A revolução também vem de baixo

  • por Felipe Simonetti
  • 3 Anos atrás
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No Espírito Santo é normal só se encher estádio para receber grandes clubes.

A Primeira Liga certamente é uma das iniciativas organizadas pelos clubes que mais promete revolucionar o cenário do futebol brasileiro. Percebendo o caminho que vinha sendo tomado na organização e formatação dos campeonatos estaduais (e, paralelamente, o sucesso alcançado por competições como a Copa Nordeste e a Copa Verde), a diretoria de 15 clubes (do Rio de Janeiro, Sul e Minas Gerais) resolveu agir. Mesmo após inúmeros conflitos e disputas judiciais, foi fundada a Primeira Liga, que já teve suas primeiras partidas.

Esse é um movimento inédito nos grandes polos do futebol brasileiro para a nova geração e aponta para uma revolução. A mudança deve vir não apenas para os clubes de maior relevo, que lucrarão ao deixar de disputar dezenas de partidas que comprometem competições internacionais, não lotam estádios e remuneram mal os participantes. Podem ocorrer, também, alterações estruturais positivas em equipes de porte pequeno e médio, principalmente de estados periféricos.

O cenário atual evidencia uma distância enorme entre os clubes de estados tradicionais no futebol e os demais. O Espírito Santo, por exemplo, mesmo estando alocado na região Sudeste – com São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro –, sofre gravemente com a falta de força no esporte bretão. Os tempos de ouro da Desportiva Ferroviária já passaram há décadas, e os clubes capixabas hoje sobrevivem do vazio Capixabão e de frequentes participações pífias na Copa do Brasil e na Série D do Brasileiro.

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Infelizmente, essa situação não é exclusividade de um estado e pode ser vista nos quatro cantos do país. Campeonatos paralelos e uma mudança na organização do futebol nacional podem dar uma sobrevida a diversos clubes – disputar competições contra grandes equipes pode gerar novas e ótimas oportunidades às pequenas e médias. Além de expandir sua marca pelo país, despertando o interesse em potenciais patrocinadores, esses times poderão expandir suas fontes de renda, com maiores lotações em seus estádios e novas cotas de televisão.

Tal movimento pode também aproximar torcedores de seus clubes, graças às possibilidades de títulos e aos jogos contra grandes potências. Um bom exemplo do sucesso de um modelo alternativo é o ressurgimento da Copa Nordeste, que obteve a melhor média de público de 2015 e uma maior diversidade nas decisões de campeonato – vide a final de 2013 entre ASA-AL e Campinense-PB.

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A Copa Verde ainda caminha a passos curtos, principalmente pelo fato de contar apenas com equipes de estados futebolisticamente periféricos, da região Norte e Centro-Oeste e Espírito Santo. Pode-se dizer, contudo, que já atingiu uma grande conquista: uma vaga na Copa Sul-Americana – conquistada pelo Brasília na última edição. Em 2015, a Copa Verde teve a média de público de 4.061 pagantes, semelhante à do Cariocão no mesmo ano (4.074), por exemplo.

Tendo a Primeira Liga tantas vantagens, principalmente quando comparada ao atual modelo de estaduais, dilui-se o medo de que uma mudança nestes termos levaria à falência dos clubes menores. A proposta não é um campeonato enorme e sem sentido, mas um mais robusto e atrativo, cercado de torneios de verão. Com esse mix de futebol brasileiro e futebol europeu é possível enxergar um futuro de sucesso não apenas para o escalão de cima, mas também para os clubes capixabas, amazonenses, maranhenses, sergipanos, paraibanos e por aí vai.

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Capixaba que se mudou para BH e passou a dividir sua paixão principal pelo São Paulo com o Atlético Mineiro, ama acima de tudo, o futebol. Graduando em Relações Econômicas Internacional pela UFMG, podcaster do Imigrantes da Bola e doente por futebol, esse sou eu.