Aleix Vidal será importante ao Barcelona

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Anos atrás

O Sevilla encantou a Espanha em 2006/2007 pela alta competitividade. Depois de vencer a Copa da Uefa em 2005/2006, o time treinado por Juande Ramos deu um ousado passo à frente: disputar, até a rodada 38, o Campeonato Espanhol contra Real Madrid e Barcelona. A coragem foi louvável, embora os andaluzes não tenham conseguido concluírem a missão. O Sevilla até chegou à última rodada com possibilidades de conquistar a taça, mas precisava de uma combinação de resultados para lá de improvável. Dessa forma, a equipe terminou o campeonato na terceira colocação, com 71 pontos, cinco a menos que a Barça e Real Madrid, que levou a taça devido aos critérios de desempate. Nas Copas, foi absoluto. Conquistou o bi na Europa e abocanhou a Copa do Rei. O estilo de jogo não era encantador, mas tinha seu carisma, tal qual o Atlético de Madrid atual: muita “pegada” (principalmente no Ramon Sánchez Pizjuán, onde a torcida transformava o estádio em um caldeirão) e corrida. Principalmente corrida.

Para isso, um jovem Daniel Alves era essencial para o funcionamento da proposta de Juande Ramos. Porque, desde a ponta direita, Dani só tinha um objetivo: correr. O baiano transformava o seu setor num local extremamente indesejável a qualquer jogador que atuasse por ali. Era como se Alves subisse numa moto e avançasse sob alta velocidade ao ataque. Não era uma correria desenfreada, mas sim objetiva e inteligente. Dani estava a mil por hora, mas, genialmente, sabia armar sua equipe e construir uma jogada. Um craque. O então camisa 8 foi muito disputado nos mercados de transferência, até ser convencido do projeto do novato Josep Guardiola no Barcelona. No Camp Nou, fez mais história.

Em 2014/2015, o Sevilla venceu pela quarta vez em nove anos a Liga Europa/Copa da Uefa. O segredo consistia na solidez defensiva e a forte transição ofensiva, das mais destacáveis da Europa. Para isso, ter velocidade não só com a bola, mas sem é fundamental. Pela direita, o técnico Unai Emery tinha em mãos um atacante de lado do campo que imprimia muito ritmo, boa interpretação dos espaços e facilidade para carregar a bola até a linha de fundo. Trata-se de Aleix Vidal, que na quarta-feira, contra o Espanyol, pela Copa do Rei, esteve pela primeira vez à disposição de Luis Enrique para poder jogar pelo Barcelona.

Vidal foi atacante durante boa parte de sua carreira. No novo clube, o trio de ataque é a alma e o coração do projeto. Intocáveis. Por isso, foi contratado para jogar na lateral direita, onde a disputa também é ingrata. Antes que a situação de Daniel Alves no Barcelona mudasse de maneira radical, tudo indicava que a contratação de Vidal tinha como intenção ocupar o lugar do brasileiro. Mas o baiano subiu consideravelmente de produção em janeiro (assim como o time todo, convenhamos) e recebeu um papel especial de Luis Enrique no período: ser um “lateral-interior”, o mesmo que cumpriu de maneira brilhante com Guardiola em 2008/2009. O velho novo Daniel Alves estava de volta.

Dani tornou-se absoluta peça-chave nos êxitos e no funcionamento do Barcelona desde essa função também compartilhada na reta final com Messi, que “expulsava” Rakitic às zonas mais livres do campo e permitia o lateral gerar vantagem à direita de Busquets tanto quando sua equipe tinha a bola, como quando não era assim. Com a pelota, sua criatividade na circulação foi mais digna de um meio-campista que de alguém que parte da defesa. Quando não a tinha, Dani formava quase um segundo primeiro volante, ajudando na pressão e na disputa de qualquer segunda jogada, o que permitia os jogadores de ataque se posicionarem para armarem e concluírem o contra-ataque.

Há um ponto que é de crucial importância ser mencionado nessa análise. O Barcelona de janeiro a maio de 2015 não existe mais. Os mecanismos mudaram. Por motivos próprios e até mesmo táticos, Messi, no contexto atual, vem sendo mais enganche e interior com frequência, a ponto de abandonar a ponta direita como se ela não existisse no sistema ofensivo. Luis Enrique e Messi (ainda) não explicaram o motivo desse deslocamento quase que “total”, mas a de se levar em consideração que, na atual temporada, dois nomes levaram à banda esquerda ganhar maior peso na estrutura do 4-3-3 de Lucho: Iniesta e Neymar. A sociedade entre espanhol e brasileiro é uma das grandes novidades da campanha. Ressurgido das cinzas depois de um ano inconsistente, Andrés está em sua versão mais “global”: o meio-campo é seu. O que acontece ali depende de suas ações, como se o Xavi de 2008 a 2011 tivesse de volta encarnado no corpo do camisa 8. Ditando o ritmo das ações a partir de sua vontade, Iniesta obrigou Luis Enrique a dar mais protagonismo ao trivote da medular, já que, em 2014/2015, eles tinham que trabalhar em demasia para o trio MSN.

O “abandono” de um membro de ataque do flanco direito prejudica Daniel Alves. Primeiro, porque ele é obrigado, naturalmente, a atacar quase que sozinho por ali. E, por causa disso, deixa uma avenida às suas costas quando o adversário ataca. Não está sendo raro vê-lo sendo golpeado por dois rivais, geralmente um lateral e um meia. Dando um olhada nos melhores momentos de Espanyol 0-0 Barcelona no último sábado, os Péricos perceberam logo de cara essa debilidade e forçaram a exaustão as jogadas com a dupla Víctor Álvarez e Asensio. Daniel Alves não tem mais 20 anos. Ir ao ataque e subir à defesa durante 90 minutos (por mais que o Barça o proteja com a posse de bola) é uma missão ingrata.

E é por isso que Aleix Vidal será importante para os Blaugranas. O catalão tem 26 anos e está no auge físico. Chega ao clube do coração um ano mais velho do que o Daniel Alves de 2008. Portanto, é muito mais acessível para o camisa 23 essa utilidade. Isso, claro, não significa que ele será titular (até porque o nome de Alves no onze inicial continua intacto). Porém, será muito mais plausível para Luis Enrique utilizá-lo para dar descanso ao brasileiro, já que Douglas, Adriano e Bartra improvisado não tem níveis suficiente para ser um “vice-Daniel Alves”.

O Barcelona da Tríplice Coroa desenhou-se pelo passe em diagonal de Messi a Neymar e, principalmente, Jordi Alba. Esse lançamento do argentino quebrou muitos sistemas defensivos, inclusive na Liga dos Campeões. Messi reunia toda a atenção para si, aguardava um de seus companheiros se infiltrarem e, magicamente, passava pelo alto com extrema precisão. Hoje, isso diminuiu. Ou melhor: inverteu de valor. É mais frequente ver Neymar dar esses passes para Daniel Alves. Ser lançado ao espaço seria uma bênção para Aleix Vidal, que acumularia metros para correr e fazer valer sua característica máxima. Nesse ponto, Vidal não oferece dúvidas. Resumindo: para o novo culé, seria mais interessante Ney ter mais a bola nos pés do que Messi.

Vidal está praticamente sete meses parado. Nos próximos jogos não será possível vê-lo repetir o físico descomunal exibido no Sevilla. Naturalmente, igualar aquilo já é complicado. Vidal está sendo preparado para ser o velocista que é em abril e maio, quando, fisicamente, muitas das equipes europeias estão desgastadas. Para a sorte de Luis Enrique.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.