Reflexão sobre a vida depois de Mourinho

  • por Doentes por Futebol
  • 5 Anos atrás
(por Sérgio Ricardo Jr.)

O segundo ciclo de José Mourinho no Chelsea acabou. Demitido, o técnico português deixa Stamford Bridge de forma bastante desagradável para todas as partes envolvidas. Enquanto os jogadores aparentemente estão felizes e sorrindo aos quatro ventos com a troca de comando, os torcedores se sentem agredidos pela conduta dos mesmos, que parecem ter boicotado de forma descarada o trabalho do seu ex-treinador e, acima de tudo, o clube. É preciso refletir sobre tudo que aconteceu no time londrino, e de forma profunda.

Os três ratos: Hazard, Cesc e Costa.

Os três ratos: Hazard, Cesc e Costa.

Antes de questionar-me sobre os métodos de Mourinho e de quão abusiva possa ser a sua relação com os jogadores que comanda, é preciso entender que a camisa do Chelsea vem antes de qualquer contestação. A preocupação com o clube, seus resultados e suas perspectivas deveriam ser as prioridade de qualquer um que esteja na lista de pagamento de Roman Abramovich ao final de cada semana.

Dito isso, abre-se espaço para discussão. Todo e qualquer argumento minimamente construído pode ser aceito. Até mesmo o mais fanático torcedor do Chelsea consegue admitir que Mourinho tem defeitos e que se relacionar com José e seu alter ego não é missão das mais fáceis. Os jogadores do elenco não precisavam, em momento algum, ter boa relação com seu comandante ou gostar do trabalho dele. Claro que, no futebol, esporte de coletividade e conjunto, a sinergia entre treinador e grupo tende a dar frutos mais vistosos e saborosos, contudo, até mesmo uma relação de hierarquia fraca deve render algo, pois no futebol profissional não há espaço para birras que ultrapassem os limites da honra. Ninguém é maior do que a instituição que trabalha, pois é dela a tarefa de carregar consigo as glórias e derrotas de uma apanhado enorme de seguidores fiéis.

Nos últimos meses, pensou-se pouco no Chelsea. Não há vilões ou santos no embate claro entre elenco e José Mourinho. Só há, sem dúvida, um perdedor: o clube. Mou deixa sua eterna casa e deve continuar na Inglaterra, só que defendendo outras cores. Alguns dos jogadores que muito fizeram pelo rompimento dessa relação entre treinador português e clube londrino sairão ao final da temporada sem que suas vidas sejam afetadas de forma pesada. Muitos talvez ganhem um update como presente. Mas o Chelsea, amigos, esse terá de sozinho lamber as feridas causadas de forma dolosa.

Acredito que uma coisa é ter de se recuperar de feridas causadas por consequências do esporte, e a outra, bem diferente, é ter de consertar erros criados de forma sintética, artificial. A queda no campo fere o torcedor, mas da mesma forma que lhe gera trauma, lhe desperta a garra e a gana de reconquistar tudo que se sente merecedor. A queda causada, forçada, gera tão somente um sentimento devastador de desgosto profundo e a recuperação é mais dolorosa e demorada.

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Confesso que foi muito difícil assistir a partida diante do Sunderland, dias depois da saída de José e enxergar no gramado uma mudança de postura assustadora. No gramado, outro time, outro espírito, havia disposição, competição, vontade. Por maior que seja a fragilidade do adversário daquele dia, que luta com o próprio Chelsea na parte de baixo da tabela da Premier League, havia competitividade por parte dos caras com a camisa azul. A felicidade da construção do placar não foi suficientemente grande para sobrepor a sensação de “roubo” por parte daqueles que, como naquele dia, estavam indo ao campo acompanhar um time roubar-lhe em outras datas. É roubo, sim. Por mais que seja complicado questionar caráter e honestidade de qualquer ser humano, o que o grupo do Chelsea fez ao clube ao boicotar José Mourinho foi desonesto.

A expectativa da chegada de G. Hiddink, substituto de Mourinho, é positiva, pois a missão dada ao holandês é simples.

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Caberá ao treinador conduzir uma equipe que se consertou magicamente e ser político, jogar o jogo dos cidadãos para não ser torrado como um pão na chapa. O Chelsea precisa fechar para balanço agora e reabrir na próxima temporada, limpo e honesto, como sua torcida. Apesar de ter um proprietário que muito fez pelo clube, o Chelsea sempre será dos seus torcedores. Foram eles os desrespeitados pelo grupo, e para eles é que os atuais jogadores estão devendo.

José Mourinho é apenas um capítulo na história do Chelsea. Talvez o mais brilhante deles, mas uma partícula. Reflexão é o mínimo e mais imediato aspecto que precisa ser incorporado ao dia a dia do Chelsea. O mais drástico é a radicalização. Ninguém vai rasgar dinheiro, só que muitas vezes vale mais ter um time modesto e honesto do que um elenco recheado de grandes nomes que só conseguem ser grandes na nomenclatura. Por dentro, moleques mimados.

O Chelsea precisa de caráter e respeito. De todos. Absolutamente. Sorte aos blues!

SÉRGIO RICARDO JR. é graduando em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e são-paulino.

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