1987: o ano mantido em cativeiro.

  • por Nilton Plum
  • 4 Anos atrás

No futebol, terreno fértil para a hipocrisia, o Campeonato Brasileiro de Futebol de 1987 ocupa lugar de destaque. Quem acompanha o esporte sabe. Quem não acompanha (ou não teve a atitude de pesquisar) precisa saber, resumidamente, que a CBF não realizou o campeonato de início. Os principais clubes brasileiros se reuniram e decidiram começar a competição, dando a ela outro nome que não fosse o “Campeonato Brasileiro” de costume. Campeonato em prática com sucesso, a CBF, que tem a velha mania de não reconhecer a autonomia dos clubes para depois aparelhar, à sua maneira, qualquer tipo de decisão fora de seus moldes, retornou arrependida e alterou o que antes havia sido acordado. Flamengo campeão insurgente, Sport campeão da CBF. Os clubes? Bem, os clubes traíram o Flamengo. Isolaram-no. Viraram as costas e deram de ombros como se nada tivessem a ver com aquilo.

Basicamente foi o que aconteceu. Em tempos de Primeira Liga é sempre bom lembrar…

Curiosamente, após anos de polêmicas, desde discussões de boteco até grotescos processos na Justiça Comum, foi da CBF, em 2011, que partiu a decisão mais coerente e justa. Acabava-se a polêmica. Evitava-se o conflito. Dois campeões, título dividido. Não é tão simples assim.

Todos, no fundo, querem ver Davi derrubar Golias novamente. É como uma lei natural das coisas. Alguém no Sport percebeu que seria muito mais midiaticamente proveitoso para o clube entrar em rota permanente de conflito com o Flamengo, EXIGINDO a posse única do título, do que aceitar uma fraternal e pacífica decisão, 2 campeões. O Sport não se tornaria o clube que, após uma decisão de penais empatada em 11 x 11 com o Guarani, foi campeão via critérios de desempate. Não se tornaria o clube que aceitou passivamente a divisão de um título com outro, do eixo Sul-Sudeste. Ele se tornaria o clube que contestou o título do Flamengo. De uma maneira canhestra, isso daria muito mais visibilidade do que um jogo em si.

Infeliz do torcedor que precisa da Justiça Comum, tão atarefada com coisas mais importantes, para validar a História, seja ele rubro-negro carioca ou pernambucano. Independente do resultado na Justiça, 87 nunca acabará, assim como os conflitos na Palestina não acabaram com a criação de Israel. Assim, como lá, aqui tem muita gente que tem total interesse que não acabe.

87 define caráter. Pergunte a alguém que acompanha futebol sobre 87. Se a pessoa, no mínimo, não disser que a divisão do título seria o caminho mais viável, desconfie.

87 está em cativeiro e os culpados estão aí. É o Sport que se entregou à exposição espetacularizada através da mesquinharia judicial. É o Flamengo, que se escorou e se acomodou por anos a fio no senso comum de que era o legítimo campeão e de que a Justiça poderia favorecê-lo. São os clubes que se insurgiram contra a CBF e depois deram de ombros porque só há um campeão e não 13. É o torcedor, que esperneia em gritos em favor da moralização do futebol e da CBF, mas não mede esforços em se refestelar em felicidade quando o assunto é um título reconhecido ou não de um rival.

Se a CBF ano que vem inserir a Primeira Liga em seu calendário, qual torcedor que defende apaixonadamente a moralização do futebol e grita contra a instituição reconhecerá o torneio “em caráter amistoso”, taxado assim pela Confederação, caso o Flamengo seja o campeão?

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