Oito fatos curiosos sobre os uniformes da Copa de 94

  • por Lucas Sartorelli
  • 2 Anos atrás
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Yekini em uma das cenas mais marcantes da Copa | Foto: Reprodução

A Copa do Mundo de 1994 teve prós e contras. Mas, no geral, foi um grande sucesso e é lembrada por muitos, até hoje, com imenso carinho. Apesar de o futebol não ter muita tradição no país-sede daquela Copa, os Estados Unidos, o torneio superou as expectativas, com ótima organização e grandes jogos que obtiveram recordes de público.

A competição também ficou caracterizada por diversos fatos marcantes: o verão americano que castigou os jogadores em jogos disputados em horários inconvenientes, as surpreendentes seleções de Suécia e Bulgária, o golaço de Saeed Al-Owairan para a Arábia Saudita, os cinco gols do russo Oleg Salenko em um único jogo e o fato de ter sido a última Copa com apenas 24 seleções (a partir do Mundial da França, em 98, o número subiu para 32), entre outros.

No entanto, existe ainda um outro elemento da Copa dos Estados Unidos preso às memórias afetivas mais profundas dos apaixonados por futebol: os uniformes. Em tempos de vestuários esportivos tão padronizados e monocromáticos, envolvidos por cifras milionárias e marketing extremo, os trajes de 1994 apresentaram inovações, personalidade, beleza, estranheza, curiosidades e histórias atraentes. Separamos 8 delas aqui.

Nada de Nike

Ronaldo e seleção brasileira sem Nike | Foto: Reprodução

Ronaldo e seleção brasileira sem Nike | Foto: Reprodução

Há 22 anos, nenhum uniforme de seleção de uma Copa do Mundo fora fabricado pela gigante fornecedora, que entraria forte no futebol a partir de 1998. Em 2014, no Brasil, seu logotipo foi estampado nas camisas de 10 das 32 seleções.

Jorge Campos: goleiro, designer, comentarista e vendedor de tortas

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Foto: Reprodução

O goleiro do México era um show à parte. Como muitos já devem ter visto, o jogador entrava em campo com camisas e calções cheios de listras irregulares, formas geométricas inusitadas e diversas cores gritantes. O que poucos sabem é que tudo era desenhado e idealizado pelo próprio Campos. Começou com os rabiscos ainda jovem e quando sua carreira se solidificou, deu continuidade a isso e transformou suas excentricidades em regra.

Natural de Acapulco, sua maior inspiração era a praia. As ideias surgiam dos surfistas, dos animais e da natureza. Campos disputou três Copas do Mundo, em 1994, 1998 e 2002, e foi na primeira em que inaugurou para o mundo seu estilo mais exótico. Encerrou a carreira em 2006 e hoje, além de atuar como comentarista, é dono da Sportortas-Campos, famosa franquia mexicana de fast-food de tortas e que possui um cardápio bem característico.

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O cardápio personalizado do restaurante de Campos | Foto: Reprodução

Quem fez a camisa da finalista?

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Foto: Reprodução

A Itália disputou toda a Copa com um uniforme sem qualquer logotipo, desenho ou menção à Diadora (talvez na etiqueta), sua fornecedora de material. Um acordo que priorizasse uma camisa limpa em prol do tradicional requinte e elegância italianos talvez explique tal fato, inimaginável no mundo atual das negociações milionárias entre empresas e seleções de ponta envolvendo visibilidade da marca. Em 2002, o distintivo italiano foi mudado.

A marca árabe que deixou marcas

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Foto: Reprodução

Em 1994, a concorrência entre as marcas globais de fornecimento de material esportivo não era tão feroz. Isso possibilitava uma empresa menor, muitas vezes de alcance apenas nacional, marcar presença em grandes eventos. A árabe e então desconhecida Shamel embarcou nessa possibilidade e foi com seu país à Copa nos Estados Unidos. E deu sorte aos compatriotas. Pela primeira vez na história, a Arábia Saudita chegou à segunda fase de um mundial. Foi derrotada pela Suécia e ficou com um surpreendente 12º lugar. Além de vestir Saeed Al-Owairan no gol contra a Bélgica, considerado o tento mais bonito do torneio, a marca se destacou pela textura do tecido do uniforme e um design diferente. Ficou notabilizado por desenhos que transpassavam a gola e iam até as mangas.

Teve Adidas de todo tipo

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Foto: Reprodução

Em 1994, a Adidas já era predominante no mundo das marcas esportivas e se sobressaiu por vestir 10 das 24 seleções da Copa. Mas também foi destaque o fato de os uniformes apresentarem diferentes combinações de desenhos, sem um padrão definido. Nem mesmo as tradicionais três listras nas mangas das camisas, estilo característico da Adidas, foram implementadas de forma geral e apareceram somente nas vestimentas de Argentina e Noruega.

A Espanha optou por um modelo um tanto quanto exótico: pequenos losangos verticais, nas cores da bandeira espanhola, decorando o lado direito da camisa e esquerdo do short (estilo que também foi implantado nos uniformes reservas de Argentina e Noruega). Gerou certa estranheza. Para piorar, o logotipo da fabricante ainda foi bordado sobre os desenhos no short e causou enorme desarranjo visual, o que rendeu muitas críticas no país.

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Suécia e Bulgária: modelos iguais de uniforme e grandes campanhas em campo | Foto: Reprodução

O design mais simples foi utilizado por Noruega, Suécia, Romênia e Bulgária: uma camisa praticamente lisa, com exceção de marcas na parte inferior, com dois grupos de três listras grossas cada, um em cada lado do corpo, que apontavam em diagonal para cima. Os calções também traziam as listras nas mesmas cores utilizadas nas camisas.

O patriótico uniforme americano em 1994.

O patriótico uniforme americano em 1994 | Foto: Reprodução

A marca também foi responsável por um dos trajes mais memoráveis da historia da seleção americana. A camisa do segundo uniforme fez referencia à bandeira dos Estados Unidos, contendo inúmeras estrelas sob um fundo azul, com detalhes em vermelho.

Marrocos, Fiorentina e as suásticas

A camisa de Marrocos da Copa de 1994 é bastante lembrada entre amantes do futebol e colecionadores. Ela contém uma interessante combinação de cores e um grande escudo da agremiação marroquina de futebol no centro. Mas o que poucos sabem é que ela teve que ser redesenhada pela fabricante Lotto por conta de um detalhe polêmico.

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Foto: Reprodução

Tudo começou em 1992. A empresa resolveu inovar e confeccionar um modelo inédito para a Fiorentina. A camisa teve na parte superior as tradicionais cores do clube italiano, combinadas com desenhos de diversas formas geométricas que iam até o final das mangas. A discussão foi iniciada quando se percebeu que alguns dos desenhos geométricos, vistos de perto e com mais atenção, formavam suásticas nazistas, fato que fez com que a produção fosse descontinuada.

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Fiorentina e os polêmicos desenhos | Foto: Reprodução

Dois anos depois, a camisa marroquina seria inspirada no protótipo inicial da Fiorentina. Porém, cuidadosamente redesenhado para que os antigos traços polêmicos não existissem mais.

Uma grande marca desconhecida

A fabricante Mitre vestiu apenas uma seleção da Copa do Mundo de 1994, a de Camarões. No entanto, está longe de ser uma empresa inexpressiva. Trata-se de uma das marcas britânicas mais tradicionais de material esportivo. Ainda em 1994, disponibilizou para a delegação camaronesa uma camisa em formato polo que unia todas as cores do país africano, além de um detalhe bem característico, em tamanho grande e no centro da camisa: a estrela da bandeira de Camarões.

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Foto: Reprodução

Foi com a Mitre estampada no uniforme que o camaronês Roger Milla estabeleceu dois recordes em um único jogo. Na derrota para a Rússia, por 6 a 1, ele tornou-se o jogador mais velho a participar de uma Copa e o mais velho a marcar um gol. Nessa partida, ele estava com 42 anos e 1 mês.

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A pouco conhecida e rara camisa polo camaronesa | Foto: Reprodução

Ousadia e lágrimas

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Foto: Reprodução

A seleção da Nigéria ousou na Copa de 1994 com um segundo uniforme longe dos padrões tradicionais. Composto de camisas e calções brancos (ou verdes), e repleto de detalhes retangulares por toda a vestimenta, foi supostamente aderido do modo padrão do africano de se vestir. Para muitos, lembrava apenas um pijama.

A inovação trouxe alegrias e dissabores. A imagem do atacante Rashid Yekini chorando e levantando suas mãos aos céus, agradecendo o primeiro gol da Nigéria em mundiais, é de arrancar lágrimas do menos sentimental dos seres humanos. No entanto, em uma votação recente de um site esportivo europeu a respeito de trajes usados em mundiais, o famoso modelo nigeriano foi eleito o mais feio da história das copas.

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Paulistano, projeto de jornalista e absolutamente ligado a tudo o que envolve essa arte chamada futebol, desde a elegante final de uma Copa do Mundo às peculiaridades alternativas das divisões mais obscuras de nosso amado esporte bretão. Frequentador assíduo nas melhores (e piores) várzeas e peladas de fim de semana, sempre à disposição para atuar em qualquer posição.