O que esperar do Sport Recife para 2016?

  • por Doentes por Futebol
  • 3 Anos atrás
(Por Pedro Inireu)

Ser vítima do próprio sucesso ou galgar mais um degrau alcançado rumo a uma trajetória consistente na Série A?

Ao fechar das cortinas da temporada de 2015, o Sport Recife, embora não tenha erguido nenhuma taça, tem bons motivos para encerrar o ano em comemoração, sobretudo em razão da campanha no Brasileirão da Série A, que por pouco não lhe rendeu uma qualificação para a Libertadores de 2016.

Todavia, passada a embriaguez da comemoração e a consequente ressaca de fim de ano, o momento é de traçar as expectativas e o planejamento para 2016, e a primeira advertência da qual os rubro-negros pernambucanos devem estar cientes é a de que uma boa temporada em um ano anterior não conduz espontaneamente a outra boa temporada no ano seguinte, como se o círculo virtuoso se estabelecesse por pura virada do ano.

Não é bem assim.

Exemplos vários demonstram que times que surpreenderam positivamente em uma determinada temporada amargaram o rebaixamento logo no ano seguinte. Bem perto dos pernambucanos, o Vitória de 2013 fez uma campanha bastante similar à do Sport, ficando na 5º posição com 59 pontos no campeonato daquele ano. No ano seguinte, o rebaixamento deu as caras para o rubro-negro baiano.

1476322_616915565020784_1646411823_n-600x600

O Fluminense campeão de 2012 só não caiu em 2013 por causa do caso da Portuguesa. Lá fora, o atual campeão Chelsea sofre para na temporada 2015/2016 conquistar pelo menos uma já improvável vaga na próxima Champions League. E, por fim, não custa lembrar, o próprio Sport que caiu em 2009 vinha de título na Copa do Brasil no ano anterior e uma boa participação na Libertadores do mesmo ano.

Claro que há exemplos de times que mantêm trajetórias consistentes dentro de um sucesso já alcançado. O Atlético Paranaense no início do século foi campeão brasileiro em 2001, vice-campeão em 2004 e vice-campeão da Libertadores de 2005 e, salvo pelo rebaixamento desastroso (e pontual) de 2011, tem se mantido na Série desde então sem passar por grandes apertos. Lá fora, o Southampton e o Atlético de Madrid montam a cada ano times competitivos frente aos grandes das suas ligas, e dentro das suas expectativas, também repetem temporadas de sucesso.

Dados esses exemplos, a grande expectativa para o Sport se resume em não levar a fama de time ioiô.

Dito de outro modo: ao lutar pela Libertadores esse ano, o próximo tem que significar para o Sport ficar pelo menos no meio da tabela, com mais uma temporada sem sofrer com o rebaixamento e, se a maré estiver ainda mais a favor, voltar a brigar por uma vaga na Libertadores. Falar em título é de causar verdadeira surpresa. Dizer que a briga vai ser só contra o rebaixamento parece falta de ambição. O Corinthias tem a pressão de renovar o título, assim como os que conseguiram o acesso em 2016 geralmente lidam com o rebaixamento em sua primeira temporada de retorno à Série A.

O Sport, longe desses dois extremos, tem que pelo menos manter o patamar que alcançou na Série A desse ano. Há receita para isso?

Se há, o primeiro ingrediente parece não ser vítima do próprio sucesso. Como todo time de menor receita, o Sport tem que lidar com o assédio aos seus jogadores valorizados pela campanha que fizeram. A perda de alguns deles é inevitável, tal como a de André. Outros, com uma negociação adequada, consegue-se mantê-los, como é o caso de Matheus Ferraz e Rithely, o primeiro convencido a permanecer no bom ambiente rubro-negro e o segundo com um contrato bem amarrado, resultando que sua saída só se dará através de bons dividendos para o Sport.

Mas mesmo com a saída inevitáveis de alguns jogadores importantes e a manutenção de outros também importantes, o elenco rubro-negro de 2016 vai se reformular, e talvez na reformulação esteja a chave para não ser vítima do próprio sucesso, no sentido de não entrar no jogo do mercado de transferências sempre como a força mais fraca.

O Sport também cresceu como vitrine, de forma que jogadores meio apagados e esquecidos, como era o caso do próprio André, olham para o rubro-negro pernambucano como via para revitalizar a carreira.

https://www.youtube.com/watch?v=1Y–gZOi_Ww

Com uma boa prospecção de mercado, às vezes pelos arredores mesmo, como foi a contratação de Samuel Xavier do Ceará, ou até no segundo escalação das ligas europeias (campeonato português, russo, ucraniano, holandês, etc), é possível replicar essa fórmula para 2016. Não é de todo inimaginável que, antes de ter se valorizado pelo Vasco, Nenê não pudesse ser tentado pelo Sport, como foi o próprio Diego Souza quando ainda estava na Ucrânia.

Alguns jogadores da base também estão mais experientes e tiveram alguma evolução técnica, como Osvaldo e Ronaldo. Lembre-se de que Renê, festejado como um dos melhores laterais-esquerdo jogando no futebol brasileiro, é da base, mas demorou a atingir o grau de maturidade técnica e tática que hoje demonstra.

Se ele teve a sorte de jogar uma série A como titular, e adquirir a experiência jogando na elite nacional, os outros talvez tenham a sorte de entrar num time mais estruturado e sem a pressão de serem titulares de uma hora para outra.

No entanto, além da reformulação do elenco, o Sport tem que sempre aproveitar as boas campanhas na Série A, e os dividendos que ela proporciona, para se tornar um clube cada vez mais autossustentável. O que implica investimento em infraestrutura administrativa e esportiva, desenvolvimento de marca, programas de sócios-torcedores…. Enfim, aumento da receita e geração da própria receita, tendencialmente maior a cada ano se impulsionada pelos resultados esportivos. Profissionalização no futebol é a palavra da moda, e nenhum profissional, ou empresa, entra no mercado para sair no ano seguinte.

Se o Sport vai brigar para não cair; ficar no meio da tabela; classificar-se para a Libertadores ou conquistar o título, ninguém pode afirmar com segurança. Afinal, ainda que hajam “receitas” para o Futebol, ele ainda é um esporte. No entanto, parece certo que ao não jogar ao sabor dos azares, evitando viver numa montanha russa de boas campanhas e rebaixamentos, é muito mais provável que boas campanhas no Brasileirão da Série A virem rotina para o Sport. E, daí então, galgando um patamar mais alto no cenário nacional, a exigência de título pode se tornar mais consentânea com a realidade dos próximos anos.

Até lá, vamos navegando com uma bússola e um bom mapa, sem cair em redemoinhos ou virar o bote. Se tivermos sorte, ventos favoráveis nos levarão mais rápido a conquistas de territórios maiores.

Pedro Irineu é advogado, formado em Direito pela UFPE e autor dos livros Pelas mãos das suas amadas e Mulheres de A à Z – Ou Fragmentos de casos que poderiam ter se sido romances. Rubro-negro pernambucano apaixonado, mas não tão megalomaníaco.

Comentários