Três razões que fizeram Vanderlei Luxemburgo não vingar nos últimos anos

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Pelo Grêmio, Luxemburgo fracassou duas vezes no Gauchão e não teve sucesso nas competições mais expressivas (Foto: Lucas Uebel/Grêmio/Divulgação)

Quando Vanderlei Luxemburgo foi contratado pelo Real Madrid em dezembro de 2005, não restavam dúvidas até mesmo para o próprio treinador que o convite para trabalhar no clube mais poderoso do mundo significava uma oportunidade única por vários motivos. Entre eles, avaliar seus próprios atributos como treinador diante dos melhores do planeta e, claro, impulsionar sua carreira para, um dia, ser reconhecido como um daqueles melhores. Ter sucesso na Espanha era o que Luxemburgo precisava para começar a se notabilizar como um dos profissionais mais competentes e respeitados do mundo.

O fato de estar competindo em uma liga de altíssimo nível possibilitou ao técnico brasileiro saber se todo o conhecimento que ele havia adquirido desde o início de sua carreira como jogador e treinador poderia fazê-lo vencedor em uma praça onde somente os melhores brilham. Vanderlei não brilhou, e essa afirmação serve como resposta à seguinte indagação: Luxemburgo sempre foi um treinador internacional ou doméstico?

Nunca antes na história um técnico brasileiro havia tido a magnífica oportunidade de pisar no gramado do estádio Santiago Bernabéu como comandante do gigante Real Madrid. Faz sentido, porém, muitos torcedores jovens de hoje (aqueles que têm entre 10 e 15 anos, principalmente) não entenderem a razão pela qual Vanderlei Luxemburgo é repercutido tantas vezes no Brasil como uma estrela rara, já que esses torcedores não vivenciaram de forma intensa o período em que Luxa era de longe o melhor técnico do país. O fato de ter sido o primeiro brasileiro a comandar o Real ajuda muito esses jovens a terem certa noção do patamar incrível que Luxemburgo atingiu dez anos atrás.

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Computando todas as passagens de Luxa pelo Flamengo, são 245 jogos, sendo 127 vitórias, 67 empates e 51 derrotas, com um título conquistado, o Carioca de 2011 (Foto: Divulgação/Flamengo)

Em 2005, Luxa já se mostrava um profissional bem à frente de seu tempo no Brasil. E logo no pontapé inicial de sua carreira como técnico dos ‘Galácticos’, quando escalou o time às pressas para um confronto atípico diante da Real Sociedad, que terminou com vitória do Real por 2×1, Luxemburgo já indicou que seu trabalho na Espanha iria de fato mudar sua vida. Naquele momento, seu destino já parecia estar traçado: ele iria se tornar um daqueles managers que domina três, quatro idiomas e, enfim, iria ser inserido no grupo dos mais nobres comandantes do universo.

O que se viu menos de um ano depois, porém, foi um cenário totalmente divergente. Luxemburgo não emplacou no Real Madrid como técnico, e ainda deixou transparecer fraquezas como administrador de grupo, já que é publicamente sabido que o treinador não era respeitado por algumas estrelas do elenco justamente por não ter conseguido se impor como líder. Luxa também poderia ter sido mais flexível ao lidar com alguns aspectos importantes da cultura do futebol espanhol, como não realizar concentrações e treinos em dois períodos. Executar tarefas com as quais os jogadores não estavam acostumados acabou minando seu respeito.

Todo o glamour que seu terno, gravata e sapatos brilhantes carregavam se perdeu na viagem de volta ao Brasil. O desafio na Europa, que outrora era visto como uma oportunidade de crescimento em sua área, acabou se transformando um divisor de águas que marcou negativamente a sua vida profissional como treinador. Podemos dizer, então, que a carreira de Luxemburgo foi separada em duas partes: a fase pré-Real Madrid e a fase pós-Real Madrid.

Depois que o treinador voltou ao Brasil nunca mais ele conseguiu conquistar um título de expressão. Não podemos dizer, entretanto, que ele nunca mais foi campeão. De 2005 para cá, Luxa venceu cinco estaduais: duas vezes campeão paulista com o Santos, em 2006 e 2007, campeão paulista em 2008 com o Palmeiras, campeão mineiro em 2010 com o Atlético-MG e campeão carioca em 2011 com o Flamengo.

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Luxemburgo soma três títulos em duas passagens pelo Cruzeiro, todos vencidos em 2003: Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro (Foto: Washington Alves/Divulgação)

É fato que não existiu nesse período de dez anos apenas uma razão isolada para a falta de sucesso de Luxemburgo no futebol. Houve, sim, uma série de fatores, e a maioria deles por culpa do próprio treinador. Um desses fatores não tem relação direta com o despreparo do comandante: o ótimo grupo de treinadores que se destacou no futebol brasileiro nos últimos anos, entre eles Muricy Ramalho, Tite, Abel Braga, Marcelo Oliveira, Cuca, etc. Dessa forma a concorrência nessa última década foi bem mais complicada para o técnico carioca do que nos anos anteriores.

Mas aí pode vir a pergunta: por qual motivo Luxemburgo não acompanhou esse ótimo grupo de treinadores? Então dois pontos podem ser analisados. O primeiro e mais importante é a qualidade do time o treinador tem em mãos. O segundo, que também é imprescindível, mas só funciona se os jogadores tiverem qualidade técnica e inteligência para cumprir ordens táticas, é o quanto você absorve de conhecimento dos melhores técnicos do mundo e o quanto você conhece sobre diferentes aspectos do futebol que não se encontram dentro das quatro linhas. Aqui me refiro às diversas culturas ligadas ao futebol ao redor do mundo, e creio que a falta desse conhecimento tenha dificultado o trabalho de Luxemburgo no Real Madrid, como citado no quinto parágrafo deste texto.

Sobre o primeiro ponto, que é a qualidade do time, Luxa pouco trabalhou com grandes elencos nos últimos anos. O Cruzeiro de 2003 foi o último grande plantel que ele dirigiu e com o qual suas ideias melhor funcionaram. Aí se faz necessário lembrar de uma análise feita por Pep Guardiola, em maio de 2015. “Eu ganho porque tenho os melhores jogadores. Sou o melhor por ter conquistado tudo? Ganhei por ter super jogadores”, disse o espanhol. Uma análise simples e verdadeira. Não adianta você ser o treinador mais inteligente e antenado do mundo se você não tem as peças necessárias para colocar suas ideias em prática.

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Pelo Fluminense o treinador colecionou mais derrotas do que vitórias: em 26 jogos, Luxa perdeu dez vezes, empatou nove e venceu apenas sete (Foto: Fernando Cazaes / Photocamera / Divulgação)

Com relação ao segundo ponto, que é o quanto você está disposto a aprender com outros treinadores e o quanto você tem de conhecimento sobre diferentes aspectos do futebol, Luxemburgo pouco valoriza a ideia de estudar as diferentes filosofias de treinadores estrangeiros e tampouco se preocupa em fazer um “estágio” fora do Brasil para conhecer pessoalmente a cultura e as atuais estruturas utilizadas pelos europeus.

A prova de que Luxemburgo é avesso a essas possibilidades de se reinventar foi registrada em maio de 2015, dois dias antes da entrevista dada por Guardiola anteriormente citada. Enquanto era entrevistado pela Folha de SP, Luxemburgo fez a seguinte pergunta: “Por que fomos entender que a Europa, que sempre perdeu pra gente, está certa e nós estamos errados?” Depois, o hoje técnico do Tianjin Quanjian não poupou os próprios ouvidos e emitiu o seguinte diagnóstico. “Trabalhei lá fora. Somos muito mais avançados que eles (europeus). Se você conhecer a estrutura que eles têm e a que nós temos, não é muito diferente”.

Em uma só ligeira exposição de raciocínio, Luxemburgo colocou em evidência o quanto ele precisa rever alguns conceitos técnicos e administrativos e o quanto ele precisa estudar sobre a história do futebol. Como assim a Europa sempre perdeu para o Brasil? Como assim nós somos mais avançados que eles?

Colocados esses três pontos, concorrência entre técnicos do futebol brasileiro muito mais acirrada na última década, trabalhos com elencos limitados e profunda falta de interesse em aprender novas ideias, novas culturas e história do futebol, podemos, então, compreender melhor o porquê de Luxemburgo não ter realizado um grande trabalho nos últimos anos e enfrentar um momento claro de decadência em sua carreira.

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Jornalista esportivo. Blogueiro na Gazeta Esportiva.com e colunista no Doentes por Futebol e Sportskeeda.com. E-mail: [email protected]