvêa, em 2002. O próprio Leco foi peça atuante durante esses anos todos, e só mudou de cargo, digamos assim. É sempre bom lembrar que Carlos Miguel Aidar era membro do grupo e foi eleito com apoio de Juvenal Juvêncio, talvez a figura mais emblemática do clube na última década. Mesmo com seus acertos, e não foram poucos, a obsessão que Juvenal tinha pelo São Paulo afetou sua saúde e a do clube.

https://www.youtube.com/watch?v=eUKql4irKrA

Não duvidem de forma alguma que, mesmo debilitado fisicamente pela idade e pelos problemas médicos, Juvenal participou ativamente de todo o processo de fritura do ex-presidente Carlos Miguel Aidar. A renúncia de Aidar, da forma que foi, só ocorre por ele ter comprado uma briga que jamais poderia vencer. É óbvio que Carlos Miguel deu vários motivos para que saísse ou fosse tirado do cargo que exercia, entretanto, tenho enormes dúvidas de como esse mandato se encaminharia sem toda a pressão que o rompimento com Juvenal causou.

Mídia alimentada todos os dias, gravações, exposição de contratos, comissões, é preciso entender que talvez essas coisas jamais viessem à tona se a paz estivesse selada.

É difícil imaginar qualquer cenário positivo para o clube quando o primeiro ato do presidente eleito é recolocar um por um em sua diretoria todos os mesmos que estavam por lá quando a conta do campo chegou. E se a conta chegou maior do que deveria, foi por administração ruim. O que teria mudado em alguns meses na capacidade dessas pessoas? Como esperar que quem afundou o clube possa salvá-lo? O torcedor são-paulino vai esquecer os anos anteriores e simplesmente confiar, seguir em frente e ver no que dá? E se não fossem esses que voltam, seriam quais a assumir o clube? Outros iguais? Provavelmente, já que a boa vontade em lidar com novas figuras, gente com ideias novas, que não compactuam com os grupos de conchavo é pequena.

Falta democracia no São Paulo. Falta espaço para os torcedores e sobra para os cardeais.

SÉRGIO RICARDO JR. é graduando em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e são-paulino.

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