Entregar a Seleção Olímpica a Dunga é uma temeridade

No comando da Seleção Principal, Dunga não mostrou nada que respalde a chance que vai receber (Foto: CBF/Divulgação)

No comando da Seleção Principal, Dunga não mostrou nada que respalde a chance que vai receber (Foto: CBF/Divulgação)

Imagine o cenário. Você comprou, suado, aquele carro. Cuida dele com todo o carinho. Pode nem sempre ter tomado as decisões mais sábias ao usá-lo. Também pode, é claro, ter tido seus percalços (até porque nem todas as Prefeituras do país zelam por suas malhas asfaltadas… mas aí, já é outra viagem, diria Belchior). Você, enfim, faz o que pode para conservar seu possante. E todo mundo reconhece isso: quem vê, elogia seu cuidado, estampado em cada centímetro do veículo. Só que aí, surpresa! Seu patrão obriga você a emprestá-lo ao filho dele, que acaba de capotar espetacularmente graças a uma derrapada de seus pneus já castigados. É mais ou menos a situação que vive o agora ex-técnico – ou quase isso – da Seleção Olímpica, Rogério Micale.

Ele assumiu o projeto olímpico após a demissão de Alexandre Gallo, no último mês de maio. Desde então, tem se notabilizado por fazer seu time jogar um futebol agradável. E, acima de tudo, proporcionar uma preparação de qualidade para uma geração cheia de bons valores, que chega aos Jogos Olímpicos com reais condições de dar fim à obsessão brasileira pelo ouro (Sávio, medalhista de bronze em 96, comentou algo parecido em entrevista exclusiva). No entanto, depois de “roer o osso” fazendo o serviço de pré-seleção dos jogadores e imprimindo um padrão visivelmente sólido na equipe, ele não vai poder “comer o filé”: é Dunga quem comandará a Seleção no Rio de Janeiro.

Apesar do trabalho consistente, Micale não foi considerado para seguir comandando a sub-23 (Foto: Divulgação/CBF)

Apesar do trabalho consistente, Micale não foi considerado para seguir comandando a sub-23 (Foto: CBF/Divulgação)

Nem é preciso entrar ainda nos méritos, na qualificação e nos métodos de cada um. As questões são bem mais simples. Quem, em sã consciência, é capaz de enxergar benefício na troca de um profissional bem ambientado e integrado aos seus subordinados por alguém que vai cair de paraquedas – justamente na hora de colocar toda a preparação feita pelo anterior em prática? Qual a chance dessa mudança abrupta e despropositada gerar algo além de um choque de ideias? Aliás, há ideias?

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É difícil cravar quem teria avalizado essa decisão. A CBF vive uma estranha “vacância” de poder: enquanto o licenciado Marco Polo Del Nero ainda dá as cartas (só não pode sair do país), Antônio Carlos Nunes, que prefere ser chamado de coronel, finge ocupar a presidência. Mas se pode ser injusto creditar a qualquer um dos dois a opção por Dunga, é razoável crer que nenhum deles esteja assistindo aos jogos da Seleção Principal – imagine os da Olímpica… -, ou que se importem com os resultados recentes obtidos pelo time nas Eliminatórias.

Arte: DPF

Regredindo a cada partida, a equipe de Dunga demonstra uma falta de repertório assustadora. Nas últimas dez partidas oficiais, foram só quatro vitórias – todas contra Peru e Venezuela. Mas os números, por incrível que pareça, são a faceta mais otimista do desempenho recente brasileiro. Assistir a esse time jogar tem sido uma experiência incômoda. Principalmente pelo fato de ver atuar sob uma mentalidade de jogo tão pobre um grupo tão cheio de talentos, vários deles consolidados na elite do futebol. Uma geração que pode não ser a mais forte de nossa história pentacampeã, mas que tampouco deixa a desejar em termos de qualidade técnica individual a 99% das seleções do planeta. Todo esse material humano, que outros países veriam como abundante, tem sido sistematicamente subaproveitado pelo técnico.

Micale entrega a Seleção a Dunga com mais de 70% de aproveitamento (Foto: CBF/Divulgação)

Micale entrega a Seleção a Dunga com mais de 70% de aproveitamento (Foto: CBF/Divulgação)

Esse fraco retrospecto em competições oficiais não saiu barato para o treinador, que já leva consigo uma carga de antipatia por seu jeito turrão. Quem acompanhou pelas redes sociais o empate da última quarta-feira, entre Brasil e Paraguai, foi testemunha das reações mistas que o gol de Daniel Alves, nos acréscimos do 2º tempo, provocou. Muita gente estava torcendo para que a derrota fosse consumada, para jogar lenha na fogueira da demissão de Dunga. O mau futebol e a ausência de vitórias convincentes criaram sobre o treinador uma pressão descomunal, que ele leva consigo quando assumir o comando da Seleção Olímpica. Tudo que nossos atletas sub-23 mais precisavam, como se a expectativa da torcida pelo topo do pódio já não fosse sufocante o suficiente.

O que a chegada de Dunga pode aportar a esses jovens? Seus conceitos táticos, métodos de treinamento e gestão de grupo farão o time olímpico evoluir para os Jogos? Se depender do que ele tem demonstrado não só na atual passagem pela Seleção Principal, mas em toda a sua carreira de treinador, não há nada que indique essa possibilidade.

Formados no exterior, Rafinha (direita) e Andreas Pereira (esquerda) ganharam sequência com Micale (Foto: CBF/Divulgação)

Formados no exterior, Rafinha (direita) e Andreas Pereira (esquerda) ganharam sequência com Micale (Foto: CBF/Divulgação)

Pelo contrário: o mais provável é que ele tente moldar o psicológico do elenco com aquela velha estratégia do “nós contra eles” – no caso, “eles” seriam os setores da torcida e da imprensa que cobram um futebol mais próximo do que o Brasil tem potencial para apresentar. E que seu trabalho de campo, se não desmontar por completo o que Micale vinha desenvolvendo, no mínimo gere dúvidas e confusão em um padrão de jogo que já parece muito claro na cabeça dos atletas. De positivo, só mesmo a certeza de que, nessa tragédia anunciada, nenhum dos 18 convocados sairá tão faiscado quanto Dunga.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.