Atual vice-campeão europeu, Dnipro atravessa grave crise financeira

  • por Luis Felipe Zaguini
  • 5 Anos atrás

O Dnipro Dnipropetrovsk, da Ucrânia, sofre uma complicada fase. O clube, que perdeu para o Sevilla na final da Europa League da temporada passada, está no meio de uma das piores crises administrativas de seus 98 anos de história. Com seu presidente e principal investidor Igor Kolomoisky, um oligarca ucraniano que é o governador do estado de Dnipropetrovsk, a equipe passou a dar voos mais altos nos últimos anos. Mas parece que esses voos podem ocasionar quedas ainda maiores…

Primórdios da crise

A primeira indicação que as coisas não iam bem ocorreu em setembro de 2015, quando Kolomoisky disse aos jogadores que não tinha condições de pagar as despesas do clube, mesmo com todo o dinheiro arrecadado com transferências no início da temporada, além dos prêmios participativos de acordo com o desempenho no segundo maior torneio europeu de clubes, acordos de patrocínio e outras formas de renda.

Então, a equipe ameaçou não ir aos treinos. Inclusive, Eugene Seleznyov, atacante que marcou os dois gols na semifinal da temporada passada contra a Napoli, emitiu uma nota dizendo que se retiraria do clube caso as dívidas não fossem pagas. Com todas essas ameaças, os salários foram em parte pagos e o time voltou a treinar novamente.

A situação aliviou um pouco e as vitórias voltaram a aparecer. Mesmo assim, o plantel dirigido por Myron Markevych não conseguiu se classificar para os 16 avos de final da atual edição da Europa League, num grupo que continha Lazio, Saint-Etienne e Rosenborg, da Noruega.

Passada a eliminação, as coisas ficaram realmente complicadas. No dia 22 de janeiro deste ano, os jogadores foram informados que o goleiro Denys Boyko teve seu salário pago, mas o resto da equipe continua sem receber há cinco meses.

A única justificativa para o pagamento dos salários de Boyko foi a negociação do jogador, que recentemente assinou com o Besiktas por uma verba de aproximadamente 3.5 milhões de euros. A renovação de contrato o impediu que saísse do Dnipro por meio de transferência livre, sem montantes de dinheiro envolvidos, com exceção de salário.

De acordo com as leis da FIFA, se um clube está há mais de um mês sem pagar os salários para determinado jogador, este pode entrar com uma ação judicial para rescisão de contrato, tornando-se, assim, um jogador livre, o que eles querem evitar.

Portanto, os jogadores criaram uma carta para a diretoria do clube e tentaram alcançar uma resolução pacífica do caso. Na tal carta, eles pedem para que seus salários sejam pagos, mas sem ameaçar um motim ou revolta violenta.

Qual a raiz do problema?

O “xis” da questão é Igor Kolomoisky: o presidente do clube é um banqueiro supostamente bilionário que está envolvido em vários casos de corrupção e desvio de dinheiro, incluindo uma dívida de mais de um bilhão de dólares referente a Viktor Pinchuk, magnata ucraniano na área dos minérios e metalúrgicos. Onde está todo o dinheiro adquirido? As receitas do clube? Cabe ao governador responder!

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Andrey Stetsenko, diretor geral do clube, disse que está confiante que o presidente do clube não fechará as portas:

“O Dnipro existiu, existe e sempre existirá. Kolomoisky não vai fechar o clube, ainda é possível gerenciá-lo. Talvez não com um orçamento tão alto, como recentemente, em conexão com a situação econômica do país, mas posso declarar: o Dnipro, com seu dono, terá vida.

Stetsensko também negou rumores sobre uma troca de dono ou a venda do clube de Dnipropetrovsk, mas não exclui a possibilidade:

“Não falo sobre rumores, principalmente sobre àqueles que nada tem a ver com a realidade. Mas, é interessante olhar para as propostas das pessoas que desejam comprar o Dnipro. ”

A exclusão europeia

Não conseguindo lidar com dívidas que são de um valor superior à três milhões de euros, provenientes à Juande Ramos, ex-técnico da equipe, e sua comissão técnica, o clube pode ser severamente punido pela UEFA, ocasionando a expulsão das competições europeias pelas próximas três temporadas. Kolomoisky se pronunciou sobre o assunto, dizendo que simplesmente “não valeria a pena” quitar uma e deixar todas as outras dívidas em aberto.

Além disso, o presidente foi cobrado novamente pelos jogadores em busca de salário, mas aparentemente, estes não serão pagos. As punições propostas pela UEFA podem variar – como o clube sendo apenas multado caso pague parte da dívida – e acarretar uma bola de neve, abrindo a possibilidade da perda de 12 pontos na tabela do campeonato ucraniano, ser impedido de realizar transferências, e várias outras medidas regulatórias.

Mesmo que Kolomoisky pague algumas das dívidas – ou parte delas – nos próximos dias, o clube não deve escapar de uma punição do órgão máximo do futebol europeu. Uma das desculpas propostas pelo presidente do clube é a incapacidade de transferir dinheiro devido à situação do país europeu, alegando que o banco em que o Dnipro realiza transições está em embargo e não pode transferir montantes ao exterior, mas a UEFA respondeu falando que o clube deveria tomar alguma atitude pois uma situação parecida havia ocorrido em 2014, tempo suficiente para trocar o modo de câmbio financeiro.

Os jogadores mais renomados estão deixando a Ucrânia

A situação está crítica. Percebendo que não poderia arcar com os compromissos financeiros desde o início da temporada, o clube viu vários jogadores se transferirem, juntando o supracitado Boyko à lista. Eugene Konoplyanka, um dos pilares da equipe, foi para o Sevilla a custo zero:

https://www.youtube.com/watch?v=nGAHZAXlvQ4

Nikola Kalinic custou cinco milhões e meio de euros e agora balança as redes à serviço da Fiorentina. Jaba Kankava também saiu do time e foi para o Stade de Reims por uma verba de um milhão e meio de euros:

Valeriy Fedorchuk deixou o clube por falta de acordo salarial para renovação de contrato e deve assinar com o Dínamo de Kiev nos próximos dias. Para completar, Roman Bezus não está contente com o clube e pode entrar com uma ação para rescindir seu contrato, assim como a maioria dos jogadores caso não haja avanço significativo nas negociações de salário.

Como já não bastassem as atuais baixas, o armador de jogo Roman Zozulya está atraindo interesse de clubes alemães e ingleses e, pior, em entrevista a um site esportivo ucraniano, o meio-campista disse que os jogadores querem sair do clube:

“Há algo escondido, mas a verdade é que muitos jogadores do Dnipro querem deixar o time. Acho que, até a volta do campeonato [no fim de fevereiro], podemos perder alguns. Vários jovens subiram para a equipe principal, então a transição será suave. ”

Qual o caminho mais curto para sair da crise?

Como ocorre naturalmente em equipes com orçamento limitados, o Dnipro deve continuar transferindo os jogadores mais experientes, que tem uma folha salarial elevada, e contratando jogadores mais jovens, arrecadando dinheiro para conseguir obter um custo de manutenção aceitável.

A reformulação citada por Zozulya deve e está sendo feita. De vários exemplos, a contratação do atacante John Ruíz, costarriquenho ex-Lille, que estava emprestado ao Oostende, da Bélgica, demonstra a vontade de reciclar o elenco.

Em igual situação, é possível citar o meio-campista Valeriy Luchkevych, de apenas 20 anos, como o provável substituto de Konoplyanka:

As medidas já estão sendo tomadas, mas a reabilitação será difícil e demorada devido à gigantesca crise econômica que não atinge só o clube, mas também a Ucrânia, um dos países mais pobres da Europa na atualidade e que tem uma desigualdade social gritante.

É lamentável o principal clube de Dnipropetrovsk atravessar esse tipo de situação. Tudo o que se pode fazer é torcer para que as coisas melhorem e que o clube não tenha que fechar as portas num futuro, infelizmente, próximo. Força, Dnipro! Você precisa vencer mais uma de inúmeras batalhas!

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Estagiário na vida há (quase) 20 anos. Estudante de Jornalismo, apaixonado por futebol, doente pelo Chelsea - e redator do site oficial do clube no Brasil. Sensato e objetivo, ama pesquisar sobre a história do "beautiful game" e é também muito interessado sobre como a pelota é jogada no leste europeu e nas divisões alternativas, não só do Velho Continente, mas também de nosso país.