Trata-se de ser Guardiola

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás
Foto Reprodução

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A Inglaterra será a encarregada de receber Josep Guardiola a partir da próxima temporada. O mais midiático treinador do mundo já havia antecipado sua saída do Bayern de Munich, mas seu acerto com o Manchester City foi confirmado apenas no início desta semana. O catalão nunca escondeu o desejo de treinar um clube da Premier League, campeonato pelo qual sempre mostrou respeito. Amante do esporte, Pep vai para o lugar certo: dos centros europeus, a nação do Reino Unido respira futebol desde a primeira hora do dia até a última. É essa cultura que certamente ilusiona o treinador. Agora, seus últimos meses na Baviera serão dedicados à conquista da Liga dos Campeões. A Inglaterra, por sua vez, já vive a expectativa de recebê-lo. Mas o que o futebol do país pode aprender com o mister?

Primeiramente, é bom tocar em um assunto que os vaidosos fãs da Premier League não gostam: a perda de competitividade em solo europeu. Os ingleses, que dominaram a Champions entre 2006 e 2009, já não conseguem mais colocar com demasiada frequência times na semifinal do maior torneio de clubes do mundo. O velho estilo britânico de ligação-direta, centros laterais, verticalidade em excesso e defesa de área perdeu validade há tempos. A derrocada começou justamente após o nascimento do Barcelona de Guardiola, que derrotou em duas finais, em menos três anos, o Manchester United de Alex Ferguson, símbolo da EPL de outrora.

Foto: Site Oficial do Athletic Bilbao | O Athletic Bilbao de Marcelo Bielsa castigou o Manchester United de Ferguson em pleno Old Trafford

Foto: Site Oficial do Athletic Bilbao || O Athletic Bilbao de Marcelo Bielsa castigou o Manchester United de Ferguson em pleno Old Trafford

Foi a partir do sucesso da filosofia de jogo catalã que pudemos perceber a gradativa mudança no estilo de jogar de muitas equipes espanholas, alemãs e até mesmo italianas. Depois da demonstração de superioridade do Barça contra o United na final de Wembley, em 2011, o futebol passou a se mover em duas velocidades diferentes. Na primeira escala, havia os times que baseavam seu futebol na capacidade de passes de seus jogadores, fazendo do meio-campo o artífice dos seus sistemas táticos. Real Madrid de Mourinho e Ancelotti, Borussia Dortmund de Klopp, Bayern de Munich de Heynecks e Guardiola, PSG de Blanc, Porto de Villas Boas e Julen Lopetegui. Até mesmo o Atlético de Madrid, dado por muitos como conservador e defensivo, tinha seu meio presente nas principais vitórias. Tiago, Gabi, Arda Turan e Koke formaram um quarteto coerente, trabalhador e decisivo nas noites da Champions 13/14. Como não esquecer a maravilhosa partida de Tiago e Koke em Stamford Bridge, contra o Chelsea, nas semifinais de 2014?

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Em contraponto a esse processo, estavam (e ainda estão) os clubes ingleses. Até hoje, custa a eles se adaptarem aos planejamentos táticos rivais. É bom frisar que o Chelsea campeão com Di Matteo veio de uma forma “peculiar”: linhas recuadas, blocos baixos, sangue e muito suor. Competir assim em duas ou três eliminatórias é possível. Manter-se durante mais anos é impossível. Não à toa, na Champions seguinte, os Blues caíram na fase de grupos, alcançando uma marca negativa: nunca antes na história da fase moderna da competição um campeão era eliminado de maneira tão precoce. Um contraste que é traduzido a cada terça, quarta e quinta de competições europeias. Os conjuntos ingleses mostram-se visivelmente incomodados em campo, sobretudo pelo jeito que as partidas se desenvolvem. A imprensa inglesa adora a expressão “outplayed by”, que, nesse contexto, significa “dominado por”. Ela tem sido bastante utilizada para descrever partidas em que times ingleses foram dominados por estrangeiros, não necessariamente no placar, mas sobretudo no volume de jogo.

Foto: UEFA | Antes do domínio do Barcelona, os clubes ingleses mandaram na Champions entre 2006 e 2009. O Manchester United de Cristiano Ronaldo foi campeão contra o Chelsea

Foto: UEFA || Antes do domínio do Barcelona, os clubes ingleses mandaram na Champions entre 2006 e 2009. O Manchester United de Cristiano Ronaldo foi campeão contra o Chelsea, em 2008

Guardiola é uma excelente notícia para a Premier League. Pep é teimoso, vaidoso e perfeccionista ao extremo. Seu estilo de jogo vem em primeiro lugar. O catalão não tem medo de aplicá-lo em elencos que, à primeira vista, possivelmente não têm capacidade de fazê-lo fluir do jeito que o técnico gostaria. Seu primeiro Bayern vestiu-se de Barcelona desde o dia 1. Os bávaros, até então, sempre foram com o comandante anterior um time de ritmo alto, contra-ataque e muita intensidade. Pep sempre aplica seu futebol e, atualmente, ele é muito mais competitivo do que qualquer outro inglês. O tiki-taka na Inglaterra vai forçar, por obrigação, uma mutação no jeito de ver e jogar dos técnicos da EPL: ou se ambientam a Pep ou o City vai dominar a liga inglesa por anos.

Atualmente, nenhuma equipe da primeira divisão tem estrutura tática firme e forte para ser “anti-Guardiola”. O admirável Leicester, na disputa pela taça de 2015/2016, é puro anos 90 (4-4-2 ortodoxo, simples e, domesticamente, eficiente). É claro, falamos do plano A. Não vai ser raro ver algumas equipes retrancando-se e saindo em velocidade para aproveitar a linha defensiva alta que Guardiola costuma utilizar em seus times. A questão, mais uma vez, é que, semanalmente, o plano B não pode ser mais importante que o principal.

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Na Espanha, o Barcelona passou o trator em La Liga na primeira temporada de Guardiola por questões que vão muito além da qualidade técnica de Yaya Touré, Xavi, Iniesta, Messi, Henry e Eto’o. Taticamente, não havia equipe madura o suficiente para lidar com o jogo de passes guardiolista. O Santiago Bernabéu foi testemunha de um massacre histórico. No 6 a 2 do Barça contra o Real Madrid, os comandados de Juande Ramos, ingenuamente, lançaram-se ao ataque deixando a medular espaçada. Tudo que Xavi e Iniesta queriam. E, para o azar do madridismo, naquela tarde nascia o Messi falso 9, jogando muito mais pelo centro do que pela direita.

Foto: Site Oficial do Barcelona | No primeiro ano de carreira, Guardiola conquistou a Tríplice Coroa. Na Liga Espanhola, um passeio histórico contra o Real Madrid, no Santiago Bernabéu

Foto: Site Oficial do Barcelona || No primeiro ano de carreira, Guardiola conquistou a Tríplice Coroa. Na Liga Espanhola, um passeio histórico contra o Real Madrid, no Santiago Bernabéu

A necessidade de se adaptar a Guardiola e a Messi falso 9 mudou o futebol do país das touradas. A Liga melhorou, os jogos entre equipes que não envolviam Barcelona e Real Madrid tornaram-se mais agradáveis e, quando os clubes saíam para a Europa, mostravam-se superiores aos demais. Indiretamente, todos cresceram para não serem engolidos pela dupla argentino-catalão. A prova desse aperfeiçoamento pode ser constatada na Liga Europa. Além do bi-campeão Sevilla, o Atlético de Madrid foi campeão duas vezes em 2010 e 2012, o Athletic Bilbao de Marcelo Bielsa alcançou final, o Valencia foi semifinalista duas vezes e até o Levante foi um incômodo na edição 2011/2012. Na temporada passada, o Villarreal de Marcelino García Toral só foi parado nas quartas-de-finais, justamente pelos sevillistas.

Foto: Site Oficial do Chelsea | A necessidade de competir contra o Chelsea de um jovem Mourinho forçou a melhoria no futebol inglês

Foto: Site Oficial do Chelsea || A necessidade de competir contra o Chelsea de um jovem Mourinho forçou a melhoria no futebol inglês

O último “boom” da Inglaterra em plano continental foi constituído pela obrigação de se impôr contra o Chelsea entre 2004 e 2006. O “efeito Mourinho” foi fundamental para clubes e treinadores se reformarem. A consequência foi o império que Chelsea, Liverpool, Arsenal e Manchester United construíram na Champions antes da revolução catalã de 2008. O futebol é dos fenômenos e os melhores se alimentam disso. Com Guardiola, a mentalidade inglesa certamente irá mudar. Para melhor.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.