Muricy ainda carece de peças essenciais

Em todas as oportunidades onde decidiu falar sobre as projeções do Flamengo para a temporada, Muricy Ramalho deu mostras teóricas do que pretende, em um primeiro momento, colocar em prática no clube. Nos treinos de pré-temporada, já era possível observar um time base e as mudanças estruturais no esboço de equipe em relação ao caos organizacional do último ano. Contra o Ceará no Castelão, na última quinta-feira (21), jogo que marcou a estreia do rubro-negro em 2016, Muricy apresentou a ideia que tem de futebol e do time. Contudo, deve sofrer com a ausência de jogadores com as características necessárias para execução plena do que pensa como ideal.

Muricy mudou. Quem ainda tem em mente um treinador pragmático, que arruma a defesa e aposta na individualidade e na jogada combinada para vencer e decidir na frente, talvez tenha prestado pouca atenção em seu final de trabalho no Santos em 2013 e nos últimos dois anos dele no São Paulo. Muitos apontam a derrota massacrante na final do Mundial de Clubes diante do Barcelona (4 a 0, fora o baile), em 2012, como “start” da mudança, algo que nunca foi assumido com todas as letras pelo treinador, mas sua recente “obsessão” pelo trabalho realizado no clube catalão, que lhe rendeu até algumas semanas de imersão nas funcionalidades do clube europeu, nos diz que a pancada foi entendida e absorvida como recado para reaprender sobre o esporte que Muricy até então pensara dominar.

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo - Muricy organiza Flamengo na pré-temporada

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo – Muricy organiza Flamengo na pré-temporada

A introdução sobre as mudanças de visão de Muricy são necessárias para analisar o esboço de Flamengo desta temporada, pois a equipe, assim como fora o São Paulo dele na recente passagem, deve ser um espelho do técnico. O que não significa dizer, necessariamente, que isso acontecerá de forma bem sucedida. Muricy sofreu no São Paulo e deve sofrer no Flamengo. Em ambos os casos, as dificuldades ocorrem pela ausência de jogadores no plantel do clube com perfil adequado para aquilo que, hoje, ele entende como prioridade.

No São Paulo, Muricy “sofria” com Ganso. Mesmo que tenha sido funcional ao São Paulo desde que chegou ao clube, Ganso faz qualquer treinador de refém. É preciso deixá-lo jogar; por tudo que representa, por ser um jogador relativamente caro e por ter o dever de ser protagonista, mesmo não sendo – o que nos levaria até uma outra discussão posterior, não pertinente a este texto.

Muricy, por diversas vezes, quis utilizar meio campistas mais completos a frente de um volante com boa inicialização de jogo no São Paulo. Via em Denílson e Souza esse papel de primeiro homem do setor, em Maicon um meio campista capaz de proteger e armar, mas não via em Ganso a capacidade de executar tal função. O resultado disso foi um time sempre com um meia armador (exceção ao segundo turno do Brasileirão 2014, quando Kaká chegou ao clube e Ganso passou a ser meia direita), um camisa 10, alguém que impedia que o desenho tido como ideal fosse praticado. Restou a Muricy cansar sua voz e praticamente implorar ao meia do São Paulo que se fizesse protagonista, invadisse a área, atacasse o espaço e buscasse o gol. Quase como uma forma de compensar sua escalação.

Outro motivo de sofrimento de Muricy no Tricolor foi a defesa, principalmente por conta das características dos zagueiros do elenco. Nas últimas temporadas, raros foram os beques confiáveis que vestiram a camisa Tricolor e, mais do que pouco confiáveis, faltavam zagueiros rápidos – problema que ele terá de enfrentar no Flamengo, que tem Wallace e Juan como titulares em um primeiro momento e Cesar Martins como primeira opção de banco. Sem velocidade na primeira linha, colocar em prática a ideia de Muricy com consistência é quase impossível. O treinador terá de lidar com velhos fantasmas no Rio de Janeiro.

Na teoria, nenhum meia armador rubro-negro será para Muricy algo como Ganso foi, ou seja: não haverá tanta dificuldade em implementar um desenho de meio campo com jogadores de bom passe, retenção e apoio circunstancial, com funções ofensivas e defensivas equilibradas. No Flamengo de Muricy não haverá um volante para marcar, um segundo volante para aparecer na área de surpresa e o camisa 10 que arma, como ocorreu em boa parte do tempo recente no São Paulo. Todos terão responsabilidades divididas e esse me parece ser um caminho interessante para resolver o anseio do torcedor que cobrou, por diversos jogos, a ausência de pensadores no time do ano passado.

Projeção do Flamengo de Muricy

Falando de peças, Mancuello é o único que desponta como indispensável no setor. Particularmente, gosto muito do jogador e a sua presença em cerca de 45 minutos no amistoso contra o Ceará foi um cartão de visitas. Participação decisiva em dois dos três gols do time – uma através de assistência direta e outra iniciando uma jogada de profundidade pelo lado esquerdo. Ao lado do argentino no projetável Flamengo, Willian Arão, jogador que me deixa dúvidas quanto a sua funcionalidade. Arão dependerá muito de quão carga criativa será posta sobre Mancu. Como é mais condutor e marcador do que criativo, Arão pode dar lugar para Alan Patrick, por exemplo, com maior poder de criação. Na primeira posição da zona de meio, hoje joga Márcio Araújo, mas qualquer outro meio campista do elenco rubro-negro é seu concorrente, e a chegada do colombiano Cuéllar deve tirá-lo dos onze iniciais.

Pelos lados, mais precisamente o direito, Marcelo Cirino me parece essencial ao que pretende Muricy. É o jogador mais incisivo do elenco. Do lado esquerdo, Everton e Sheik devem brigar pela vaga, com vantagem para Emerson, apesar deste que vos escreve ter predileção por Everton. Guerrero é a referência, e dispensa comentários. Resta saber se a fase ruim se alongará por mais alguns meses, o que eu sinceramente duvido bastante. Enxergo como questão de tempo para que o peruano volte a jogar em alto nível, claro, para os padrões nacionais.

Na defesa, o maior problema, como já dito. Rodinei e Jorge são seguros, há duas boas opções para o gol, mas quando olhamos para os zagueiros e suas características, bate a insegurança. Não acho que Juan e Cesar Martins, por exemplo, sejam zagueiros ruins atualmente. Juan foi um dos melhores da posição no futebol mundial nos últimos 10 anos, contudo perdeu velocidade e essa é a principal característica que necessita Muricy. Cesar é potencialmente interessante, mas também pesado. Wallace, devo concordar com a torcida: não dá. Não para um time protagonista, que joga com risco. Bem protegido, em um time menor, talvez até renda. No Flamengo de Muricy, sem chance.

Inevitavelmente o esboço do Flamengo para a temporada vai evoluir, talvez se modificar, mas dificilmente veremos algo diferente de um time com veia protagonista, que opta por propor o jogo, ter a bola e fazê-la arma ofensiva e defensiva. As observações mais preocupantes ficam em relação aos zagueiros e aos erros constantes de passe, algo inaceitável sendo a transição a principal arma motora de construção de um time que vai naturalmente, pelo pensamento do seu treinador, ter como principal característica a distribuição e a busca pela profundidade. Se não conseguir contratar peças defensivas com as características necessárias, talvez seja mais funcional a Muricy puxar meio campistas pra zaga do que insistir com zagueiros natos e pesados. O ideal como primeira opção é olhar com carinho para os defensores da base, mas conhecendo a linha de trabalho do técnico, isso dificilmente irá acontecer em um primeiro momento.

A segunda opção mais óbvia é seguir indo ao mercado e uma terceira mais ousada é adaptar meio campistas. Sampaoli e Guardiola já provaram ser possível.

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Jornalista graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e observador de esportes. Apenas acompanhar futebol nunca me foi suficiente, então decidi escrever e estudar sobre o jogo. Admiro a Premier League e o Chelsea, mas eu gosto mesmo é de respirar São Paulo Futebol Clube.