Futebol brasileiro em: onde foi parar a ousadia?

O termo “Ousadia e Alegria” acabou pessoalmente associado a Neymar e penso que exprime bem o que sempre esperamos de todo jogador brasileiro que se preze:

https://www.youtube.com/watch?v=3rE4sHJxdBg

Ousadia ao enfrentar os adversários – de qualidade – no campo e Alegria ao jogar futebol (e entreter público e torcedores no processo). O jovem craque da seleção brasileira desde jovem desde cedo demonstrou que tinha um plano de carreira e que seu fio condutor seria desenvolver seu futebol, reforçando sua marca pessoal através de bons contratos de publicidade, mas sempre buscando pelo protagonismo técnico nas equipes em que atuava. Neymar e seu staff sempre miraram os holofotes, mas sempre trabalhando duro para isso e entregando resultados dentro de campo. E sempre mostrando preocupação em fazer escolhas benéficas para a carreira do jogador. Não foi à toa que o Real Madrid foi deixado em detrimento a seu desenvolvimento no Santos e também não foi à toa que o Chelsea foi preterido em prol do comprometimento em assinar com o Barcelona.

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O investimento e a ousadia de pensar alto estão se pagando: não foi por acaso que ele evoluiu e hoje está brigando para se consolidar entre os jogadores mais prestigiados da atualidade.

Porém, penso que passamos por um momento delicado – em termos de cultura profissional – no futebol brasileiro e que corremos um sério risco de cada vez menos termos a chance de ver uma geração de jogadores brasileiros ousados que buscam superar limites e brilham pelos gramados mais competitivos e tradicionais do mundo.

Explico o porquê de meu pessimismo.

Competitividade x Lucratividade

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Renato Augusto trocou a oportunidade de poder voltar a disputar uma UEFA Champions League, um sonho seu segundo afirmou em várias entrevistas, por alguns milhões de reais por mês no futebol chinês.

O grande motivador deste texto, na verdade a gota d’água para mim, é a transferência de Renato Augusto para o futebol chinês. O ex-jogador corintiano se torna o terceiro Bola de Ouro consecutivo a sair do Brasil e se “esconder” numa liga incipiente e com baixo nível técnico. A escolha profissional de Renato, assim como seus antecessores Ricardo Goulart e Éverton Ribeiro, denota, a meu ver, um total abandono da busca pela competitividade e crescimento técnico na carreira. E enxergo isso como uma tendência preocupante no futebol brasileiro.

O tradicional prêmio capitaneado pela revista Placar serve como espécie de chancela de qualidade dada àquela elite de jogadores agraciados. Quem recebe a Bola de Ouro normalmente é um jogador muito acima da média e listo alguns nomes de peso cujo desenrolar histórico profissional prova isso:

ZICO E FALCÃO

Zico, Figueroa, Toninho Cerezo, Paulo Roberto Falcão, Careca, Renato Gaúcho, Djalminha, Amoroso, Giovanni, Edmundo, Kaká, Robinho, Edílson, Romário, Tevez.

E antes que comece meu “apedrejamento”: não, não estou dizendo que os últimos vencedores da Bola de Ouro Placar são da estirpe de um Zico ou Falcão, por exemplo. Mas fica nítido perceber que também não se tratam de jogadores comuns ou de atletas cujo nível se resumiria a tentar maximizar seus ganhos financeiros a todo custo, sem condições de equilibrar ganho financeiro com prestígio profissional (que só é adquirido através de um grande clube, ou seja, jogar numa liga tradicional e competitiva)

Além da perda óbvia de espaço na seleção brasileira (tema muitíssimo bem tratado por Pedro Galindo em sua matéria) e sua demonstração de descaso para com isso, estes jogadores estão abrindo mão de seu desenvolvimento como atletas em troca de salários astronômicos (tendo em mente que seus salários já são polpudos, se colocados em perspectiva a grande maioria da população economicamente ativa).

Vale a pena trocar carreira por (muito mais) dinheiro?

Sim, eu sei que esta é uma pergunta cuja resposta é puramente subjetiva e que cada profissional é que sabe, ou pelo menos deveria saber, o que lhe é mais apropriado em termos de escolha. Mas, como bom Doente por Futebol, me sinto na obrigação de advogar pela escolha mais tradicional e aprazível para os admiradores do esporte bretão.

O futebol está cheio de exemplos de bons jogadores, aqueles não eram as grandes estrelas da companhia mas que terminaram por construir ótimas carreiras no cenário de mais alto nível do esporte e que escreveram ótimas páginas na história:

Já pensou se Edílson (ganhador da Bola de Ouro em 1998) tivesse trocado sua carreira no Corinthians por um salário de altíssimo nível numa liga esquecida?

E Mauro Silva (ganhador jogando pelo surpreendente Bragantino em 1991)?

O volante pautou toda sua carreira no exterior jogando pelo Deportivo La Coruña. Jogando no futebol espanhol o volante passou longe de ser uma estrela do futebol mundial ou de receber um salário exorbitante para um jogador de futebol, mas escreveu belas páginas em sua história futebolística, tendo feito parte da seleção brasileira campeã em 1994 e do time lendário campeão espanhol da temporada 99/00.

Dinheiro não compra certas conquistas, muito menos raros momentos que só a luta dentro de campo proporciona.

É plenamente possível buscar enriquecimento financeiro e equilibrar esta meta com o desenvolvimento de carreira de um jogador de alto nível. Tenho certeza de que você leitor tem outros exemplos de bons jogadores que construíram belas histórias em times grandes e que ao mesmo tempo asseguraram um bom colchão financeiro para suas famílias.

Gostaria de saber tua opinião e promover o debate: estamos perdendo ousadia no futebol brasileiro? Nossa cultura profissional está se tornando excessivamente monetária e sem ambição esportiva?

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Botafoguense e apaixonado por Futebol.