Sergio Busquets, o craque das sombras

  • por Israel Oliveira
  • 5 Anos atrás

Tradicionalmente, as grandes equipes, aquelas que marcam época e deixam legado histórico, possuem em seus jogadores avançados seus grandes protagonistas. São as estrelas do time, recebem todas as luzes dos holofotes nos melhores momentos, que recebem diversas láureas ao fim de cada temporada, os que vendem camisas, os que as crianças querem imitar ao pegar uma bola, seja na comemoração ou em seus gestos técnicos característicos.

Já as sombras geralmente não são bem vistas. Transmitem medo, insegurança, exercem uma figura de quem persegue. E provavelmente nem a sombra gosta de ser ela mesma: pouco atrai olhares, e quando consegue, os mesmos são alarmados, desconfiados ou de desdém.

BUSQUETS SOMBRA

Contudo, perante a todos que ali faziam a festa no ataque na Catalunha, Sergio Busquets pareceu jamais se importar de ser visto como sombra, de cobrir e sustentar os vértices de um sistema ofensivo lendário. Ou de pouco ser lembrado.

Contemos a sua história.

Início: cotista de Pep em detrimento de Yaya e Mascherano

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É impossível não associar Busquets e Pep Guardiola. Na verdade, o momento atual do volante catalão é uma vitória de seu ex-mentor. No íncio, ambos “sofriam” juntos nos relvados esburacados e curtos da quarta divisão espanhola (em partidas pelo Barcelona B). Um ano depois, quem diria, a dupla estaria conquistando a Europa na grandiosa capital romana.

Durante muito tempo, principalmente na Era Guardiola, Busquets foi visto como “cotista”, em razão de ser avaliado por muitos como mais uma espécie de bandeira de expansão da filosofia catalã, cuja presença entre os titulares não se fundamentava em atributos técnicos. Talvez fizesse sentido: Yaya Toure tinha um jogo reconhecidamente brutal e desequilibrador, tal qual Mascherano quando desembarcou em Barcelona com a imagem do volante brutal, capaz de finalmente por fim a todos os leves distúrbios defensivos que o Barcelona sofrera.

Mas o que explica um jovem oriundo da base barrar/deslocar dois jogadores consagrados de sua função? (Mascherano deslocado para a zaga, enquanto Touré “expulso” para Manchester)

Guardiola sempre exigiu ordem na saída da bola: adiantar coberturas, criar linhas de passe, socorrer os zagueiros, ampliar o campo dos laterais.  Yaya Toure já é um jogador mais pronto hoje, embora seja mais determinante nos passes finais do que na construção de jogo de sua equipe.

 Por que o Barcelona vendeu Yaya Touré?

O jogador acabou entrando em atrito grande com Pep, pois seu treinador preconizava que ele fosse mais obediente na saída de bola. Isso não casava bem com as características do marfinense, que sempre teve em seu jogo se soltar, ganhar metros, mesmo que de forma “irresponsável”. Pep necessitava de um especialista, ou formar um, e nisso se enquadrava Busquets.

Extremamente correto em suas ações no campo, técnico e ágil para emergências, o canterano garantiu segurança para o time através do seu altíssimo entendimento do jogo.

Quanto a Javier Mascherano, é importante ressaltar que sua contratação foi para dar mais opções de elenco. Durante toda a estadia do argentino se questionou do porque dele não ser o “5” titular do Barcelona, mas as aparições do chefito jogando no meio-campo evidenciam o quanto Busquets é peculiar e primordial para sistema de jogo do que o argentino. Explico:

Na temporada de 2010/2011, o experiente Carles Puyol já se encontrava em declínio, e com o elenco com poucas opções era necessário encontrar uma solução. Busquets foi pra zaga e Mascherano pro meio-campo. Com isso, o Barcelona ganhou poder de marcação – é verdade – e houve sutil melhoria na saída de bola. Porém, Busquets perdia com constância a bola na saída e o Barcelona perdeu consistência no meio. Além disso, há de se ressaltar que Mascherano possuía dificuldade em fazer escolhas quando estava com a bola nos pés e isso é fatal para as chances de um jogador sob o comando de Guardiola.

https://youtu.be/LMdBVhk7DuM?t=20s

Outro elemento inigualável do jogo do catalão é seu roubo alto, no campo adversário. Isso assegura os culés no campo de ataque e encurrala o inimigo.

BUSQUETS DESARMES

Tendo em vista os dados apresentados, foi previsível ver Javier voltando para a zaga e o catalão ao meio e com isso o Barcelona voltou a produzir seu melhor futebol.

Em sua última temporada com o Barcelona, Pep Guardiola já dava vida a um número mais vasto de esquemas, algo proporcionado por novos canteranos e mais reforços de peso, como Cesc Fàbregas e Alexis Sánchez.

Com Pep, Busquets sempre foi eficiente na “saída de 3”, tinha o conhecimento para iniciar o jogo com passes seguros, mas nunca foi tão presente ao lado dos defensores. Por diversas vezes, foi uma espécie de zagueiro quando o Barcelona tinha a bola, dando amplitude aos seus parceiros de zaga – principalmente Piqué.

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Mudança de comando: sai Guardiola e entra Vilanova:

BUSI & TITO

Pep resolveu sair e em seu lugar entrava Tito Vilanova, assistente do ex-treinador do Barcelona. Em suas palavras iniciais, deixou claro:

“Quero maximizar as qualidades de Busquets e Fabregas.”

No Barça de Tito, Busquets teve mais voz no ataque posicional. Sua função consistia em oferecer com frequência opções em linhas desmarcadas para gerir e indicar um novo ataque.

https://www.youtube.com/watch?v=X79gAOa6G9g

Numa versão menos simplista e mais ousada, rebuscada, a influência do catalão começava a se tornar mais fácil de identificar. Com um Xavi cada vez mais decadente fisicamente, a movimentação de Sergio também foi mais intensa e protagonista. Teve recorde em La Liga e o clube participou de mais uma semifinal de Champions, mas o saldo para o clube saía ruim: fica eminente a grande dependência quanto a Lionel Messi e também a decadência técnica de ícones do império catalão.

⚽ Barcelona campeão espanhol 2012-2013 – O título da regularidade

A temporada de 13/14 foi ruim, mas convenhamos, se fôssemos utilizá-la de referência, Busquets estaria aposentado juntamente com Iniesta, Piqué e Daniel Alves, nomes que dariam a volta por cima na brilhante temporada seguinte. A melancólica eliminação da Espanha na primeira fase da Copa do Mundo de 2014 apenas sacramentou esse curto hiato técnico dos catalães.

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2014/2015: a volta por cima em grande estilo

Após uma temporada sem títulos e com a derrota vexatória para o Bayern nas semis da Champions League 12/13 (com placar agregado de 7 x 0), era momento do Barcelona buscar novas diretrizes.

BUSI 5

Busquets agora recebia o peso de carregar a 5, que já foi de Carles Puyol. O tripé no meio campo – Busquets, Rakitic e Iniesta – na primeira parte da temporada consistia muito mais em sustentar o MSN e seu poderio de fogo, eliminando algumas tarefas do tridente e já organizando contra-ataques bem ordenados pela linha de frente que já ia se conhecendo.

 A mão de Luis Enrique no melhor Barcelona pós-Guardiola

Luis Enrique na metade da época desenhou um Barcelona diferente – Messi comandaria quase todos os mecanismos ofensivos da equipe, providenciando um conforto a mais para os meios-campistas, que por mais vezes podiam invadir a área, organizar ataques próxima a ela e pressionar os inimigos.

Busquets recua para fazer a saida, e Messi assume o centro.

Busquets recua para fazer a saida, e Messi assume o centro.

Messi, mais amigo dos meio-campistas. Sua presença ordenando ataques eh o grande marco do Barcelona. Bom para Busquets que ganha espaço gerado pela preocupaçao dos adversarios com o genio

Messi mais amigo dos meio-campistas. Sua presença ordenando ataques é o grande marco do Barcelona. Bom para Busquets que ganha espaço gerado pela preocupação dos adversários com o gênio.

Suas assinaturas finais foram homéricas: contra o Athletic, na Copa do Rei, sustentou a pressão basca e teve qualidade pra descobrir a desordem por trás do sistema defensivo rival quando superava as diversas tentativas de roubo. É o momento em que Busquets apresenta sua maturidade em agir quando pressionado. Na final da Liga dos Campeões, foi um dos melhores em campo. Ofereceu respaldo para Iniesta brilhar, e formou associações de forma simples, guardou a bola diante de uma Juventus aguerrida e determinada.

Na temporada 15/16, presenciamos a versão máxima de Sergio Busquets: maduro técnica, física e psicologicamente. É soberano nas ações: sejam defensivas (cercando, interceptando, combatendo) ou ofensivas (passando,  driblando em espaços curtos para tranquilizar o jogo, lançando em profundidade). Nunca vimos Busquets se sentir tão confortável. Jogando mais adiantado, seu impacto vai da recuperação – em todo território defensivo ou nos pressings – até a bola nos seus pés, onde se soltou de vez: uma avalanche de lindíssimos passes em profundidade ou quebradores de linhas.

Imperialidade essa que pode ser vista nos jogos mais decisivos para seu time. Perante o Real Madrid, foi um legítimo estandarte defensivo, além do corriqueiro bom trato a bola. Na aparição no Mundial, exibiu com louvor suas habilidades defensivas, tal qual seu controle de bola e qualidade de passe, seja ele defensivo, agressivo ou associativo.

https://youtu.be/B5SNCNfAWWY?t=5m29s

O passe para Suárez marcar o segundo gol exibe seu grande momento em passes-chave.

É importante destacar a importância de Andrés Iniesta, mais amplo e associativo, e como sua mudança de estilo impactou na maior participação de Busquets no jogo do Barcelona.

https://www.youtube.com/watch?v=HIjAvY7JXvA

Muitas vezes formando linhas de passe ou opções na saída, a dupla se encontra no ápice do entrosamento. Não é raro vê-los tabelar, criar buracos na saída de bola, buscar um ao outro pra solucionar problemas. A companhia de Iniesta esta sendo prato cheio para um já rico Busquets.

Sergio Busquets é um jogador singular, um dos últimos sucessos de La Masia. A famosa canteira do Barcelona produz jogadores de acordo com a identidade futebolística do clube.

https://www.youtube.com/watch?v=kkwQ9jBcMCs

O Barcelona sempre pediu um jogador sólido na saída de bola, alto e de bons atributos físicos e mentais. Nasceu um protótipo perfeito. O catalão tem uma vida toda no clube e por toda sua qualidade, luta e disponibilidade, caminha a passos largos para ser uma bandeira, como foi Pep Guardiola.

Já passou da hora de Busquets receber também um espaço nos holofotes e sair das sombras.

BUSI HOLOFOTES

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