DPF entrevista André Henning, a voz do Esporte Interativo

Descontraído, narrador e apresentador recebeu o DPF (Foto: Henrique Souza)

Descontraído, narrador e apresentador recebeu o Doentes por Futebol e conversou sem muitas reservas (Foto: Henrique Souza)

Desde 2007, o Esporte Interativo vem provocando uma gradual – e consistente – reorganização no mercado das transmissões esportivas no Brasil. E nada personifica melhor o atrevimento do canal de se lançar em um setor tão concentrado do que a careca reluzente e a voz marcante de André Henning.

Nascido em Guarulhos (SP), criado na Europa, mas soteropolitano convicto, André é o principal locutor do canal que hoje é dono exclusivo dos direitos de transmissão da Liga dos Campeões no país. Ele esteve no Recife para narrar Santa Cruz e Flamengo, pelo Troféu Chico Science, no último domingo. E, na véspera da partida, teve uma bem humorada conversa com a reportagem do Doentes por Futebol, no saguão do hotel onde se hospedou.

Ele não mediu o tempo ou as palavras. Sem pressa, falou sobre quase tudo. Do berço jornalístico – é filho de Hermano Henning, correspondente internacional da Rede Globo por mais de uma década, entre outros veículos – a suas influências e o exercício da profissão de narrador.

Respondeu também às críticas ao tom adotado nas transmissões do Esporte Interativo e comentou sobre a revolução provocada pela Copa do Nordeste, principal produto doméstico do canal – que, para ele, está fazendo a região “voltar a ser referência em um momento delicado, em que está difícil encontrar referências”. Só hesitou na hora de apontar um favorito ao título da Lampions. “Juro que não sei”, garantiu. Confira a entrevista exclusiva:

Quais são suas referências de narrador esportivo?

Na locução esportiva, eu tenho dois caras que me influenciaram muito, que são os que eu cresci ouvindo. No rádio – a minha primeira paixão –, Osmar Santos. O bichinho me picou com ele. Começou a me fascinar a narração esportiva do rádio, aquela coisa de convocar torcida, ouvir o barulho da torcida. Comecei a gostar de futebol ouvindo rádio. E o Galvão Bueno. Desde o começo dos anos 80, não sei por que razão, comecei a gostar do cara. Eu morava em Salvador e ele ia lá narrar jogos. E meu pai, por trabalhar na Globo, na época conseguia me levar na cabine, e eu ficava lá com ele. Eu tenho esses dois como referências.

"Liberar a emoção nos aproxima do torcedor, porque a paixão nos une", afirma (Foto: Henrique Souza)

“Liberar a emoção nos aproxima do torcedor, do cara “comum”, porque a paixão nos une”, afirma (Foto: Henrique Souza)

De seu tempo como repórter de rádio, o que você levou de aprendizado?

Muita coisa. Se todo mundo pudesse ter passado pela experiência de transitar por todas as fases de um jornalista esportivo, seria bom. Porque você aprende muito das dificuldades que as outras pessoas têm. A hora de chamar as outras pessoas, o que você pergunta para cada um. Você sabe o tipo de acesso que o repórter tem, porque tem coisas que você pergunta e ele não vai saber. Você ter passado por todas as áreas dá uma bagagem bem interessante. Eu sou um melhor narrador por ter passado pela reportagem. Eu entendo o repórter, valorizo o repórter, coisa que às vezes quem pensa só na narração acaba deixando passar batido. Eu fui plantão, operador, gravei comercial, chamada. Caminhei uma estrada bacana.

Como seu pai influenciou na sua escolha por uma carreira no Jornalismo esportivo?

Pouca gente sabe, mas meu pai, no começo da história dele do rádio, chegou a fazer rádio esportivo, em Guarulhos, por pouco tempo. A grande influência dele foi a paixão pelo rádio. Meu pai ainda é um grande ouvinte de rádio AM. Então, principalmente por termos morado fora do Brasil e de São Paulo por muito tempo, nosso contato com o Corinthians, nosso time, vinha muito pelo rádio.

No exterior, meu pai sintonizava ondas curtas para poder ouvir a Bandeirantes AM, a Gaúcha, rádios que eram fortes em ondas curtas e que você consegue até hoje ouvir no exterior sem precisar da internet. Quando me mudei para Salvador, era uma maneira que eu tinha para entrar em contato com meu time. Eu ouvia futebol pelo rádio incentivado pelo meu pai. Ele dizia: “você sintoniza os 1000 kHz da Record, tem uma grande frequência, com 200 kW de potência, à noite vai chegar melhor o som”, etc. Foi esse tipo de conversa com ele que me despertou a paixão pelo rádio. Hoje é muito fácil. Mas ele não se acostumou, continua ouvindo chiado (risos).

Quais as qualidades necessárias para um bom narrador?

Eu acho que é dom. Não é qualquer um que consegue aprender a narrar. Pelo menos aprender a narrar de uma forma que você tenha sucesso. Acho que fazer o meio-campo você consegue, dá para ensinar o básico. Mas para uma pessoa estourar, tem um algo a mais que eu não sei explicar. O básico, principalmente, é saber tudo o que gira em torno do evento que você está narrando. O Esporte Interativo, por exemplo, tem três canais. Se você vai narrar um jogo, precisa saber os eventos que esses canais estão transmitindo, o que está acontecendo naquele momento em outro canal. Eu preciso ter o domínio total do que cerca as coisas que podem cair no meu colo. Pode acabar a luz do estádio e eu ter que passar para outro canal. Se eu não tiver o domínio dessas coisas, eu fico a pé.

Então, usando as palavras de Galvão Bueno, “vender emoção” só é possível tendo o conteúdo como alicerce?

Se você não estiver seguro da informação para soltar a emoção, você está roubado. Primeiro vem a emoção, mas… e aí? Você narra um gol do Guerrero. Se você não souber que ele está sem fazer gol há seis meses, não souber que ele foi contratado por um monte… cadê a emoção? Vai ser simplesmente o gol, que é emocionante, mas isso eu consigo ensinar para todos os outros. Mas ir buscar isso na hora, fazer a ligação, sentir que ele foi dar um abraço no Muricy, por exemplo. Isso é que vai ser o diferente.

Sempre lembro quando fui narrar um jogo do Schalke 04, e aí aparece uma faixa em alemão que passou batida para muita gente e eu dei sorte porque conheço o idioma. Ela dizia “Eu acredito em milagres”, e estava escrito 58 na faixa. Se eu não sei que desde 1958 o Schalke não conquista o campeonato alemão, passou batido. Então, a informação é a base, e na hora que a bola rola é emoção total.

Turbinado pelo grupo Turner, o EI comprou os direitos da Liga dos Campeões (Foto: Reprodução/Facebook)

Turbinado pelo grupo Turner, o Esporte Interativo comprou os direitos da Liga dos Campeões (Foto: Reprodução/Facebook)

É essa emoção que tem feito o Esporte Interativo crescer?

Também. No Esporte Interativo, a transmissão dos programas é o final de uma história movida a emoção. Então, quando a gente vai fazer um jogo, a empresa inteira está envolvida nisso, a gente está batalhando por isso, qualquer jogo que seja tem o envolvimento de muita gente que é apaixonada pelo esporte. Não é só um simples jogo. A gente se envolve com a história, somos todos apaixonados pelo esporte. Então, o fato do EI ter escolhido essa forma de transmitir futebol e esporte de uma forma geral é o que nos faz diferente. Liberar a emoção nos aproxima do torcedor, do cara “comum”, porque a paixão nos une. A mesma paixão que o cara vendo o jogo tem, a gente tem.

Algumas pessoas reclamam de aspectos das transmissões do EI, como gritos em excesso, por exemplo. Como vocês lidam com esse tipo de críticas?

Eu interpreto de duas formas. Uma: não agradaremos a todos. Isso é fato. Não sou religioso, mas nem Jesus Cristo agradou. Eu acho que a maioria dos que dão uma chance, com o coração aberto, gosta. Tem gente que não vai gostar mesmo, e aí paciência. E que bom que o cara tem outras opções para ter uma narração “sóbria”, mais tranquila. Tem para todo gosto. Pode até ver o jogo sem narrador, conseguindo um link na internet.

O outro ponto, que eu acho um pouco injusto, é o da gritaria. Fica parecendo que a gente começa uma transmissão sem falar nada que faça sentido. Não é isso. A gente transmite em um tom diferente. Não faz uma transmissão de gritaria. É realmente mais alto, mais intenso, e não vai agradar a todo mundo. A torcida também é mais alta. Outro dia, um cara falou: “ainda não entendi esse negócio de emoção e gritaria”. Pois é, tem gente que se emociona chorando, correndo, dando cambalhota. Essas coisas são inexplicáveis. Mas dizer que nossa transmissão é só gritaria é uma grande injustiça.

Sobre essa briga pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro envolvendo Esporte Interativo e Globo, o que você tem a dizer?

Basicamente nada, porque realmente a gente não sabe de nada. Imagino que seja assim em qualquer lugar. Isso é uma briga de gente grande, à qual eu não tenho acesso. Eu sei o que eu leio, e não sei nada além disso. Esquecendo um pouco os nomes Esporte Interativo, Globo, seja lá qual for a emissora, eu acho que a competição é saudável. O mercado livre é o melhor que tem. Então, que tenham opções.

O futebol vive uma relação com uma emissora há muito tempo, com méritos. A emissora tem muitos méritos em estar aí há tanto tempo sendo parceira do futebol brasileiro. Mas continuo achando que o livre mercado é melhor. Se ela ganhar de novo, parabéns, tomara que seja o melhor para o futebol. Se ganhar outra que não o EI, tomara que seja melhor para o futebol, para o torcedor, para todo mundo. O monopólio não é bom em lugar nenhum. Do jeito que é feito hoje, não tem como discordar de que é monopólio. É só olhar e ver que uma emissora transmite a Seleção Brasileira desde que eu me entendo por gente.

Henning ao lado de Zeca Brito, mascote da Copa do Nordeste: torneio está fora da grade de grandes operadoras de TV a cabo (Foto: Reprodução/Facebook)

Henning ao lado de Zeca Brito, mascote da Copa do Nordeste: torneio está fora da grade de grandes operadoras de TV a cabo (Foto: Reprodução/Facebook)

E em relação à dificuldade do Esporte Interativo em entrar na grade das TVs por assinatura, o que você pensa?

É outra que eu falo como cliente. É outra briga de gente grande, e que eu não tenho nem a sensibilidade de me meter, porque se eu fosse me meter, daria errado (risos). Então, que bom que a gente tem pessoas para isso, eu não teria muita paciência. Eu sou cliente de uma operadora que não oferece o EI. Eu ligo e reclamo. Eu acho uma sacanagem, com o perdão da palavra, privarem o torcedor de ver a final do Mundial de Handebol, acho uma sacanagem o cara não poder ver a Liga dos Campeões, a Copa do Nordeste. Acho uma sacanagem o cara pagar 235 canais, sendo que ele vê cinco ou seis, e não consegue ver o conteúdo que ele quer porque existe algo maior. Existe algo que a gente não sabe, mas sabe. Eu, como cliente, dei um ultimato na minha. Eu vou mudar e vou buscar outras alternativas. Até hoje, eu vejo pelo EIplus. O cliente tem esse direito e é ele que vai vencer essa barreira, ninguém mais.

Quanto à Copa do Nordeste, quais são suas expectativas?

Vão ser algumas semanas interessantes, de muito trabalho. Se eu tivesse cachorro, não conseguiria entrar em casa (risos). Está todo mundo vendo o sucesso da Copa do Nordeste. A cada ano, repercute mais, dá mais resultado, vira referência. A gente está vendo o pessoal tentando descobrir o que foi feito aqui para replicar lá. Já deu uma volta bacana. O Nordeste voltou a ser referência. Aqui no Nordeste, a gente sempre foi referência no futebol – e eu me considero porque sou soteropolitano, fui criado em Salvador. E estamos voltando a ser. Num momento delicado, em que está difícil encontrar referências. Eu vejo a Copa do Nordeste chegando com força, estou muito animado.

Está animado também para a fase final da Liga dos Campeões?

Se a gente pudesse ter ido lá e sorteado as bolinhas, talvez não tivesse conseguido definir confrontos tão legais. Chelsea e PSG, Real Madrid com técnico novo, Arsenal e Barcelona… os ingredientes estão aí, e os confrontos também. Acho que vai ser bacana. A gente tem vários jogos exclusivos. Acho que mais torcedores vão ter a chance de ver essa reta final e estamos preparando uma cobertura daquelas. A gente vem aqui para o Recife para fazer Santa e Bahia (pela 1ª rodada da Copa do Nordeste) e, daqui, embarca para a Europa, para fazer PSG e Chelsea. Vamos fazer uma cobertura bacana, como a gente já vem fazendo, para que essas duas competições tenham um tratamento rigorosamente igual.

Arrisca algum palpite de campeão da Copa do Nordeste?

A gente devia pegar os finalistas e usar como referência. O Ceará está se remontando. Perdeu muita gente, mas tem a força da torcida, um técnico que, se encaixar o estilo dele – e parece que encaixou –, é duro segurar. O Bahia, que teve um trauma grande de não voltar à elite, ainda mais com o Vitória voltando. Só que o Vitória não joga a Copa do Nordeste, então é um semestre para o torcedor tricolor deitar e rolar. O Sport, o único que estava na Série A… juro que não sei. Ainda aparece um Campinense, um ASA. Tem muito time que não jogou Série A e B, começa a pré-temporada mais cedo e chega voando.

E na Liga dos Campeões, dá para apontar algum favorito?

É mais fácil porque tem o Barcelona, que é o time a ser batido. Mas eu não descartaria o Real Madrid com essa mudança de técnico, e nem o Bayern de Munique. Eu particularmente torço para o Guardiola conseguir dar uma Champions para o Bayern, seria legal. Sou fã do Guardiola, torço pelo sucesso dele e gostaria de ver ele dar um título europeu para o Bayern. Mas vão ter que correr atrás do Barcelona. É o favorito, não tem jeito.

No Recife para transmitir Santa Cruz x Flamengo, amanhã às 11h, pela Taça Chico Science, André Henning arrumou um…

Publicado por Doentes por Futebol em Sábado, 23 de janeiro de 2016

Comentários

Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.