Cenário infernal na toca dos diabos

O Manchester vive uma temporada de poucos altos e muitos baixos. Apesar de alguns bons resultados recentemente, o clima que permeia os arredores de Old Trafford é sombrio por demais e o cenário não é dos melhores. Um completo caos! Em três anos, os diabos vermelhos despencaram do céu ao inferno. É, amigos, a aura flamejante do anjo caído por terra parece ter se apagado, pois desde que o velho Alex pendurou a prancheta, os ventos não estão mais soprando a favor do maior campeão inglês. Parece que Ferguson realmente tinha algum pacto pessoal com o Tinhoso.

Nos últimos tempos, sorriso no rosto de um mancuniano é verdadeiro vendaval – dá e passa, como diria Joel Santana “numa rapidez muito rápida”, pois a tempestade vem logo em seguida. Não dá nem para sorrir um mês inteiro, como surpreendentemente vinha acontecendo nas últimas semanas. Era o prenuncio da tragédia que iria ocorrer face o West Browmich pela Premier e contra o Liverpool na UEL.

O X da questão é: como um clube tão milionário, grandioso e acostumado com glórias tem vivido tempos tão difíceis? Nas próximas linhas, descreverei a série de fatos que contribuem para isso.

Os problemas têm início no extracampo, onde o clube passa por um momento muito conturbado. A palavra amadorismo define bem a situação: nenhuma equipe no mundo tem uma estrutura tão mal aproveitada quanto o maior campeão inglês, e muito disso se dá pela falta de afinidade dos dirigentes com o universo futebolístico.

Donos que sequer visitam o clube e um diretor de futebol que é banqueiro e não sabe diferenciar um “winger” de um “forward” são só alguns dos problemas de gestão do Manchester. Talvez isso se justifique pelo fato de que o objetivo principal do clube atualmente é arrecadar e lucrar, porém – convenhamos –, isso é postura digna de uma empresa privada, não de uma instituição de futebol como o Manchester United.

Dentro das quatro linhas, a equipe ainda segue em busca de uma identidade. Em meio ao caos e aos desfalques, o experiente (e meio ultrapassado) Louis van Gaal tenta a todo custo implantar uma “filosofia”. A máxima de Sócrates define tudo que eu, que vos escrevo, entendo sobre o estilo de jogo do United: “tudo o que sei é que nada sei”.

Foto: manutd.com

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Na atual temporada, o time ficou marcado por manter uma posse de bola mórbida e sem objetividade alguma, com transições tão lentas quanto o raciocínio de Valencia. Além disso, não ocorriam infiltrações, tabelas rápidas ou algo que sequer fizesse o time assustar o adversário. Como consequência, a equipe ganhou o apelido de “boring United”. Dava sono – mentira, dava raiva mesmo! A má fase de alguns jogadores também foi fator determinante para que a situação ganhasse contornos tão dramáticos.

Leia mais: Desculpe, Van Gaal

Os últimos jogos pareciam ameaçaram uma ressurreição dos diabos vermelhos. Os ventos finalmente sopraram a favor e o time conseguiu emplacar uma série de vitórias que lhe deu sobrevida na Europa League, na FA e até mesmo na disputa por vaga na Champions League. Jogando bem em alguns momentos, sendo pragmático e eficiente em outros, de vez em quando contando com a sorte, assim ressurgiu o United.

Porém, a euforia foi por água abaixo depois dos últimos resultados. Atuação pífia contra o West Browmich e um verdadeiro baile no Anfield, onde o time foi dominado e espancado pelo Liverpool. Não fosse a atuação fantástica do goleiro David De Gea, teria sido goleada.

De toda forma, os resultados recentes só serviram para coroar a péssima temporada e condenar de vez a comissão técnica, que não vem agradando o torcedor (e, se bobear, nem o próprio treinador). É incrível ver que um cara do porte Louis van Gaal, bem-sucedido por onde passou e acostumado à pressão de grandes clubes, tremeu na base e ainda não conseguiu sequer dignificar o time, cuja dignidade David Moyes arrancou. Apesar dos lampejos, onde conseguiu conquistar quatro vitórias consecutivas, com duas classificações e uma cena descontraída digna de Oscar, para a felicidade de todos, LvG não deve permanecer.

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Foto: manutd.com

Mas precisamos ser justos e reconhecer que nem todo trabalho é péssimo e nem tudo foi tempo perdido. De fato, ocorreu uma renovação – me arrisco a dizer que o Manchester tem o time profissional mais “sub” de todo o mundo. São muitos garotos da base subindo e muitos outros sendo contratados. Muito disso, fruto do trabalho de Ryan Giggs, que vem cuidando pessoalmente dessa transição. O eterno camisa 11 pouco tem demonstrado aptidão para ser treinador, mas, em compensação, parece ser um olheiro de mão cheia, vide as contratações de Martial e Luke Shaw. A ascensão de garotos como Rashford, autor de 4 gols e 1 assistência nos seus dois primeiros jogos, só comprova que Carrington continua sendo celeiro de grandes talentos (assunto que será tema de uma próxima matéria).

A melhor coisa nessa comissão talvez seja Albert Stuivenberg, o assistente de van Gaal. Esse cara passa despercebido, mas é muito competente no que faz. Ele é o mentor das jogadas ensaiadas do United, como aquela “barreira falsa” no gol de Mata contra o Shewsbury na FA Cup, e a falta rolada na cabeça de área que gerou o gol de Blind contra o Liverpool, pela Premier.

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Outra grande penúria é o departamento médico. Em todas as temporadas, o time sofreu com muitos desfalques por conta de lesões, passando por situação semelhante ao velho Arsenal. No momento, a equipe conta com “apenas” 9 desfalques, sendo os principais Rooney, Shaw, Young e Valência. O setor de fisiologia do clube precisa ser trocado para ontem, porque UMA vez até dá para perdoar, mas TODA TEMPORADA é complicado.

Em poucas palavras, está tudo errado. Até mesmo Fred, o mascote, perdeu aquele carisma e energia habitual para os jogos. Mas parece que “ACOBOU A PAS”. Um sopro de esperança surge em meio à tempestade e as perspectivas para a próxima temporada são até boas.

Mourinho

Crescem os rumores de que José Mourinho chegará para colocar ordem na casa. O inferno, afinal, precisa de um diabo furioso para liderar o bando e o marasmo e passividade habituais de Gaal, mesmo que tenham sido modificados recentemente pelas circunstâncias, não cabem nesse contexto. O “Special One” é visto como antídoto natural para Guardiola, que causou um enorme furor ao ser anunciado como treinador do rival local.

Além de Mourinho, parece que finalmente um PROFISSIONAL de futebol virá para, enfim, organizar a bagunça que se tornou o velho teatro. Andrea Berta, diretor do Atlético de Madrid, é o nome mais cotado para assumir a função de diretor de futebol, deixando Woodward restrito à parte da qual entende: “o marketing”.

É hora de reacender a chama desse gigante. O futebol mundial perdeu um grande protagonista com o declínio do Manchester. O time precisa se reinventar e, principalmente, voltar a encher o torcedor de orgulho e felicidade. Popular sem populismo, intrépido e grandioso, o Manchester United sempre foi referência quando o assunto é superação. O que o futuro reserva eu não sei, mas torço para que, como uma fênix que ressurge das próprias cinzas, os diabos vermelhos possam dar a volta por cima.

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Isso é tudo pessoal! Um abraço. (Imagem: Ewerton Luís)

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Filipy é um jovem advogado do interior de Pernambuco. Católico por amor e convicção, tem 23 anos, vive e respira futebol, inclusive, já furou encontro com a própria namorada para jogar descalço nos sórdidos gramados sertanejos. É no esporte bretão que ele encontra o seu maior refúgio nas tardes negras de sábado. (Colunista - Manchester United Brasil)