Como os argentinos chegam à Libertadores

  • por Lucas Sousa
  • 3 Anos atrás
Arte: Doentes por Futebol

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Maiores campeões da Libertadores com 24 títulos, sete a mais que os brasileiros, os argentinos sempre são obstáculos difíceis na competição continental. Saber quais são os times do país participantes da Liberta é uma das primeiras atitudes de um torcedor quando seu clube se classifica para a competição. Nunca é interessante enfrentar um argentino e eles sempre são motivo de preocupação. Na edição de 2016, seis clubes tradicionais chegam para a disputa: River Plate defende seu título, o Boca Juniors quer superar o episódio do gás de pimenta e voltar ao topo, Rosario e Huracán tentam surpreender, o Racing busca a reafirmação no cenário continental e o San Lorenzo vai atrás de outra grande campanha.

Boca Juniors

Três jogos, nenhuma vitória e crise na Bombonera. Este é o início de temporada do atual campeão argentino, Boca Juniors. O treinador Rodolfo Arruabarrena só não foi demitido ainda porque os jogadores o bancaram, mas a sombra de Guillermo Barros Schelotto, ídolo do clube e campeão da Sul-Americana comandando o Lanús, surge bem forte para perturbá-lo. A paciência da diretoria acabou após dois resultados constrangedores: a goleada por 4×0 para o San Lorenzo na Supercopa Argentina e o revés em casa por 1×0 frente ao Atlético Tucumán. Caso permaneça no cargo, Arruabarrena tem dois jogos para arrumar a casa antes da estreia na Libertadores contra o Deportivo Cali, na Colômbia.

Parte da insatisfação da diretoria com seu técnico se dá por conta do investimento feito pelo clube para o ano de 2016. A única saída relevante foi a do atacante Jonathan Calleri, hoje no São Paulo, reposta com o retorno de Pablo Osvaldo, após passagem de seis meses no Porto. Outro que chegou para ser titular foi Jonathan Silva, lateral esquerdo emprestado pelo Sporting Lisboa. Leonardo Jara (lateral-direito), Frank Fabra (lateral-esquerdo) e Manuel Insaurralde (zagueiro) chegaram para dar mais profundidade à defesa. Esses reforços custaram, aproximadamente, 19 milhões de reais aos cofres Xeneizes, quantia alta para os padrões argentinos.

Arte: Doentes por Futebol - Uma das opções de Arruabarrena é o 4-3-1-2 do título Argentino. Meli é opção para o lugar de Cubas, opção que recua Gago para ser o primeiro homem de meio-campo.

Arte: Doentes por Futebol – Uma das opções de Arruabarrena é o 4-3-1-2 do título Argentino. Meli é opção para o lugar de Cubas, opção que recua Gago para ser o primeiro homem de meio-campo.

Dentro do campo, porém, o time ainda não se encontrou. Arruabarrena já transitou por três formações táticas e nenhuma deu resultado. Na goleada da Supercopa, 3-4-1-2; na derrota em casa, 4-3-3; no empate frente ao Temperley, 4-3-1-2. Independente da organização o Boca apresenta princípios que ditam seu jogo, como a saída de bola feita através de passes curtos, com um volante buscando a bola nos zagueiros e iniciando o jogo. Existe também uma valorização da posse de bola e a tentativa de jogar com a redonda no chão. Os Xeneizes até apresentam algumas boas ideias ofensivas, mas falham na execução e, principalmente, na finalização. E então perdem a posse. Aí aparece o defeito mais grave da equipe: a transição defensiva. O Boca Juniors deixa sua defesa exposta e é muito vulnerável aos contra-ataques, pecado mortal para quem tenta propor o jogo. Dos cinco gols sofridos na temporada, três nasceram em contra-ataques.

Foto: Reprodução - Cubas (circulado) erra a virada de jogo e entrega a bola no pé do adversário. Nenhum xeneize ocupa a área à frente da defesa (sombreada), deixando a defesa exposta contra os atacantes

Foto: Reprodução – Cubas (circulado) erra a virada de jogo e entrega a bola no pé do adversário. Nenhum xeneize ocupa a área à frente da defesa (sombreada), deixando a defesa exposta contra os atacantes

A fase de Tévez e companhia é terrível, mesmo assim é difícil tirá-los da briga pelo título da Libertadores 2016. Essa base foi a melhor equipe da primeira fase no ano passado com 100% de aproveitamento e ainda recebeu ótimos reforços. A tradição do clube na competição também pesa muito e o grupo com Bolívar, Deportivo Cali e Racing não é dos mais pesados. Vale lembrar do grande rival na edição passada: o River Plate fez uma primeira fase sofrível, só se classificou nos últimos instantes, cresceu no decorrer dos jogos e levou o título. Argentinos são traiçoeiros na Libertadores e não é bom achar que o Boca está morto por conta de um mau início de ano.

Huracán

A classificação para a fase de grupos no último minuto contra o Caracas foi ofuscada por uma tragédia. Na volta para casa, o ônibus da equipe capotou enquanto seguia para o aeroporto, deixando mais de dez jogadores feridos. O caso mais grave é o do meio-campista Patricio Toranzo, que teve quatro dedos do pé parcialmente amputados. O jogador segue no hospital juntamente com o atacante Diego Mendoza e o preparador físico Pablo Santella. De acordo com o clube, todos passam bem e apresentando evolução favorável. Por conta do acidente, as partidas contra Tigre e Aldosivi, ambas pelo campeonato nacional, foram adiadas. O clube ainda tenta o adiamento de todos os compromissos de fevereiro, que incluem dois jogos do Argentino e a estreia na Libertadores, algo que deve ser negado.

Neste cenário de incertezas o time voltou a treinar. Martin Nervo, com fratura na vértebra lombar, e Lucas Villarruel, com corte no joelho, não participaram das atividades e também deve ser desfalques por algum tempo. Dentre os quatro desfalques, apenas Toranzo deveria ser titular na abertura da Libertadores, contra o Atlético Nacional, embora Mendoza seja boa opção para o ataque e tenha sido titular no primeiro jogo da primeira fase. Cristian Espinoza deve herdar sua vaga e compor o trio de meias ao lado de Daniel Montenegro e Alejandro Romero.

Arte: Doentes por Futebol - Sem Toranzo, Montenegro deve ser o enganche do Huracán. Pela direita, Romero também recua e aparece no centro para ajudar na articulação

Arte: Doentes por Futebol – Sem Toranzo, Montenegro deve ser o enganche do Huracán. Pela direita, Romero também recua e aparece no centro para ajudar na articulação

Mesmo sendo o menos tradicional dos argentinos, o Globo é um time muito organizado pelo jovem treinador Eduardo Domínguez. O comandante de 37 anos era jogador do Huracán até a temporada passada, quando encerrou sua carreira para assumir o cargo de técnico. Ainda inexperiente no banco, Domínguez tenta implantar ideias atuais no seu time.

Com a bola, o time procura trocar passes curtos e avançar de forma agrupada no terreno de jogo. Atuando como enganche, Toranzo é fundamental no momento ofensivo, recuando para buscar a bola e articular os ataques. Sem o camisa 18, Montenegro deve assumir essa função. A equipe procura o forte centroavante Wanchope Ábila a todo o momento, seja pelo alto ou pelo chão. Quando defende, o Huracán busca compactar seu time e pressionar a bola. Sua linha de defesa está sempre adiantada e bem fechada, visando diminuir o campo de jogo e proteger a zona central.

Foto: Reprodução - Defesa do Globo bem fechada e adiantada: campo de jogo reduzido para o oponente

Foto: Reprodução – Defesa do Globo bem fechada e adiantada: campo de jogo reduzido para o oponente

Como o Huracán chegará para a Libertadores ainda é uma incógnita. Os jogadores vão sentir a ausência dos companheiros ou isso será uma motivação a mais? Até que ponto os desfalques de Toranzo e Mendoza pesarão na equipe? Essas respostas devem guiar a campanha do clube no torneio. Dentre os integrantes do grupo 4, o Atlético Nacional surge como principal força, enquanto, Peñarol e Sporting Cristal não passaram da fase de grupos nas últimas edições. O Globo não é um time tecnicamente acima da média e enfrenta dificuldades de realizar seu jogo de passes quando pressionado pelo adversário, mas pode surpreender pela entrega e organização.

Racing

Uma das gratas surpresas da Libertadores 2015, o Racing chega ainda mais forte para a edição de 2016. Depois de 12 anos longe do torneio continental, a Academia emplaca sua segunda participação consecutiva e deve brigar forte neste ano. O Racing eliminou o Puebla na primeira fase e entrou no grupo 3, ao lado de Boca Juniors, Bolívar e Deportivo Cali. Apesar das dificuldades de jogar na altitude e de enfrentar os conterrâneos do Boca, é uma chave bastante acessível para o clube de Avellaneda, que deve brigar pela primeira posição.

O time não perdeu nenhum titular e ainda trouxe ótimos nomes para integrar o elenco. O principal deles é o atacante Lisandro López, ex-Internacional, que retorna a Avellaneda onze anos depois deixar a Argentina e rumar para o Porto. A princípio, Lisandro será o reserva de Diego Milito, mas deve fazer várias partidas como titular para poupar o experiente goleador. Quem também retorna é o meio-campista Rodrigo de Paul, emprestado pelo Valência após uma temporada e meia na Espanha, e deve disputar uma vaga nos onze iniciais. Federico Vismara, volante ex-Huracán, também chegou ao clube. Outra ótima opção que o Racing “ganhou” para esta temporada é Óscar Romero. O paraguaio já estava no elenco desde o ano passado, frequentemente no banco de reservas. A exemplo de seu irmão, Ángel, no Corinthians, Romero iniciou 2016 muito bem e pedindo passagem para jogar.

Arte: Doentes por Futebol - O 4-4-2 de Sava que busca o ataque a todo momento. Romero deve ganhar a posição de Camacho e De Paul é boa opção pelas beiradas

Arte: Doentes por Futebol – O 4-4-2 de Sava que busca o ataque a todo momento. Romero deve ganhar a posição de Camacho e De Paul é boa opção pelas beiradas

Se o elenco foi mantido, o mesmo não se pode dizer da comissão técnica. Diego Cocca decidiu não renovar com o clube e deixou o cargo de treinador, agora ocupado por Facundo Sava, após bom trabalho no Quilmes. O novo treinador não fez mudanças drásticas no time e manteve o estilo de jogo direto e aguerrido, que faz ligações diretas e leva a bola rapidamente até Gustavo Bou e Diego Milito, sua dupla de ataque.

O jogo passa muito pelos lados do campo, quase todas as jogadas começam por ali e contam com a participação dos laterais. Elas podem ser direcionadas para o fundo, buscando um cruzamento, ou para o centro, procurando o passe e a infiltração. Em contrapartida, o meio é pouco utilizado. Ezequiel Videla, volante que poderia oferecer um passe mais qualificado, sofre com as lesões. Os volantes titulares não são do tipo construtores de jogo e os pontas Marcos Acuña e Washington Camacho se movimentam pouco pelo meio. Romero e de Paul são opções para criar jogo também pela zona central, sem deixar de agredir pelos lados, como o paraguaio fez frente ao Puebla.

A agressividade da equipe também é vista na fase defensiva, pressionando alto para recuperar a bola no campo de ataque. Em alguns momentos, dois ou três jogadores atacam o adversário ainda no seu campo, deixando-o sem opções de jogo e forçando o chutão. O grande problema é que muitas vezes a defesa não acompanha essas subidas no campo e um grande espaço aparece atrás do meio-campo. Um adversário que saiba ocupar e explorar esse buraco pode causar problemas a Sava.

Foto: Reprodução - A blitz do Racing no campo ofensivo: três cercando o homem da bola, que não tem opções de passe ou espaço para escapar. O passe errado resultou no gol dos argentinos

Foto: Reprodução – A blitz do Racing no campo ofensivo: três cercando o homem da bola, que não tem opções de passe ou espaço para escapar. O passe errado resultou no gol dos argentinos

O Racing chega ainda mais forte a essa Libertadores. Mais experimentado e com boas opções no banco de reservas. O ataque, ponto forte do ano passado, conta com o reforço de Lisandro López e o faro de gol de Bou, artilheiro de 2015 e autor de dois tentos em 2016. Na defesa, Luciano Lollo, mesmo assediado, permaneceu e vai liderar o setor. Boas opções que fazem o torcedor sonhar com nova conquista após 49 anos.

River Plate

Atual campeão, o River Plate chega à Libertadores 2016 com várias mudanças. A boa campanha atraiu olhares para seus destaques e quatro titulares de 2015 deixaram Buenos Aires. Funes Mori foi para o Everton, Matías Kranevitter seguiu para o Atlético de Madrid, Carlos Sánchez acertou com o Monterrey e Téo Gutiérrez deixou o clube antes do final da competição para acertar com o Sporting Lisboa. Até então Marcelo Gallardo tem mesclado as reposições com caras novas e antigos reservas para moldar o River 2016.

O jovem Álvarez Balanta assumiu a posição deixada por Funes Mori na defesa. Aos 22 anos, o zagueiro tem a oportunidade de se firmar na equipe caso consiga superar as seguidas lesões, que já o assolaram neste início de ano. Outra opção para o setor é Emanuel Mammana, uma das promessas do River. Na volância, Leonardo Ponzio foi recuado para a vaga de Kranevitter, posição que também pode ser ocupada por Nicolás Domingo, vindo do Banfield. Nicolás Bertolo, Lucho González, Gonzalo “Pity” Martínez e o ex-Gimnasia La Plata, Ignacio Fernández, vão disputar outras duas posições no meio-campo. Mais à frente, como enganche, Andrés D’Alessandro e Leonardo Pisculichi são as opções de Gallardo. O ponto forte da meia cancha Millonaria é a versatilidade dos jogadores: quase todos podem atuar em duas posições diferentes. No ataque, Rodrigo Mora e Lucas Alario serão os titulares, mas ganharam a sombra do experiente Iván Alonso.

Arte: Doentes por Futebol - O 4-3-1-2 de Gallardo com inúmeras opções no meio-campo. D'Ale deve ser o enganche e receber os apoios de Martínez e Bertolo

Arte: Doentes por Futebol – O 4-3-1-2 de Gallardo com inúmeras opções no meio-campo. D’Ale deve ser o enganche e receber os apoios de Martínez e Bertolo

Nas primeiras partidas do ano, “Muñeco” Gallardo apresentou um River Plate bastante ofensivo. No 4-3-1-2 (ou 4-4-2 em losango), o time ocupa o campo de ataque com sete ou oito jogadores e propõe o jogo construindo com passes curtos. Laterais bem abertos dando amplitude e meio-campistas ocupando o centro, buscando superioridade numérica e linhas de passe. Aqueles que atuam nas laterais do losango também aparecem próximo às linhas laterais, ajudando no jogo pelas beiradas e desestabilizando o adversário. Quem tem se destacado nesse movimento é Martínez: faz boa dupla pela esquerda com o lateral Leonel Vangioni e cria situações de gol quando aproxima da área.

Defensivamente, mais daquilo que havíamos visto na campanha vitoriosa: muitos jogadores ocupando o setor da bola e pressão intensa, tudo para tirar o oponente da zona de conforto e recuperar a bola rapidamente. A pressão começa na transição defensiva, com a defesa adiantando e os homens próximos dando combate. No entanto, os lados costumam ficar desocupados nessa fase e podem ser um caminho para atacar o campeão.

Foto: Reprodução - Laterais (circulados) dando amplitude e quarteto de meio campo- pelo centro. Dois abrem o campo para o restante desequilibrar pelo meio

Foto: Reprodução – Laterais (circulados) dando amplitude e quarteto de meio campo- pelo centro. Dois abrem o campo para o restante desequilibrar pelo meio

O River Plate tenta o histórico feito do segundo título consecutivo de Libertadores. O último a fazer isso foi o Boca Juniors de Carlos Bianchi e Riquelme, em 2000 e 2001. O penúltimo? O São Paulo de 1992/1993, adversário dos argentinos já na segunda rodada. Os pequenos Trujillanos e The Strongest completam a chave, que deve mesmo ter Brasil e Argentina ocupando as primeiras colocações. Com um confronto gigante logo na fase de grupos, os Millonarios apostam na base campeã e em um elenco mais robusto e experiente, com várias peças à disposição do ótimo Gallardo.

Rosario Central

Após dez anos de ausência, o Rosário Central está de volta à Libertadores. Apesar da terceira colocação no último Campeonato Argentino, o time chegou à competição continental como vice-campeão da Copa da Argentina, vencida pelo Boca em uma final bastante polêmica. O equilibrado grupo 2 pode ser complicado para um time que não joga a competição há tanto tempo. Nacional e Palmeiras são tradicionais e os favoritos para as vagas, mas com certeza terão dificuldades quando forem jogar no Gigante de Arroyito, onde o Rosario não perdeu no último Argentino. O River Plate do Uruguai também tenta aparecer como surpresa nesse grupo. Se no futebol nada se define antes de entrar em campo, na Libertadores muito menos.

Para a disputa do torneio continental, Gustavo Coudet recebeu alguns reforços interessantes. Campeão da Libertadores pelo San Lorenzo, o zagueiro Mauro Cetto voltou ao clube que o revelou. Germán Herrera, atacante com passagens pelo futebol brasileiro, é outra adição de experiência ao grupo. Gil Romero, volante jovem e titular do Estudiantes, chegou a Rosário para suprir a lacuna deixada por Nery Domínguez, que rumou para o Querétaro. Outro negociado foi o meia Franco Cervi, de 21 anos. O Benfica venceu a disputa com o Sporting e contratou uma das principais promessas da Argentina, mas o jovem só irá para Lisboa após a Libertadores.

Arte: Doentes por Futebol - Muita pega e bolas longas no Central de Coudet. Lo Celso é opção para cadenciar e criar com passes

Arte: Doentes por Futebol – Muita pega e bolas longas no Central de Coudet. Lo Celso é opção para cadenciar e criar com passes

O ponto forte da equipe azul e amarela é a defesa. Segunda melhor do último Argentino, é uma verdadeira fortaleza comandada por Javier Pínola a frente da área montada por Coudet. E se engana quem pensa que a solidez defensiva se dá por uma postura conservadora. O Central pressiona alto e com intensidade desde o campo de ataque e não dá sossego para seus adversários pensarem o jogo. A fraqueza está nas longas perseguições individuais que muitas vezes abrem espaços valiosos para os oponentes explorarem. O time tenta compensar isso com muita pressão nesses encaixes e atenção às opções de passe, cercando os possíveis alvos da jogada.

Com a bola é um time que abusa dos lançamentos, buscando sua boa dupla de definidores formada por Marco Rúben e Marcelo Larrondo. Até por falta de qualidade técnica no meio-campo, os Canallas não trabalham a bola e, por vezes, sentem dificuldade de reterem-na no campo de ataque. Cervi não é um enganche, é muito mais um ponta-de-lança, jogador de drible e finalização. Então, a bola que chega aos atacantes frequentemente vem do alto, seja por ligação direta, cruzamentos ou até mesmo cobrança de laterais. Deu certo na temporada passada: Rúben foi disparado o artilheiro do último Argentino com 21 gols, sete a mais que o segundo colocado. Mas Coudet tem dado oportunidades a Giovani Lo Celso, outra joia do clube e com características diferentes, talvez buscando alternativas ao seu jogo. Especulado no Atlético de Madrid e Inter de Milão, o jovem tem capacidade de criar perigo com boa visão e passes precisos.

Foto: Reprodução - Pínola é o zagueiro pela esquerda, mas foi dar combate próximo ao meio-campo e deixou um grande espaço na entrada da sua área

Foto: Reprodução – Pínola é o zagueiro pela esquerda, mas foi dar combate próximo ao meio-campo e deixou um grande espaço na entrada da sua área

Talvez o mais argentino dos argentinos dessa Libertadores, o Rosario Central não apresenta um futebol vistoso, se dedica muito sem a bola e faz do seu estádio um verdadeiro caldeirão para quem for jogar lá. Embora não tenha grande repertório técnico, o time conta com um artilheiro nato, promessas tentando se firmar como realidade e uma defesa confiável. É o suficiente para dar muito trabalho para qualquer adversário. O desafio de Coudet e seus comandados agora é elevar o recente sucesso nacional a um nível continental.

San Lorenzo

Depois de ser campeão em 2014 e parar na fase de grupos em 2015, o San Lorenzo chega a 2016 buscando outra grande campanha. A maior parte do elenco vencedor ainda está em Boedo, sem seu treinador. Edgardo Bauza deixou o clube para treinar o São Paulo e o elenco agora está nas mãos do jovem Pablo Guede, de 41 anos. Guede esteve com o chileno Palestino na última Libertadores, alcançando a terceira colocação no grupo 4, que teve Boca Juniors e Montevideo Wanderers como classificados. Um técnico pouco experiente vai conseguir repetir o sucesso daquele que conquistou duas Libertadores em sete anos? Essa é a grande questão que cerca o San Lorenzo.

À sua disposição, Guede terá diversos atletas de qualidade. Julio Buffarini, Emanuel Más, Néstor Ortigoza e Mauro Matos são remanescentes da conquista da América e seguem no time titular. Sebastián Blanco, especulado no Corinthians, chegou depois e se firmou entre os onze. Aos 39 anos, o zagueiro Mauro Yepes encerrou sua carreira e o Ciclón trouxe outro nome experiente para o setor: Marcos Angeleri, de 32 anos, campeão pelo Estudiantes em 2009 e ex-jogador do Málaga. Fernando Belluschi, vindo do Cruz Azul, e Pedro Franco, do Besiktas, também chegaram ao clube. No entanto, o principal reforço é o atacante Ezequiel Cerutti, outro ex-Estudiantes, opção de velocidade na frente.

Arte: Doentes por Futebol - O 4-3-1-2 que Guede adota no início de trabalho. Versatilidade de Ortigoza abre opções para Barrientos e Romagnoli no meio. Na frente, dois bons reservas: Blandi e Cauteruccio

Arte: Doentes por Futebol – O 4-3-1-2 que Guede adota no início de trabalho. Versatilidade de Ortigoza abre opções para Barrientos e Romagnoli no meio. No ataque, dois bons reservas: Blandi e Cauteruccio

Embora tenha deixado de lado as duas linhas de quatro de Bauza e apostado no meio-campo em losango, as ideias de Guede não são tão diferentes daquelas de seu antecessor. Ainda conhecendo o elenco e as novas peças que chegaram, o técnico tem variado bastante seus jogadores de meio-campo para ver quem se encaixa melhor, mas ele deve ser formado por Franco Mussis, Belluschi, Blanco e Ortigoza. O último pode atuar em todas as posições de meio, abrindo possibilidade para variações conforme o adversário.

O San Lorenzo 2016 é uma equipe que não se preocupa em ter a posse de bola, não pressiona alto e gosta do jogo direto, com passes verticais. Mesmo sem muitas opções de velocidade, leva perigo nos contra-ataques, quase sempre verticais e com passes longos ao invés de condução. Quando tem a posse, ataca com seis jogadores, deixando sempre os zagueiros, o lateral do lado oposto ao da bola e o volante fazendo o balanço defensivo, prontos para pararem as tentativas de contra-ataque. Produz boas jogadas quando Blanco e Ortigoza se aproximam, criando linhas de passe e oportunidades de finalização.

Foto: Reprodução - Ciclón ataca com seis jogadores (amarelo): lateral do setor da bola, meio-campistas, enganche e atacantes. Volante e lateral do lado oposto (branco) fazem o balanço defensivo

Foto: Reprodução – Ciclón ataca com seis jogadores (amarelo): lateral do setor da bola, meio-campistas, enganche e atacantes. Volante e lateral do lado oposto (branco) fazem o balanço defensivo

Com um estilo de jogo cauteloso, procurando não correr riscos, Pablo Guede tenta dar sequência ao grande trabalho de Edgardo Bauza no Ciclón. A goleada por 4×0 sobre o Boca Juniors na final da Supercopa Argentina foi construída a partir dos contra-ataques e exemplifica bem essa ideia. Essa forma de atuar pode ser importante na conquista de uma vaga no complicado grupo 6, de Grêmio, LDU e Toluca, onde cada ponto pode fazer a diferença para definir os classificados. A fase de grupos será um teste e tanto para o novo técnico, que busca se solidificar na melhor oportunidade de sua carreira.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.