A curiosa e gigantesca Copa Peru

  • por Yuri Casari
  • 4 Anos atrás

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Quando se fala de Copas Nacionais, as mais lembradas normalmente são a Copa da Inglaterra, torneio profissional mais antigo do mundo, e a Copa da França, que, democrática, reúne equipes amadoras e profissionais do país, incluindo territórios ultramarinos, como a Guiana Francesa e Guadalupe. Apesar de não possuir tanto destaque, aqui na América do Sul acontece uma competição similar a essas em termos de tradição e alcance, mas com um adicional de excentricidade: a Copa Peru, um torneio disputado desde 1967 e que reúne equipes amadoras e profissionais de todo o país. Estima-se que mais de 700 clubes façam parte da competição peruana anualmente.

Desde o início, a ideia sempre foi estimular o futebol amador e do interior, sendo que, em alguns anos, as equipes da capital Lima chegaram a ser impedidas de participar. Ao longo de sua história, ocorreram diversas mudanças de regulamento, mas, na maior parte do tempo, a Copa serviu como o caminho mais curto para a primeira divisão. Estando no terceiro nível da pirâmide do futebol peruano, o torneio dá ao campeão o direito de jogar na elite nacional e ao vice-campeão, de disputar a segunda divisão peruana.

Mas quem pensa que é fácil chegar lá, engana-se. A Copa do Peru é estendida durante toda a temporada e possui diversas fases classificatórias, tendo início em torneio distritais e passando por competições provinciais, estaduais e regionais, para só então chegar na fase final, um tradicional mata-mata em partidas de ida e volta.

Diversos clubes que conhecemos, e que tem aparecido com algum protagonismo, saíram da Copa Peru, conquistando um sucesso meteórico. O Universidad Cesar Vallejo, adversário do São Paulo na Pré-Libertadores de 2016, levou o título em 2003, e apesar de ter caído para a segunda divisão apenas dois anos depois, retornou à elite e passou a incomodar as grandes equipes do país – já possui quatro participações na competição mais importante do continente. O Juan Aurich, campeão da Copa em 2007, foi também campeão nacional em 2011 e já enfrentou o Internacional na Libertadores, assim como o León de Huánaco, campeão em 2009, que já teve o Grêmio como adversário. O exemplo mais recente, e talvez de maior sucesso, é o do Real Garcilaso, que ficou com o caneco da Copa Peru em 2011, foi vice-campeão nacional em 2012, e no ano seguinte, na estreia na Libertadores, alcançou as quartas de final.

Em um torneio tão longo, que penetra os mais distantes confins do país, é natural que diversas histórias curiosas ocorram. Separamos algumas delas para deleite dos fãs de futebol – confira!

O DRIBLE DA VACA

Em 2014, em um confronto entre Expreso Inambari e Minsa, um grupo de vacas, acompanhadas de um cachorro, invadiu o pasto – digo, gramado – e chegou a avançar sobre os jogadores. O jogo ficou paralisado até que os animais fossem retirados de campo.

https://www.youtube.com/watch?v=9yiMOF_WLZw

Entretanto, esta não foi a única invasão animal. Os perros são figuras constantes nos jogos e no estádio de Casablanqueada, em Tumbes, não são raras as invasões de pequenas cabras, criadas em sítios próximos.

A ERVA PERUANA

Unión Deportivo Ascención e Sport Junín de Ccsapata se enfrentavam normalmente, quando, aos 8 minutos da segunda etapa, o lateral Paulo Condori acabou tendo uma pequena lesão no tornozelo. Sem maqueiros ou médicos, o jogador foi obrigado a sair de campo sozinho. Mas ele não ficou sem atendimento. A mãe do jogador, que estava nas arquibancadas e devidamente munida de uma erva conhecida como maychi, preparou na hora uma espécie de pomada natural para aliviar a dor do filho.

VETERANO EM CAMPO

Em 2015, em um jogo contra o Ajo Pampa, o Deportivo Santa Rosa, da comunidade de Piscaya, decidiu colocar em campo o atacante Édgar Villaroel, de nada menos que 56 anos de idade. Com um gorrinho na cabeça (foto), venceu as dúvidas de todos e ainda marcou um dos gols da vitória do Santa Rosa por 2 a 0. Detalhe: o Santa Rosa utiliza uniformes idênticos aos do Barcelona. Outra equipe que resolveu apostar na experiência foi o Piérola de Arequipa, que integrou ao seu elenco três atletas com mais de 45 anos.

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A LENDA DOS COMEDORES DE GATOS

Na província de Huaura, há um time com o curioso nome de San Cristóbal de Los Come Gatos. Fundado em 1939 apenas como San Cristóbal, o clube chegou a ser referência nos anos 50 na região, e acabou ficando famoso por uma história que se tornou lenda no futebol peruano. O estranho hábito de se alimentar de gatos é conhecido de algumas regiões do sul do Peru, perto da divisa com o Chile – na capital Lima, há até um Festival Gastronômico de Gatos. Segundo a lenda, o apelido de Come Gatos vem de um ritual feito antigamente pelos atletas da equipe que, após as vitórias, comiam carne de gatos e retiravam a cabeça dos animais como troféus. Até onde se sabe, a “tradição” foi abolida.

O ÁRBITRO BORRACHO

Em um jogo da Etapa Nacional, entre Sport La Vid e Sociedad de Tiro Nº 28, o juiz Fernando Jeri causou o atraso da partida em mais de 40 minutos. O motivo? Estava embriagado e sem qualquer condição de apitar. Após protestos da torcida e dos jogadores de ambas as equipes, o quarto árbitro assumiu a bronca e deu sequência no confronto.

CENAS LAMENTÁVEIS

As famosas cenas lamentáveis não poderiam ficar de fora. Vez ou outra, verdadeiras batalhas campais acabam ocorrendo e se transformando em destaques mundiais. Em 2014, as equipes de ADA e Sport Chavelines se enfrentavam em Jaén. Aos 30 minutos do segundo tempo, o árbitro Julio Gática anulou um gol da equipe da casa. Após muita reclamação dos jogadores e protesto da torcida local, o juiz voltou atrás na decisão, validando o tento marcado. A partir daí, os jogadores do Chavelines é que iniciaram a confusão. O que ninguém esperava é que um grupo de torcedores invadiria o gramado do estádio Víctor Segura para agredir os atletas rivais. A equipe visitante foi obrigada a correr embaixo de uma chuva de paus e pedras para seus vestiários para evitar um desastre maior. O volante José Ruiz foi levado ao hospital com uma séria lesão na mandíbula. Josshimar Pacheco, outro jogador do Chavelines, também foi encaminhado aos cuidados médicos com ferimentos menos graves.

 

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Respiro futebol 24 horas por dia. Jogo, assisto, torço, leio, escrevo, penso. Enfim, sou um doente por futebol.