A trajetória de Diego Lugano no São Paulo

  • por Bráulio Silva
  • 4 Anos atrás
Foto: saopaulofc.net

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Em outubro de 2014, foi ao ar uma entrevista com Diego Lugano no programa Bola da Vez, da ESPN Brasil. Na ocasião, Lugano foi perguntado sobre diversos temas: sua passagem pela seleção do Uruguai, o fanatismo e o reconhecimento dos torcedores do Fenerbahçe, a passagem pelo PSG e, claro, sua ligação com o São Paulo.

A relação de Lugano com o Tricolor Paulista é uma história de amor que, quando começou, tinha tudo para dar errado. Ele chegou ao Morumbi no começo de 2003 com status de “jogador do presidente”, já que foi contratado sem o aval de nenhum membro da comissão técnica. Veio através do empresário Juan Figger, que tinha um bom relacionamento com Marcelo Portugal Gouveia, presidente do Tricolor na época.

Sem a aprovação do técnico, Lugano por diversas vezes treinou separado dos demais. Em outras oportunidades, juntava-se ao elenco e ficava até mais tarde em campo, praticando cabeceios. E Oswaldo de Oliveira não lhe concedia nenhuma chance no time principal.

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No Paulistão daquele ano, o São Paulo atuava com Jean e Julio Santos, reconhecidamente uma das piores linhas de zaga da história do clube. Na ausência de um dos dois, o técnico chegou a improvisar Gustavo Nery na posição. Claro que o resultado foi desastroso e o time acabou perdendo a final do Paulistão para o Corinthians.

Nas primeiras rodadas do Brasileirão, uma surpresa. Oswaldo de Oliveira foi demitido após uma vitória sobre o Figueirense em casa – há quem diga que ele não aceitou uma imposição da diretoria para escalar o uruguaio. Com isso, o time passou a ser treinado pelo auxiliar Milton Cruz e pelo preparador de goleiros Roberto Rojas.

Coincidentemente ou não, a primeira chance de Lugano foi logo após a saída do ex-técnico, no duelo contra o Atlético-MG, em pleno Mineirão. Aparentemente fora de ritmo, o zagueiro mostrou sua força. O jogo terminou empatado.

Depois de idas e vindas, conseguiu se firmar como titular no segundo semestre. Jogando sempre com três volantes à sua frente, formou com Jean uma zaga, até certo ponto, segura. O tricolor deu uma arrancada na competição e terminou em terceiro lugar, garantindo assim a tão sonhada vaga na Libertadores, que o clube não disputava desde o vice-campeonato em 1994.

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Em 2004, o São Paulo apresentou vários reforços. Entre as novas aquisições, estavam os zagueiros Fabão e Rodrigo, que, com a chegada do técnico Cuca, logo assumiram a titularidade. Sem reclamar, Lugano por muitas vezes era considerado um torcedor quando realizava seu aquecimento atrás do gol. E assim foi até o treinador fixar a equipe com três zagueiros e colocar o uruguaio novamente no onze inicial.

Ainda em 2004, em um jogo contra o Santos, a admiração da torcida virou idolatria. Já com Émerson Leão como treinador, em confronto válido pela Copa Sul-Americana, o Santos atuava com os reservas e o São Paulo, com força máxima. No jogo de ida, vitória santista por 1 a 0. Na volta, o clima foi mais pegado do que o normal, com entradas ríspidas, lances de força brutal e expulsões dos dois lados. No fim, o Santos ficou com a vaga. Após o jogo, atletas do Santos foram à imprensa e reclamaram da violência do zagueiro. Quem mais o contestou foi o meia Elano.

No dia seguinte, os jornais caíram matando. Não era a primeira vez que isso ocorria. Em 2003, durante uma partida válida pelo Brasileirão, o treinador do Atlético-PR, Mário Sergio, disse que era um absurdo um jogador como Lugano estar nos gramados brasileiros. Chamou o atleta de “vagabundo” e disse que não merecia ter o visto renovado para trabalhar no Brasil. O lance que causou revolta no técnico foi uma disputa de bola em que Lugano acertou uma cotovelada em Igor, do CAP. Em defesa do são-paulino, muitos acusaram o técnico de xenofobia. Dias depois, Mário Sérgio pediu desculpas publicamente.

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Voltando ao ano de 2004, depois de toda a polêmica, São Paulo e Santos se enfrentariam novamente, agora pelo Brasileirão. Com o apelo da diretoria, a torcida do SPFC lotou o estádio. Antes do jogo começar, toda a arquibancada gritou em uníssono: “Lugano, quebra o Elano”. Dentro de campo, Elano fugiu de todas as divididas. Pediu para sair no intervalo e o tricolor venceu por 1 a 0.

Jogando sempre com seriedade, Lugano tornou-se unanimidade no time. Taxado de lento por uns e de violento por outros, era idolatrado por fazer de tudo pelo time dentro de campo. Ainda em 2004, ganhou a Bola de Prata da revista Placar, eleito o melhor zagueiro do Brasileirão. O feito repetido no Brasileirão de 2005.

Mas ainda faltavam conquistas. E elas só vieram em 2005 – todas em grande estilo. No começo do ano, o Paulistão, de forma incontestável. A Libertadores veio com uma campanha estupenda, com apenas uma derrota em 14 jogos. E, finalmente, o Mundial, no qual Lugano foi o xerifão da zaga e certamente um dos melhores da final.

Em 2006, diversas propostas para o zagueiro deixar o Morumbi apareceram. Ídolo dos tricolores, Lugano tinha a camisa mais vendida entre os torcedores, superando até a do goleiro Rogério Ceni. Os rumores de que ele deixaria o Morumbi estavam cada vez mais fortes, sendo Milan e Juventus os prováveis destinos. Durante a Copa, foi confirmada a sua venda para os turcos do Fenerbahçe e ficou acertado que o zagueiro iria para a Europa após a participação do São Paulo na Libertadores daquele ano.

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Lugano havia sido expulso no jogo de ida contra os argentinos do Estudiantes (apenas a segunda expulsão dele com a camisa do SPFC, a outra foi contra o Santo André, na estreia do Paulistão daquele ano). Fora do confronto de volta, poderia se despedir do Morumbi sem jogar. A vitória nos pênaltis fez o zagueiro explodir de emoção e invadir o campo como um legítimo torcedor de arquibancada.

A despedida veio na final da Libertadores, diante do Internacional. O empate no Beira Rio não foi suficiente para a conquista do bicampeonato. E lá se vão quase dez anos. De lá para cá, em todas as janelas de transferências, o nome de Lugano sempre esteve ligado ao São Paulo. Os rumores se intensificaram em 2012, durante a Copa do Mundo em 2014 e também no ano passado, em especial após a despedida de Rogério Ceni, oportunidade em que o uruguaio foi um dos mais ovacionados durante a partida.

Contra a sua vinda, pesam passagens apagadas por PSG, Malaga, West Bromwich, além de jogar no obscuro futebol sueco. Ainda em 2015, transferiu-se para os paraguaios do Cerro Porteño. Com 35 anos, o zagueiro acredita ainda ter mais dois anos de carreira para jogar em alto nível. Em 2016, realizará o sonho de defender as cores do São Paulo novamente. Na entrevista mencionada no início do texto, deixou bem claro que no Brasil só defenderia o SPFC.

Identificação com o clube ele já tem e as portas estarão sempre abertas.

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Paulistano, casado e com 33 anos. Apaixonado por futebol e pelo São Paulo FC. De memória privilegiada, adora relatar e debater fatos futebolísticos de outrora. Ex-estudante de jornalismo, hoje gerencia uma drogaria no município de Barueri, além de escrever para a Doentes por Futebol.