Há 70 anos gols e irreverência andam juntos

Foto: Atletico.com.br

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O dia quatro de março pode ser lembrado de muitas formas pelo planeta bola. Nesta data, o lendário Kenny Dalglish e outras figuras de importante relevo, como Marcelo Oliveira, Ariel Ortega e Landon Donovan, vieram ao mundo. Mas ela não seria a mesma se há 70 anos, no Rio de Janeiro, não tivesse nascido Dario José dos Santos, um homem que ganharia a admiração de muitos por sua história, irreverência e pelas 926 vezes em que tirou de milhares de gargantas o grito de gol.

Quem vê o número supracitado em sua frieza pode imaginar um goleador requintado, dada tal proficiência. Não poderia estar mais enganado quem assim pensou. Todavia, se a maioria dos goleadores é definida pela posição de atacante, o artilheiro em foco era descrito pela função de marcar gols; essa era a razão de sua escalação. Daí também deriva uma de suas mais célebres frases: “não existe gol feio, feio é não fazer gol”.

Um jogador que proferiu grandes “pérolas” como: “há três poderes na terra. Deus no céu, o Papa no Vaticano e Dadá na grande área”, “com Dadá em campo, não tem placar em branco”, “não me venham com a problemática que eu tenho a solucionática” ou “somente três coisas param no ar; beija flor, helicóptero e Dadá”. Poderia ser lembrado somente como um personagem do folclore que envolve o futebol, mas, de fato, seu faro de gol o diferenciava.

Foto: SportRecife.com.br

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Ele é o segundo maior artilheiro da história do Atlético Mineiro, clube onde foi Campeão Brasileiro (marcando o gol do título), com 211 gols; com a camisa do Sport marcou 10 vezes contra o modesto Santo Amaro; e com Atlético, Sport, Internacional, Bahia, Goiás e Nacional de Manaus conquistou títulos estaduais – além de um brasileiro com o Colorado. Ah! Já ia esquecendo-me. Dario também estava no elenco do tricampeonato mundial brasileiro.

Apesar disso, não é só a irreverência e os gols que tornam Dario alguém tão especial.

Dario Peito de Aço, outra de suas alcunhas, teve que superar inúmeras dificuldades para chegar onde chegou. O jogador viu sua mãe colocar fogo em si mesma e o pai abandoná-lo, junto com seus irmãos. Esse contexto o fez crescer como um garoto cheio de revolta. A vida, marginalizada, levou-o a cometer delitos na adolescência, mas, no fim, Dadá encontrou no futebol seu ofício e nas redes um amigo.

Seu início foi no modesto Campo Grande e, apesar da falta de intimidade com a pelota, sua disposição, velocidade – nascida da necessidade de fugir da polícia – e vontade de vencer o levaram a nunca desistir, ainda que as dispensas do pequeno clube tenham sido muitas.

Foto: Internacional.com.br/ Alexandre Lops

Foto: Internacional.com.br/ Alexandre Lops

Em entrevista concedida ao SporTV, em 2013, o ex-jogador comentou sobre isso:

“O Campo Grande foi tudo para mim. Quando cheguei era bandido, ladrão, assaltante, saí da Febem, e era perna de pau, pereba. Mas eu tinha uma velocidade incrível de correr da polícia, uma impulsão fenomenal de pular em árvore e muro para roubar, e cismei de ser jogador de futebol. Fui no Campo Grande seis vezes e fui dispensado seis vezes, quando fui a sétima o Gradinho me viu correndo e pulando e disse: menino, você é horroroso, mas quero você, vou te ensinar”, disse.

Sua chegada ao Galo, o divisor de águas em sua trajetória, também teve o fator sorte a seu lado. Em 1968, o vice-presidente do clube foi convidado por um torcedor embriagado a acompanhar uma partida do Campo Grande, que aconteceria antes de outra, do São Cristóvão. Jorge Ferreira queria acompanhar Carlinhos, do Tóvão, mas, convencido por aquele ilustre desconhecido, assistiu o primeiro encontro, topou com Dadá e levou-o às Minas Gerais.

“Ele disse a um torcedor que tinha ido buscar um goleador no futebol carioca. O cara já tinha tomado todas a falou: ‘O Carlinhos é craque, mas não é goleador. Goleador é o atacante do Campo Grande. Ele é ruim de doer, mas, quando joga a bola na frente, ninguém pega’. O Jorge Ferreira disse que o Atlético não contratava jogador ruim, mas resolver dar uma chance”, revelou Dario à ESPN em 2015.

Nascia ali um ícone. Embora seja ídolo de algumas torcidas, Dadá conseguiu se colocar acima das disputadas clubísticas, sendo alguém que goza da simpatia e do respeito de quem o conhece, sabe de sua história ou simplesmente o vê na tv.

Foto: Reprodução/Placar

Foto: Reprodução/Placar

É difícil não associar a figura desta lenda ao Atlético Mineiro, mas, verdade seja dita, todo torcedor que um dia gritou o nome de Dario das arquibancadas, vendo-o representar seu time, não se arrependeu. Seu grito não foi em vão.

Falar de seus feitos é tarefa para poucos, pois estes são muitos, por muitas agremiações, e demandaria um tempo imenso, que não cabe nas 24 horas que marcam a data de suas setenta primaveras.

Hoje Dadá segue vivendo em BH, cidade em que, onde quer que vá, sempre escuta um elogio ou dá um autógrafo. Apesar de ser “das antigas”, é facilmente reconhecido e recebe o carinho de todos – sim, de todos, o que inclui cruzeirenses e americanos e pessoas de todas as idades. Acima dos gols e do folclore que se criou em seu entorno, Dario José dos Santos, com seu carisma único, tornou-se um cidadão respeitado.

Carreira:

*Campo Grande-RJ – 1967/1968
*Atlético – 1968/1972
*Flamengo-RJ – 1973/1974
*Atlético – 1974
*Sport-PE – 1974/1975
*Internacional-RS – 1976/1977
*Ponte Preta-SP – 1977/1978
*Atlético – 1978/1979
*Paysandu-PA – 1979
*Náutico-PE – 1980
*Santa Cruz-PE – 1981
*Bahia-BA – 1981/1982
*Goiás-GO – 1983
*Coritiba-PR – 1983
*América-MG – 1984
*Nacional-AM – 1984/1985
*XV de Piracicaba-SP – 1985
*Douradense-MS – 1986
*Comercial de Registro-SP – 1986

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.