A maior obra de Messi

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Anos atrás

Messi é o maior pesadelo para o escritor de futebol. Para falar sobre o argentino, um autor tem que estar inspirado e, por causa disso, acaba abusando dos adjetivos, dá uns pitacos de romance e literatura e corre o risco de deixar um texto chato para o leitor. Messi representa muitas coisas que não são fáceis de definir. Não seria exagero afirmar que ele, somente por sua presença, determina planejamentos próprios, não só dos seus treinadores, como dos seus adversários. Seus rivais vão até o limite para pará-lo. E seus companheiros têm o trabalho muito mais facilitado quando o 10 está em campo. Com Messi ajudando, um futebolista não precisa alcançar a excelência para cumprir um bom papel. José Mourinho já avisou: “Messi é diferente de todos os outros atletas. Disputou a final da Liga dos Campeões com Guardiola, vai jogá-la nesta temporada com Luis Enrique e se um dia for treinado pelo Antônio, voltará a fazê-lo”.

O futebol é um esporte coletivo e, atualmente, vivemos um período da história em que o valor da coletividade é ressaltado muito mais que a individualidade. Parece uma afronta destacar que “X é mais importante que Y”. Mas fazer isso é imprescindível caso se pretenda analisar o Barcelona de 2015 com certo rigor. O Barcelona não tem um princípio comum. O futebol coletivo está acima de tudo. Cada jogada do time que conquistou a Tríplice Coroa no primeiro semestre de 2015 encontrava sua origem na iniciativa do camisa 10. Seus dribles, seus passes, suas tabelas, seus passes e lançamentos em diagonais (sequência abaixo), seus gols, seus movimentos sem a bola.

MESSI-PASSE-DIAGONAL-NEYMAR-DPF

Afirmar com tanta convicção que em 2015 assistimos à melhor versão de Messi não é uma tarefa tão simples. Porém, dizer que o Barcelona 2014/2015 é a sua melhor obra é o correto. Porque simplesmente todos os mecanismos ofensivos do time treinado por Luis Enrique foram construídos a partir da mágica canhota do melhor jogador do mundo. Lionel levantou praticamente sozinho uma equipe. O Barcelona de 2015, aquele que começou em janeiro perdendo para a Real Sociedad e terminou em junho derrotando a Juventus, é a maior façanha de Messi.

Desde que chegou à Catalunha para começar sua etapa como treinador do Barcelona, Luis Enrique pendeu às mudanças na estrutura de jogo culé. A contratação de Luis Suárez já indicava que o meio-campo não seria mais a alma da equipe. Primeiro, Lucho diminuiu a importância da posse de bola, permitindo aos jogadores terem espaço para contra-atacar com maior frequência. Depois, aboliu o ‘Jogo de Posição’, para que Messi, Suárez e Neymar tivessem mais fluidez para tomarem decisões. A medular, outrora artífice do ‘tiki-taka’, passou a ser responsável por sustentar o ataque, do trio MSN. O Barcelona começou a evoluir através de um 4-3-3 clássico. O Messi falso 9 desapareceu, o Messi ponta direita retornou (foto abaixo). O argentino voltou a driblar e arrancar e descobriu sua versão passadora. Dali pra frente nasceu o novo Barcelona. O Barcelona do “sistema Messi”.

MESSI-PONTA-DIREITA-DPF

Entre janeiro e março, se defender do Barcelona parecia impossível. Os blaugranas eram uma máquina de driblar. Messi e Neymar se divertiam. Mas jogar como um ponta enérgico durante 90 minutos de um jogo requer muita intensidade. Então, aos poucos, a dupla foi perdendo frescura. Momento ideal para Luis Enrique dar um passo em definitivo. O treinador asturiano já tinha um sistema que potenciava o futebol dos seus atacantes, mas necessitava de um update. Messi recuou 20 metros, centralizou sua posição e acercou-se de Busquets e Iniesta. Dessa forma, Rakitic acentuou suas chegadas à área e Neymar deixou a ponta esquerda para se mover por todas as partes da zona de ofensiva.

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Messi continuava partindo da ponta, logicamente, mas passou a receber muitas bolas como camisa 10 (foto acima à direita), como interior direito (foto abaixo à direita) e inclusive chegou a se vestir de primeiro volante (foto abaixo à esquerda). Visitar Neymar? Também, claro (foto acima à esquerda). Sua presença era total. Messi estava aonde a bola estava. O Messi mais global potenciou todos. Alba e Rakitic cravaram um lugar em definitivo no time titular por causa do argentino. Iniesta e Daniel Alves, quando muitos pensaram que seus melhores dias já haviam passado, continuaram brindando ao Barcelona um serviço incomensurável que, sem Messi, possivelmente não fariam.

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Messi é um presente dos deuses do Olimpo do futebol. Uma arma quase que perfeita, um animal sedento por títulos, que age por instinto visando um único objetivo: ganhar troféus. Ele nunca está satisfeito. Quanto mais, melhor. A essência do futebol é admirar o melhor. Messi só existe um. O único Rei desse esporte.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.