Cotas de TV: equilíbrio financeiro é primordial para equilíbrio técnico

  • por Yuri Casari
  • 4 Anos atrás

Uma gigantesca parcela do público telespectador no Brasil defende a tese de que a Premier League é a melhor liga do mundo. E um dos fatores para isso seria o equilíbrio em confronto direto entre equipes da parte de trás da tabela com os clubes do pelotão da frente, elogiando a intensidade física e técnica do jogo. Naturalmente, elogia-se a distribuição das cotas de TV, que diminuiria a defasagem técnica, acabando com o abismo financeiro entre os clubes. Esses argumentos são apenas palavras jogadas ao vento ou realmente há algum fundamento? De acordo com uma pesquisa realizada pelo estudante de economia Nícolas Hoffmann, a relação entre as cotas de TV tem influência direta na classificação final do campeonato e no equilíbrio entre as times.

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Para chegar a esse resultado, Nícolas realizou uma profunda pesquisa em busca do que cada time recebeu em 15 das 23 temporadas disputadas desde a instituição da Premier League, na temporada 1992-93. Em uma planilha complicada para quem não é de Exatas, o estudo aponta: quanto maior a disparidade financeira, mais previsível fica o campeonato. E não apenas na parte de cima da tabela, mas nela toda.

O Manchester United, maior campeão do período com 13 conquistas, recebeu em média, por temporada, 6,68% do valor total oferecido pela televisão. A temporada em que menos recebeu, a de 2013-14, foi justamente a obteve o pior resultado, terminando-a em 7º lugar. A média do Liverpool, clube que está em jejum desde 1989-90, fica com 6,01% do total, e sua melhor campanha, em 2013-14, pode ser em parte creditada aos 6,24% recebidos da Premier League, 3º maior índice já recebido pelos Reds desde a instituição da liga. O insucesso também está relacionado. O Wigan estreou em 2006-07 na elite e caiu em 2012-13, temporada em que menos recebeu dinheiro desde sua ascensão, descontando o primeiro ano na elite.

O estudo de Nícolas também indica a média dos valores recebidos pelos 10 primeiros e 10 últimos, e pelas equipes do G-4 e Z-4, dando uma visão mais ampla da importância do dinheiro para se montar uma equipe competitiva. Em média, os 10 primeiros que mais recebem ganham 39,5 milhões de libras, contra 30,4 milhões de libras dos 10 que menos recebem. Os quatro primeiros recebem, também em média entre os anos de 1993 e 2015, 43,5 milhões de libras, contra apenas 28,3 milhões dos quatro que menos recebem. No Brasil, a diferença é consideravelmente maior como muitos imaginam. Entre 2006 e 2015, os quatro que mais recebem tiveram média de 50,8 milhões de reais contra apenas 15,2 milhões dos quatro últimos. É um aumento de quase 100% de diferença em relação à Inglaterra.

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Os gráficos que serão apresentados a seguir reforçam a disparidade no futebol brasileiro na relação cotas x pontos. O estudante calculou por ano, a média de pontos dos 4 primeiros colocados e dividiu pela média dos 4 últimos, e dividiu esse resultado pela média dos 10 primeiros dividido pela média dos 10 últimos – (média de pontos dos 4 primeiros ÷ média de pontos dos 4 últimos) ÷ (média de pontos dos 10 primeiros ÷ média de pontos dos 10 últimos). Dessa fórmula, chegamos à razão final, que indica o desequilíbrio do campeonato. Quanto menor a razão final, maior o equilíbrio. O mesmo cálculo foi feito com as cotas e o principio é o mesmo. Quanto menor a razão final, maior o equilíbrio na distribuição de cotas. Para efeito de comparação, Nícolas também analisou os dados do Campeonato Brasileiro desde o ano de 2006. Como pode ser visto no gráfico abaixo, há um desequilíbrio em pontos maior na Inglaterra do que no Brasil, mas na Premier League há uma tendência de queda nessa diferença.

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Neste outro gráfico, que analisa a Razão Média dos valores das cotas, há um desequilíbrio menor e em descendente na Inglaterra, enquanto no Brasil há uma previsão de disparidade maior a cada ano.

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Analisando esses dados, fica fácil relacionar o equilíbrio financeiro entre as equipes com a qualidade do certame, que naturalmente acaba sendo um fator de benefício para todos. Mais qualidade, mais público, mais audiência, mais renda. Imagino que esse cálculo seja mais simples de entender para nossos dirigentes.

Pensando no futuro, com o aumento de 70% nas cotas de TV da Premier League, que deve passar a distribuir mais de 1,7 bilhão de libras por temporada a partir da edição 2016-17, o equilíbrio do campeonato tende a ser ainda mais forte. Isso porque as outras formas de arrecadação diminuirão de peso na receita total dos clubes, ou seja, haverá alteração nas zonas onde os clubes grandes como Manchester United, Chelsea, Arsenal, Manchester City e Liverpool têm vantagens perante aos demais clubes.

Para acessar a planilha completa, clique aqui.

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Respiro futebol 24 horas por dia. Jogo, assisto, torço, leio, escrevo, penso. Enfim, sou um doente por futebol.